A terceira estrela esquecida e o primeiro tri das Américas

 

Recopa Mundial conquistada com o gol de Toninho

Neste dia 24 de junho, em 1969, um ano quase tão mágico para o futebol quanto o biênio 1962/1963, o Santos bateu a Inter de Milão no San Siro por 1 a 0, gol de Toninho Guerreiro. Era o terceiro mundial de clubes. Menos de uma semana após vencer as finais do campeonato paulista (outro tri estadual), o time viajou para jogar com o supercampeão europeu com a faixa da Recopa Sul-Americana.

Das duas copas, organizadas pela UEFA e pela Conmebol, participaram apenas clubes campeões mundiais. O representante europeu foi definido pela desistência do Real Madrid de participar do confronto com a Inter. Na verdade, o clube espanhol sempre evitou jogar contra times sul-americanos fora do seu continente, particularmente contra o Santos de Zito e Pelé, e essa era uma possibilidade, caso disputasse e ganhasse o título continental.

Do lado de cá, disputaram a Recopa Sul-Americana o Peñarol do Uruguai, o Racing argentino e o Peixe. Dois turnos, com jogos de ida e volta. O primeiro turno foi jogado em novembro de 1968. O Santos venceu o Racing no Parque Antártica (2 a 0, Pelé e Edu) e o Peñarol no Maracanã (1 a 0, Clodoaldo).

No returno, abril de 1969, outra vitória sobre o Racing em Avellaneda (3 a 2, com dois de Toninho e um de Negreiros) e uma derrota de 3 a 0 contra o forte time uruguaio, em Montevidéu. Na última rodada, o Racing, que havia perdido de 3 a 0 no Centenário, segurou o Peñarol (1 a 1) e deu o título ao Peixe.

Na Recopa Mundial, o regulamento previa decisão em melhor de três jogos, mas em seguida à derrota em Milão, os italianos decidiram entregar os pontos. Ainda no vestiário, anunciaram que não viriam ao Brasil e os santistas puderam trazer no avião a taça do seu terceiro título mundial de clubes.

De forma que, bem antes do São Paulo, o Santos foi tricampeão mundial, justificando a fama obtida desde o início da década de melhor time de futebol do planeta. Talvez nem tenha comemorado tanto quando os dois primeiros mundiais, pelo excesso de conquistas acumuladas pelo time de Zito e Pelé.

Naquele mesmo ano, além dos dois títulos internacionais, o Peixe fechou outro tricampeonato paulista, a competição mais forte do continente, e contribuiu com quase todos os seus titulares para a mais brilhante classificação de uma seleção nacional para a Copa do Mundo.

O milésimo do Rei: cereja de 1969

O Brasil habilitou-se a ganhar o tri mundial no México contando com oito santistas no grupo convocado pelo técnico João Saldanha: Cláudio, Carlos Alberto, Joel Camargo, Djalma Dias, Rildo, Clodoaldo, Pelé e Edu. Seriam nove, se fosse feita justiça a Toninho Guerreiro.

Coroando o ano, no dia 19 de novembro, no Maracanã, os companheiros do Rei comemoraram o milésimo gol junto com ele.

Matando a democracia, para salvar a democracia

                              Semelhanças e afinidades

Há duas semanas, bandos “democratas” de torcedores organizados dos times de futebol de São Paulo vestiram preto como cor preferencial, ergueram os punhos fechados à mma e foram à luta. O palco da guerra, a Avenida Paulista, estava parcialmente ocupada pelos “fascistas”.

O comando de defesa da democracia, como autoproclamado e tratado pela grande mídia, estava armado de seus melhores argumentos – paus, pedras e artigos para fogueira, E não titubeou. Foi pra cima da polícia, tentando chegar ao inimigo. Destruiu e queimou o que encontrou no caminho, em eloquente demonstração da tolerância que os guia. Com um porrete na mão e uma palavra de ordem na boca, não são mesmo umas gracinhas, Hebe?

O xerifão companheiro do velho juiz de merda nada viu demais nisso tudo. Nem moveu um nervo do mussolíneo rosto. Em São Paulo, até a guarda civil metropolitana sabe quem são os organizadores e financiadores dos bandos ditos de torcedores, na verdade formados por arruaceiros e criminosos.

