O jogo começa agora

Meses atrás, um funcionário público, professor de universidade paulista, pago com o nosso dinheiro, escreveu no jornal em que mantém coluna desejar a morte do presidente da República. Não foi força de expressão. Ele usou todo o seu precário talento de redator (costumo dizer que nossos mestres das humanas escrevem pior do que pensam) para deixar claro que deseja mesmo a morte física de Bolsonaro. Já corriam soltos os nebulosos inquéritos do inacreditável Xandão do stf, ou do pcc, mas nada aconteceu com o professor.

Nesse meio tempo, um deputado federal foi preso por expressar opiniões fortes, embora sem condenar ninguém à morte e respaldado por suas imunidades constitucionais. E pelo menos dois jornalistas foram colocados atrás das grades pelo “crime” de exercer a profissão num país em que supostamente há liberdade de imprensa. Quem mandou prender foi o mesmo Xandão, aquele que ficou paralisado ante a retórica do valente professor pago pelo nosso bolso.

Semanas depois, outro colunista do mesmo jornal defendeu um golpe de estado, contra o presidente legitimamente eleito. Na verdade, o sujeito pregou algo ainda mais tenebroso, ao usar como modelo um fato histórico da segunda guerra mundial conhecido como Operação Valquíria. No episódio, um grupo de oficiais do Terceiro Reich preparou atentado contra a vida de Adolf Hitler. Fracassou.

Na versão brasileira imaginada pelo militante do núcleo resistente do jornal que colaborou com o golpe militar dos idos de 1964, oficiais das Forças Armadas deveriam matar o presidente e aplicar o golpe de Estado. De novo, Xandão achou normal a exortação do colunista. Neste caso talvez por conhecer a história da maior barriga (atual fake news) publicada na mídia impressa brasileira, cujo autor foi exatamente o atual conspirador das pretinhas.

A história é a seguinte. Às vésperas da Copa de 2014, o valoroso repórter entrevistou um sósia do técnico da seleção brasileira e publicou matéria no jornal como se tivesse falado com Felipão. Um vexame inacreditável para um veterano das redações. Por isso, Xandão pode ter considerado o colunista inimputável.

Tratamento diferente foi dado ao presidente nacional de um de nossos partidos políticos e a um ídolo da música sertaneja, estes alinhados entre os que defendem o respeito à Constituição. Não surpreende, pois Xandão das candongas e a maioria de seus cúmplices de toga sentem-se investidos da missão de derrubar um presidente eleito pela vontade dos brasileiros. Para isso, dane-se a Constituição. Eles não têm um voto, não conseguiram passar em concurso para juiz, mas acham que podem afrontar a nação.

Apoiada pela banda mais corrupta do Congresso, pelos negaceios da cpi malandra e pela mídia que abdicou de praticar jornalismo de verdade para dedicar-se à militância partidária, nossa desqualificada corte vai brincando de cometer arbitrariedades, de pisotear as leis e de ensaiar o golpe que, insanamente sonham, levará à ditadura para a qual trabalham sem descanso.

No fim do primeiro tempo, parecem ganhar de goleada.

Aguardemos, porém, o fim do jogo.

A balela da luta pela democracia

Vivemos uma ditadura entre meados dos anos 1960 até o início dos 80 do século passado. Começou com o golpe militar, que em 1964 derrubou um presidente legitimamente eleito (na época, os vices tinham votação própria, e foi nessa condição que o deposto João Goulart chegou ao poder, pós renúncia do presidente Jânio Quadros), em movimento semelhante às quarteladas latino-americanas. O golpe, entretanto, só se transformaria em ditadura de fato em dezembro de 1968, com o Ato Institucional número 5. Foi então que os militares tiraram a máscara do regime que impunham ao país, com o apoio de muita gente boa, inclusive a chamada grande mídia.

A penada fechou o Congresso, extinguiu os partidos políticos, controlou o Judiciário, tornou ilegais as instituições que se opunham ao sistema, cassou mandatos e afastou da vida pública os políticos de oposição, além de prender estudantes, intelectuais e sindicalistas. Iniciou-se, também, um período de censura à imprensa, em alguns casos com o censor fazendo plantão nas redações. Tal situação levou parte dos opositores do regime a buscar a resistência armada, enquanto outros acreditavam que, contra todas as restrições, a luta poderia manter-se no campo político. Tudo isso é história. Nem precisaria recontar, mas serve para o paralelo que pretendo estabelecer.