Se a polícia municipal nada faz contra eles é porque se borra de medo dos marginais e de suas ramificações nos presídios. Como conhece de perto seus bons clientes, não é com eles que o acusador-investigador-punidor da nossa peculiar justiça se preocupa. Daí também a inércia da banda dominada da Polícia Federal, aquela que não se submete a interferências.

Os olhos argutos do pau mandado do advogado do PT, hoje presidente do stf (quem diria!), estão voltados para o outro lado. O lado amarelo. Para o esperto Xandão, é ali que mora o perigo. Parecem grupos familiares, incluídas as crianças e os não esquecidos velhinhos, em inocente convescote na via pública. Mas o solerte policial não se deixa enganar, pois sabe tudo de bandidagem.

Sabe que aquela turma apenas disfarça malignas intenções. É certo que ninguém agridem, nada destroem, mas querem acabar com a corte dos impolutos Gilmar e Lewandowski e com o parlamento do Botafogo e de outras dezenas de sobreviventes da lava jato. Vejam só!

Legislativo e Judiciário, principalmente na figura dos que mais os emporcalham não podem ser criticados por ninguém. Já no outro poder constitucional, o Executivo do presidente democraticamente eleito e do ministério legitimamente escalado, nesse podem bater à vontade.

Sintam-se liberados milicianos encapuzados, grande mídia marrom empulhadora, blogs e publicações nanicas movidas a pixulecos, esquerda rouanete festiva e, sempre, instituições da sociedade civil aparelhadas política e ideologicamente. É preciso dar nome ao gado, Santa Cruz?

A parcialidade de toda essa gente é tão grande que os fogos lançados sobre um supremo preenchido pela ausência de Fachins e Carmem Lúcias escandalizaram nossos democratas impressos, televisivos e judiciais. Os mesmos que ignoraram a retirada do mastro e a queima da bandeira brasileira, naquela noite, em Curitiba, por rapazes civilizados. Como ninguém é de ferro, não se pode condenar que eles tenham aproveitado o embalo para também abater vitrinas suspeitas de atentar contra as liberdades.

Nesse caso, o advogado do pcc, hoje inquisidor mór do tribunal que consagra Celso de M…, é um magistrado compreensivo. Entende a fúria da rapaziada e acha legal o hackeamento de autoridades, sem temer a volta do cipó de arueira e do pau que bate em Chico.

É implacável, porém, com a privacidade e a inviolabilidade de deputados e senadores com mandato popular. Acha que o xamego do Temer que o nomeou é tão representativo quanto o voto de milhares de brasileiros. Pois, sim! – dizia a Bela (e sábia) Dolores.

Será que temos de nos orgulhar do Darth Vader feito black bloc desgarrado que estraçalha a democracia para alegadamente salvá-la?

Com todo meu amor: sofra e morra, canalha!

Semana passada, um obscuro escritor, de algum sucesso junto à patota (o que é duvidoso, porque são todos intelectuais e entre eles há mais competição do que amizade), disse cheio de amor no coração que o país só vai melhorar quando o último bolsonarista for enforcado com as tripas do último pastor evangélico. Que fofo! Reproduzo sem aspas, porque esqueci de copiar e colar tão caridoso sentimento, o melhor que habita essa alma sensível.

No fim de semana, um amigo que prezo demais propôs que a atriz Regina Duarte, ex-secretária de cultura do governo federal, seja carinhosamente empalada. Sexo anal com areia e vidro moído seria sua pena, de acordo com o bom amigo, por suposta “apologia a crimes de tortura”. Quanta ternura! A moça nem foi julgada, muito menos condenada, mas já está apenada por pessoa que cultiva as práticas democráticas e ama o próximo como a si mesmo.

Sabe-se que Alexandre de Morais investiga um chamado “gabinete do ódio”. Saber o que o sujeito investiga não é difícil. Complicado é achar algo que ele não está investigando. No tal inquérito que o presidente do STF abriu e esqueceu de fechar cabe qualquer coisa. Até olhar feio, se quem olha está do lado de lá e o olhado é “gente nossa”. Uma beleza de sistema que combina acusação, apuração e julgamento, tudo a cargo de uma corte composta do pior que nossa justiça já obrou. Inclusive o famoso “juiz de merda”.

No país do mais feroz Xabuca versus Burrinha – e quem já subiu o Morro do Marapé sabe do que falo –, atribuir os pecados da ira e do ressentimento a alguém é como cuspir para cima. Mas os dedos acusadores imaginam que, como nas turras da infância, ganha aquele que “pisar aqui primeiro”. Sabem como é: quem se desloca recebe! Dito deste jeito, tem sabor de meninice. Tem até alguma graça e poesia. Mas não se deve brincar com perversidades, como descuidadamente faço agora. A coisa é muito séria e machuca.

Nos dois casos citados, a raiva irrefreável se volta contra o lado que supostamente representa o mal, encarna a tortura e defende todas as mazelas dos regimes autoritários. Os agentes do tal gabinete do ódio. Mas, no fundo, o crime que se atribui a eles é querer ser ou querer fazer, já que de fato não são nem fizeram. Ainda não, admitem os bonzinhos, alertando que estão loucos para ser e fazer. De modo que é melhor prevenir, como acreditam a grande mídia e nossas melhores cabeças.

Outro ditado antigo diz que há fogo onde há fumaça. De fato, o governo acuado de todo lado, inclusive por uma pandemia, faz o possível para alimentar as suspeitas. Raramente acerta, erra em quase tudo e suas bocas falam bobagens demais. Seu maior erro, entretanto, foi ganhar a eleição e tentar pôr em prática o que anunciou na campanha eleitoral. Como pode! É inacreditável!

Bolsonaro, vejam só, comete o crime de querer fazer um governo bolsonarista.

Dá raiva!

De golpe em golpe, e o país que se dane!

Se Celso de M… pode comparar o Brasil atual à Alemanha dominada pelos nazistas nos anos 1930, posso perguntar que diferença existe entre o nosso país e as repúblicas bananeiras caribenhas, centro e sul-americanas, que fazem o sucesso dos escritores do nosso continente? Existe diferença? Talvez o que nos distingue seja o fato de que as quarteladas não são tão comuns por aqui. Mas os golpes e tentativas se sucedem com igual velocidade.

Mal a democracia brasileira foi reinstalada, após esboroar-se por si mesma a ditadura militar, lépidos tratamos de derrubar o primeiro presidente legitimamente escolhido em eleição direta. OK, o cara era inacreditável! Mas em seguida todos os outros sofreram ameaças ou tentativas de impeachment. Os mesmos que se unem para derrubar um, logo estão em fronts opostos, tentando pôr pra fora o beneficiário do golpe. “Governo bom é só o meu”, parecem dizer. São mais de 30 anos de inconformismo com o voto popular.

Enquanto o Brasil viver entre disputas eleitorais que, anunciados os resultados, se transformam em campanhas pela derrubada do eleito, dificilmente sairemos do atraso político e institucional em que nos afundamos mais e mais. É uma tristeza! Alegam os eternos golpistas que assim agem para corrigir o voto errado dos eleitores, que não sabem escolher a melhor opção disponível e colocam gente errada no poder. Conversa mole! Desculpa de quem só quer usar a democracia para chegar lá e nunca mais largar o osso.

O pessoal do PSDB previa, com a eleição de FHC, uns vinte anos dos tucanos no comando do país. Conseguiu oito anos, por causa da reeleição obtida no conchavo com parlamentares do chamado baixo clero. Zé Dirceu, que quis apear um ex-aliado do cargo ainda no primeiro mandato, pensava maior para o seu PT: 30 anos no poder. Quase conseguiu, com injeções de mensalão e petrolão. Pena! O sonho acabou no tsunami Dilma, que levou partido e país para o ralo!