Hoje, ouço e leio pessoas declarando-se na resistência à ditadura e em luta pela democracia no País. Acreditam fazer parte de uma cruzada heroica. Mas a principal arma de que dispõem é um discurso feito de lugares comuns, denúncias vazias e argumentos insustentáveis, posto que baseado em naturais diferenças político-ideológicas. Sua irritação mais profunda volta-se contra a postura de um governo nem sempre coerente com sua plataforma eleitoral (o combate à corrupção parece ter sido esquecido, por exemplo), mas que quase nada difere daquela que o levou a ser preferido por expressiva maioria do eleitorado. A bandeira dos “resistentes” é a derrubada de um presidente eleito de forma legítima, tal como os militares de 1964 fizeram com Jango.

Se o governo foi democraticamente eleito e, dois anos depois, os demais poderes (Legislativo e Judiciário) funcionam em toda a plenitude, por vezes até usurpando atribuições de Executivo, e nenhuma instituição da sociedade civil teve suas atividades encerradas, como falar em ditadura? Pois é, estranha tirania que se permite a todo momento ser desafiada e derrotada no embate político que transcorre normalmente. Verdadeira jabuticaba na cena mundial das ditaduras.

Sem falar no ridículo mantra do genocídio, curiosa é também a queixa de uma intelectualidade contra suposta censura à imprensa e imaginária ausência de liberdade de expressão. Isso é quase uma anedota. Os veículos de comunicação, grandes e pequenos, impressos e eletrônicos, na grande maioria fazem oposição militante ao governo e não sofrem qualquer represália. Jornalistas, artistas e escritores dizem e  assinam o que lhes vai pela cabeça, com total sem cerimônia. Um colunista chegou a escrever e publicar que torce pela morte do presidente da República. O STF, que procura “discursos de ódio” para alimentar seu inconsistente inquérito a respeito, comeu mosca. Não se emocionou com essa explícita demonstração de ira. Deixou para lá.

Então, vamos combinar. Fazer oposição a um governo que não escolheu, tudo bem. Procurar todos os argumentos possíveis para enfraquecer um futuro adversário nas urnas, tudo bem. Faz parte do jogo político. O que não cola é essa pretensa defesa da democracia num país em que todas as instituições funcionam sem sustos. O que não pega bem é reclamar de censura quem pode manifestar-se livremente, alto e bom som, inclusive para de forma inédita (porque exclusiva do nosso país) responsabilizar o presidente por uma epidemia mundial. O que não existe por aqui, e agora, é tentativa de se criar algum tipo de controle social da mídia, ameaça que só foi real nos governos lulopetistas.

E são justamente os apoiadores dessa excrescência e os defensores de ditaduras como as de Cuba e Venezuela os que mais criam fantasmas. É o que fazem para se sentir intrépidos resistentes. Mas no fundo, o que os pobres diabos aspiram é o golpe, quando deveriam estar apenas estar se preparando para disputar com competência o voto dos brasileiros na próxima eleição.

O ano mais vergonhoso da mídia militante

Nos próximos dias, talvez logo depois dos fogos do révèillon, a grande mídia vai comemorar a marca dos 200 mil brasileiros supostamente mortos em consequência da pandemia. Será mais uma grande oportunidade para a imprensa militante chamar presidente da República de genocida e de responsabilizá-lo por um mal que veio de fora, que atingiu todos os países e que em nenhum lugar foi combatido de forma mais efetiva. Nossos sucessos e fracassos foram semelhantes ao que se viu por toda parte.

Nada disso importa para as Organizações Globo e o Grupo Folha. O causador do infortúnio é o presidente. Mesmo que até o mais distraído javanês saiba que, no Brasil, a justiça atribuiu a governadores e prefeitos a responsabilidade pela contenção da covid-19. Ao governo central cabe entregar recursos financeiros para os delírios das autoridades regionais. E, claro, para a velha e boa corrupção.

Sobrou dinheiro para a importação de caríssimos ventiladores pulmonares que não chegaram (ou chegaram com defeito) e para a instalação de hospitais de campanha pouco ou nada utilizados, e logo fechados. Sobrou dinheiro para a abertura de milhares de covas e a compra de caixões funerários, apenas para fazer figuração no Jornal Nacional.

O mesmo papel coube aos caminhões frigoríficos estacionados nos pátios de alguns hospitais, alegadamente para a conservação de cadáveres. Segundo o pânico disseminado pela grande mídia e por um insano ministro da Saúde, não haveria como guardá-los antes do enterro, tantas seriam as mortes. Também este agouro, felizmente, não se cumpriu.

No início do ano, o presidente deu uma declaração a respeito da doença. Disse que no caso dele, por ser um cidadão saudável, a contaminação se manifestaria na forma de uma gripezinha. A declaração está gravada e não dá margem a dúvidas. Bolsonaro falou dele. Mas a grande mídia distorceu a fala presidencial da forma calhorda. O insensível presidente teria minimizado a pandemia.