No caso do lulopetismo, em suas eleições e reeleições, o golpe foi aplicado no eleitor, que só comprou gato por lebre. O Lulinha paz e amor, tal como foi travestido pelo marqueteiro do malufismo, logo se transformou no presidente que comandou o maior saque da história do Brasil, desde que os portugueses entregaram o ouro das Gerais para os ingleses. Dilma, por sua vez, ganhou duas eleições em campanhas sórdidas, movidas a fake news, à altura dos adversários Serra e Aécio. Na última, prometeu uma coisa e fez o oposto, exatamente aquilo que, segundo esbravejava na tv, os adversários fariam se eleitos.

Foi derrubada antes da metade do prazo de validade, e virou inimiga do próprio vice, que assumiu conforme manda a Constituição. Como teve os direitos políticos mantidos pelo companheiro Lewandowski, indicado ao STF pela falecida mulher do antecessor, engrossou o clamor pela redução da permanência de Temer na cadeira presidencial. Vestiu direitinho o figurino golpista, costurado sob medida para seus companheiros da esquerda.

Se entre si aplicam rasteiras, como esperar outro comportamento diante de um estranho no ninho. Bem ou mal, Bolsonaro rompeu com a alternância do PSDB e do PT no governo federal, o que é inaceitável para ambos. Anunciados os votos de outubro de 2018, já se falava em impedir a posse. Quando esta se tornou inevitável, começou a campanha de desgaste, preparatória da armação de futuros pedidos de impeachment.

O movimento em curso parece caminhar para o êxito, tanto mais que dela participam a grande mídia e o Supremo Tribunal Federal, em cumplicidade com os corruptos que têm o rabo preso até o último fio do pelo sujo. A malandragem conta também com o desonesto uso da pandemia para fragilizar o governo. E é assim, vergastando a cada ciclo as instituições democráticas, que os calhordas dizem querer ensinar o povo a votar. Pobre Brasil!

Não é o eleitor que precisa aprender a votar. São os políticos, as autoridades e as instituições que devem seguir as regras. Sem roubar no jogo!

Celso de M… defende Weintraub

Outro dia, o honorável decano do STF, o tal juiz de merda da história (alô, alô, PCC, sem retaliação, não sou eu quem fala, faço apenas uma citação) disse com as tortuosas palavras dele que o governo está instaurando o nazismo no Brasil. Ficou por isso mesmo! Ele atacou de maneira grave outro poder da República e nada aconteceu. Segue, inclusive, à frente de inquéritos contra um presidente a quem demonstra tanto apreço. Mostra que Saulo Ramos está coberto de razão.

Embora não corra qualquer risco, dadas as imunidades de que goza e graças ao corporativismo de seus iguais do STF, o merda, digo, o ministro do Supremo alegou que falava como um cidadão qualquer, não como magistrado. Daí não se sentir impedido de conduzir processos contra o presidente e o governo, da mesma forma como ninguém deve considerar as palavras dele, o juiz de merda conforme elogiado em livro, um ataque indevido do judiciário ao Executivo.

Se está criada uma jurisprudência nessa posição do Celso de … Mello, o ex-ministro Weintraub dispõe de uma defesa imbatível no processo que a corte move contra ele. Basta dizer, singelamente, que pediu a prisão dos vagabundos como pessoa física, não como integrante do governo Bolsonaro. Exerceu apenas o direito de qualquer cidadão de dizer o que pensa. O cidadão não cometeu crime, e o ministro não caluniou nem ofendeu instituição alguma.

Embora sua palavra valha tanto quanto a do M… ello. Nada!

“Deixa comigo!” Era Edu falando por Ele

No México, em 1959: já não se discutia qual era o melhor do mundo

Naquele tempo… o Cara nada disse aos seguidores. Nem havia o que dizer, porque o debate não existia entre o pessoal da Rua XV, os apreciadores do chope do Nicanor, e muito menos entre o povão da beira do cais, da orla das praias, do Gonzaga e da Vila Belmiro. O Santos era o melhor time do mundo e ponto. Sem contestação! Sem dúvida!

O que Ele deixava rolar eram pequenas discussões (hoje chamadas resenhas, para mim de forma equivocada) que torcedor adora esquentar diante de uma cerveja gelada, de um bolinho de batatalhau e, agora, da tela do computador. Era o que acontecia e o Criador do Time dos Sonhos apenas sorria. “Centroavantes? Vejam o que reservei pra vocês!”

Para ficar só quando a metade da história apenas começava, e não recuar a Arnaldo, Araken e Feitiço, o Santos bicampeão paulista em 1955 e 1956 tinha uma dos mais técnicos e ferozes centroavantes brasileiros: Emmanuelle Del Vecchio, que substituiu Odair Titica na função de fazer gols. Mas em 1955, quando foi artilheiro do campeonato paulista e chegou à seleção brasileira, o italiano já tinha a concorrência de um atacante franzino, formado na Burrinha.

Pagão foi entrando aos poucos no time, muitas vezes ao lado do próprio Del Vecchio, e ganhou a camisa 9 quando o titular passou a substituir o meia Vasconcellos, que teve a perna quebrada num lance com o zagueiro são-paulino Mauro, na Vila Belmiro. Em setembro de 1957, Del Vecchio foi vendido para o Verona da Itália, e a camisa 10 começou a ser assumida pelo menino Pelé, que aos 16 anos já jogava na seleção, e nem era titular do Peixe.

Com tudo isso, saía de cena uma fantástica dupla avançada – Del Vecchio e Vasconcellos –, para a entrada de Pagão e Pelé, que formariam com Pepe o espetacular trio PPP. A partir daí, a sucessão de grandes centroavantes no comando do ataque santista é avassaladora. A década nem termina e já surge Coutinho, outro fenômeno precoce, que estreia com 14 anos.

Um ataque de 1955: Alfredinho, Jair, Pagão, Vasconcellos e Pepe

Essa estirpe de artilheiros (em seguida enriquecida pela chegada de Toninho Guerreiro) só encontra paralelo no que aconteceu na ponta-esquerda do Peixe, a partir do momento em que Pepe se impôs e levou o técnico Lula a deslocar o versátil Tite para o lado direito ou para a armação do time. O Canhão da Vila reinou soberano no ataque santista até a metade da década seguinte, a das grandes conquistas dos anos 1960. Aí, um atrás do outro, chegaram às praias do paraíso os endiabrados Abel e Edu.

A estreia do magrela que veio do América do Rio foi de tirar o fôlego dos mais incrédulos frequentadores das arquibancadas da Vila, tanto quanto dos eternos insatisfeitos das sociais. Eu estava lá e pensei, com outras palavras: “Caramba! Como o Peixe foi encontrar esse diabinho? Só pode ser coisa do Cara lá de cima! Mas, agora, Ele vai demorar para trazer outra novidade como essa.”

Pois não se passou um ano e, numa noite no Pacaembu, diante do Bangu, veio fazer rima o Edu, poeta de Jaú. Sem a menor cerimônia, o moleque de 14 anos tirou a bola das mãos do Rei, na cobrança de uma falta: “Deixa comigo”, ele disse ao atônito Pelé, indeciso entre dar risada ou xingar. Foi o primeiro dos 183 gols que Edu marcou pelo Santos.

(Que me desculpe o pessoal da Assophis pelos enganos factuais que cometo ao contar minhas histórias confiando só na memória. É certo que, de vez em quando, se as dúvidas são maiores do que as frágeis certezas, recorro à bíblia do Odir Cunha, também conhecida como Time dos sonhos. Então, não erro.)

O nome é safadeza e o sobrenome, desonestidade

Mantenho uma curiosidade que nada tem de mórbida ou sádica. Quais são os números da covid-19 nos presídios, nas favelas brasileiras e na cracolândia paulistana? Se é verdade que as aglomerações humanas são fortes condutoras na transmissão do vírus, o que faz sentido, a situação nesses lugares deve ser muito pior do que nas cidades em que a realidade parece mais grave.

No entanto, as informações sobre essas populações são escassas. Acredito não ser difícil levantar esses dados regularmente. A apuração não exige grande empenho e tem a vantagem de dispensar o uso de aparatos cenográficos por repórteres e entrevistados, sem perigo de contaminação. Basta um contato telefônico banal com as fontes da área, como o jornalismo faz há décadas.

Ao que sei, a chamada grande mídia pouco se ocupa do assunto, a não ser para produzir relatos e cenas impressionistas, sem qualquer sustentação numérica. Parte da população encarcerada foi liberada pela justiça, sob a alegação de integrar grupos de maior risco. Não se sabe, porém, qual o tamanho do impacto da doença dentro das prisões, embora sejam frequentes as notícias de que criminosos liberados voltam a delinquir.

A cracolândia e os pontos de atendimento às populações de rua em São Paulo são outro mistério. De vez em quando, a televisão mostra a movimentação por lá, mas sem informar se são altos o contágio e a mortalidade. Na falta de jornalismo; sobram opiniões e comentários sem conteúdo. Nas chamadas “comunidades”, a desinformação é igual. Mostram-se, com as cores do sensacionalismo vulgar, as condições precárias de moradia das pessoas, desprovidas de recursos para higiene básica, como água e sabão. E só.

Quando a pandemia chegava aqui, baseada justamente na sensação de que não haveria como conter o avanço da covid-19 sobre as vastas populações carentes, uma instituição inglesa fez previsões alarmantes. O agouro foi replicado no blog de um pesquisador e chegou à grande mídia. Logo depois, as fontes deram o dito por não dito, mas o noticiário já estava contaminado também pela militância política da s empresas de comunicação e de alguns profissionais. A doença ganhou viés ideológico, ao invés de ser combatida.

É sempre bom lembrar que tais informações, bem como todas as ligadas ao assunto, são apuradas pelos municípios e pelas autoridades estaduais. Para que se possa ter uma visão nacional do problema, elas são ou deveriam ser repassadas todo dia ao Ministério da Saúde, órgão que tem a incumbência de totalizar os dados e divulgar o panorama geral. Por desencontros na chegada dos dados regionais, a divulgação diária passou por percalços, o que bastou para o governo federal ser acusado pela banda golpista de tentar ocultar os números, sonegar informações e minimizar a doença.

Daí a acusarem o presidente de ser o criador da covid-19 foi um passo curto. Na verdade, a acusação já era feita ao governo federal, que também carrega a inacreditável fama, pregada em suas costas pela grande mídia e pela politicalha oportunista, de criador de todas as mazelas nacionais em apenas ano e meio. Convenhamos que se trata de enorme façanha, pois teria superado o que o lulopetismo fez em 16 anos. Ou seja: os estragos comprovados que afundaram o país e levaram o ex-presidente à cadeia e sucessora à perda do mandato.

Safadeza é o nome dessa gente e desonestidade, o seu sobrenome.

Mariana do meu coração

Com o pai coruja e, aos 15, com as avós

Nesta segunda, 15 de junho, minha Mariana faz aniversário. Não estarei com ela, mas ela está comigo, sempre. Na minha mente, no meu coração, em todos os pontos do meu corpo. A Mariana não é só a filha abençoada que Deus fez com o maior capricho. A Mariana é uma pessoa inteligente, boa e talentosa. Formidável, como dizia meu pai, o avô que ela não conheceu.

Mariana toca há anos um movimento solidário em favor de um asilo de idosos muito carentes, no extremo sul da capital paulista. Começou sozinha, reunindo doações dentro da família e entre os amigos. Mas, como nunca deixa nada pela metade, logo a ação ganhou força e atraiu voluntários também movidos pelo amor ao próximo. Este ano, ampliou-se com a participação ainda tímida de algumas empresas. E assim, mesmo na pandemia, os “velhinhos” dela não ficaram abandonados.

          O mundo nos olhos e uma paixão na Vila

Mas essa é só uma parte da minha Mariana. As outras partes, todas maravilhosas, feitas de alma forte, paixão e alegria de viver, são nossas. Dos seus pais, tios, primos e sobrinhos, irmãs e irmãos do coração, além das muitas pessoas queridas que reuniu e manteve ao longo de sua vidinha. Hoje, acredito, todos gostariam de dar um beijo nela. Terá de ser virtual, mas com valor igual.

Amo muito essa menina. E tenho um enorme orgulho de ser pai dela.

Outros domingos!

No tempo em que Santos era mais Santos, o sol mais quente, a areia da praia mais fina e a espuma das ondas mais branca, não havia como não ser feliz. Por isso, quando um amigo era levado pelos pais para alguma cidade do interior ou de outro estado, ainda que por poucos dias, batia a pena do infeliz. Como aguentaria ficar longe daqui? Como sobreviveria à falta de um domingo como os nossos?

Lembro de algumas dessas localidades. Fernandópolis, São João da Boa Vista, Águas de Lindóia. As mineiras Uberlândia e Poços de Caldas, as fluminenses Volta Redonda e Vassouras. Alguns amigos daquela infância tinham parentes pro Norte ou pro Sul. Eu mesmo tive um tio, irmão de minha mãe, que morou em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, antes de ir para Joinville e se fixar de vez em Santa Catarina.

O mais impressionante para mim foi quando apareceu no Parque Infantil Dr. Alcides Lobo Viana, Canal 1, perto da Carvalho de Mendonça, um garoto que todo ano passava férias em Buenos Aires. Outro país! Uau! Não sei se o pai ou a mãe, um deles tinha parentes argentinos. Mas o “pior” do Luizinho é que, além de bem de vida, para os padrões do nosso bairro, jogava uma bola impressionante. Dava raiva!

Até a juventude, eu mesmo ultrapassei poucas vezes o Rio Cubatão, a não ser indo a São Paulo ou para passar uns dias em Mauá, no alto da Serra, levado pelos padrinhos. Até gostava, mas logo não via a hora de voltar para o meu Marapé. A maresia chamava, tanto quanto as aventuras sem limites e sem razão entre Itanhaém e Bertioga, Praia Grande e Cubatão, São Vicente e Guarujá. No fundo, era só falta do que fazer, com uma certeza inabalável: naquilo estava toda a felicidade.

Vontade louca de subir os morros da cidade, pra catar coquinhos e bicos de papagaio e vender na feira, reforçando o trocado dos carretos. Saudades das inocentes incursões à perigosa zona portuária. Às vezes, à própria zona, à noite. Laurence Harvey praiano à procura da Kim Novak tropical na servidão humana do escritor sem obra que nasceria daquelas andanças, como parecia certo. Aí, já estou invadindo territórios do Adelto Gonçalves: a literatura e os lados do cais.

 

Se era impossível me imaginar distante da cidade, mas impensável era encontrar alguém que não fosse Peixe no nosso pedaço glorioso. Conto nos dedos da mão esquerda os quintas-colunas que conheci. É claro que tinha bem mais do que isso, mas eles preferiam o anonimato e se escondiam na Coréia, disfarçados de torcedores da Burrinha ou de espanhóis do Xabuca, se ousavam pisar na Vila. Só davam as caras, nas raras derrotas nossas, denunciados pelo sorriso discreto. Não eram loucos de ostentar, como faz hoje a fauna esquisita que veio pra perto do mar.

Mais tarde, já anos 1960, o Cabral amigo das Docas, se revelou palmeirense. Na verdade, nunca escondeu tal condição, que nele não pegava mal. Cabral era boa gente, torcia pelo time de Ademir da Guia, único jogador que lamento não ter jogado no Peixe da época, e era também um meia de respeito, no nosso time do campeonato interno do Portuários. O ruim é que o time verde dele era o único capaz de, vez por outra, bem raramente, claro, dar uma bicadinha no Santos.

Duvidoso privilégio: ver o precoce adeus de Coutinho

Entre Pelé e Dorval

Coutinho levou a dupla de zaga chilena para a entrada da própria área, quando Lima e Pelé iniciaram o contra-ataque, ainda no meio de campo. Pelé tocou para Lima e saiu em velocidade pela meia direita. Coutinho, lá na frente, voltou alguns metros, cercado pelos dois beques, e chamou o passe. Lima percebeu a movimentação do companheiro e lançou. Foi na verdade um chute, forte e rasteiro. O centroavante desviou a bola com o lado de dentro do pé direito, para a esquerda da defesa, e saiu pelo outro lado, de novo levando os marcadores.

Além de Rei, Pelé também era chamado de Fera, quando iniciava suas arrancadas mortais. Naqueles dias mesmo, em Santiago, onde o Santos disputava mais um torneio de verão, um hexagonal com a participação dos três maiores times chilenos da época, mais América do México e Dínamo de Zagreb, a agência de publicidade de uma distribuidora de combustíveis gravou com ele alguns comerciais baseados no símbolo da empresa, a pantera. Imagem perfeita.

Alcançado o milésimo gol, dois meses antes, o Rei não parecia muito animado com partidas sem importância. Mesmo assim, marcou oito vezes em cinco rodadas do torneio chileno, duas no jogo final, que deu o título ao Peixe, contra o Universidade Católica, batida por 3 a 2 na noite de 7 de fevereiro de 1970, sábado de carnaval. Coutinho fez o outro gol santista, possivelmente seu último com a camisa branca. O mais espetacular, no entanto, foi o passe para um dos tentos de Pelé, que comecei a descrever acima.

A Fera não resistiu à bola tão açucarada. Nem o Rei nem a bola precisaram acelerar ou reduzir a velocidade. Encontraram-se naturalmente dentro da área, e Pelé encheu o pé. Com tanta força, que acompanhou deslizando de peixinho pela grama a trajetória da bola até dentro do gol. Atônito, o goleiro só pode ver com o rabo do olho aquela dupla invasão de sua meta e de sua privacidade.

Coutinho nem se deu ao trabalho de verificar o desfecho do lance. Passou correndo pela minha frente, na direção oposta à comemoração dos companheiros. Fazia cara de mau e gritava: “Couto, tu é foda”, caprichando no jeito de falar da cidade que adotou antes de fazer 15 anos. Ele não era muito chegado a reverências e, embora participasse com alegria dos festejos do ataque de sonho, às vezes preferia o recolhimento.

Eu disse que Coutinho “passou correndo pela minha frente” e esqueci de explicar o que eu fazia sentado atrás do gol do Estádio Nacional de Santiago do Chile atacado pelo Peixe. A localização privilegiada, oferecida ao repórter fantasiado de fotógrafo de jornal, me permite guardar as lembranças e descrever a jogada. Claro que sem o brilho dos repórteres da época (Vital Bataglia, Alberto Helena, Roberto Avallone, Luiz Carlos Ramos, Elói Gertel, e a turma de A Tribuna), mas com informação bastante para virar obra-prima de Gepp e Maia.

Os dois ilustradores eram o replay impresso dos principais gols da rodada, na Edição de Esportes do Jornal da Tarde, cuja chegada à livraria do Café do Atlântico, na Cinelândia santista, minha turma aguardava, para curtir um pouco mais os recitais do Peixe, no fim dos anos 1960.

Os domingos daquele tempo eram fabulosos, como fábulas mesmo. Praia pela manhã, Peixe na Vila ou na TV à tarde, namoro à noite nos jardins da orla ou nas poltronas dos cinemas do Gonzaga. E sobrava tempo para as últimas cervejas, prolongando o fim de semana até a segunda-feira. O que se poderia desejar mais do que ter 18 anos e, de repente, ver Mauricy Moura despontar no mesmo bar, cantando Sou santista? Pois é! E tinha a Edição de Esportes, confirmando que nada havia igual ao Peixe.

A tristeza que ficou do carnaval de 1970, sem contradição, foi o duvidoso privilégio de assistir no Chile aos últimos jogos pra valer do jovem Coutinho. Um desperdício iniciado anos antes, por conta de problemas físicos, que Antoninho Fernandes tentou evitar, ao ter pela frente o desafio de encontrar um centroavante para o time, já sem Toninho Guerreiro, vendido ao São Paulo. Sabendo que os garotos da base não estavam prontos para a missão, o treinador foi ver na Ponta da Praia a pelada de fim de ano que reunia os maiores craques do futebol brasileiro. Coutinho comeu a bola, marcou de bicicleta e fez a alegria do grande público que servia de alambrado para o campo de areia.

O treinador não foi surpreendido. Só constatou que a solução estava ali. Terminada a farra, entregou o endereço do alfaiate ao centroavante e pediu que ele se apresentasse na Vila depois do révèillon. Com o passaporte em dia.

O piracicabano Coutinho teria feito 77 anos nesta quinta-feira, 11 de junho. Morreu o ano passado, dia 11 de março, em Santos.