A Globo, por exemplo, nem se deu conta de que Bolsonaro apenas repetiu, limitada à sua pessoa, e não generalizando, declaração feita antes pelo consultor principal da emissora para questões de saúde. O Dr. Dráuzio Varella sim diminuiu o mal chinês, ao dizer que ele provocaria “resfriadinho”. Também está gravado, para quem quiser conferir.

Há dias, falando da ansiedade geral pela vacina, o presidente afirmou não ligar para as pressões pela liberação sem critério e, acima de tudo, sem a aprovação da Anvisa. De novo, a grande mídia deturpou miseravelmente o discurso. Na telinha e nas páginas dos jornalões, Bolsonaro teria dito que não está nem aí para a aflição das pessoas. Trata-se, como se vê e como se viu ao longo do ano, ou melhor, desde que as urnas de 2018 contrariaram as expectativas da esquerda, do jornalismo mais vergonhoso já praticado no país

Atravessamos a agora chamada primeira onda da crise sanitária com a população aterrorizada pelas orientações dos cientistas engajados (aqueles que sabem exatamente o que precisam dizer para ter seu instante de fama na televisão) e paralisada por medidas autoritárias dos governos regionais. À doença somaram-se desocupação generalizada, fechamento de milhares de empresas e aviltamento da renda das famílias, entre outras mazelas.

Quem teve de socorrer essa população, vítima do desvario de governadores e prefeitos, foi o governo federal. Rapidamente, criou-se um programa emergencial em todos os aspectos superior ao assistencialismo dos governos anteriores. Dessa forma, evitou-se a tragédia maior arquitetada por gente como o governador paulista João Dória, apenas para se opor a Bolsonaro.

Agora, na dita segunda onda da pandemia, voltam o alarmismo da grande mídia e o repeteco de medidas que não funcionaram antes e que hoje são renegadas até pelos patrocinadores da OMS. A reclusão e o isolamento, retifica a organização, são formas equivocadas de proteger a população.

De novo, nenhuma surpresa. As autoridades regionais só estão preocupadas em se cacifar para as próximas eleições, enquanto a grande mídia dedica-se a procurar picuinhas que possam atazanar o presidente, para seguir militando. Pedir que faça jornalismo (o que é isso?) é exigir demais, se atingiu o fundo do poço e hoje serve ao mais sórdido ativismo político.

Um dia especial

Perto do fim do ano de 1957, olhando o cais santista da amurada de um navio de passagem para a Europa, o poeta faz um verso casual. “Dizem que Pelé joga muito. Será verdade?” – pergunta o chileno. Pablo Neruda estava a mais ou menos quatro ou cinco quilômetros distante da Vila Belmiro, onde Pelé talvez treinasse com o Santos.

O verso-indagação fazia sentido para o forasteiro chegado do outro lado do continente, da beira do outro oceano. Ele queria saber de um jogador que completara 17 anos por aqueles dias e sequer jogara fora do país. Mas que, meses antes, ainda aos 16, marcara dois gols contra a Argentina e fizera o Brasil ganhar a Copa Rocca, em jogos no Rio e em São Paulo.

O Rei Menino, no templo da Vila Belmiro, em Santos

A molecada do Marapé e adjacências também não conhecia Neruda, nunca ouvira falar, mas sabia que Pelé era o Rei do Futebol. O Marapé, pra quem não sabe, é o bairro-estado que possui um balneário (a praia do José Menino), sua própria cordilheira (que vai do morro de Santa Terezinha ao Monte Serrat da Padroeira) e o Vaticano ou a Meca do futebol, que é a Vila Belmiro. Não há nada igual no mundo.

Territorialmente, o Marapé estende-se, de sul a norte, da Ilha Comprida a Paraty, já ultrapassando a divisa com o Rio de Janeiro. Isso correspondia também aos domínios do Bom Fonseca e da Bela Dolores, cuja união o Peixe e Pelé ajudaram a tornar mais feliz e abençoada. O que pode ser melhor do que nascer em Santos, ter o melhor time do mundo para torcer e um Rei menino para cortejar (como o infante que, décadas antes, o santista José Bonifácio pajeou)? Pois era assim, poeta, que se sentiam os dez fonsequinhas, alguns ainda por nascer! E foi ali que alguém muito poderoso escolheu para depositar tanta bênção.

Nos anos seguintes, Neruda teria as suas respostas. Algumas dadas em sua própria terra, no palco do Estácio Nacional de Santiago do Chile, nos recitais que o Santos de Pelé ofereceu aos chilenos. O estádio que depois serviu de cárcere para os adversário da ditadura militar. Estádio que mais tarde o próprio Peixe exorcizaria, já sem Pelé, ao massacrar por 5 a 0 a seleção de Pinochet, diante do ditador, na comemoração da classificação espúria do país para a Copa do Mundo.

Com um admirador, no Estádio Nacional do Chile

Numa das passagens de Pelé pelo Chile, eu estava junto. Foi no início de 1970, quando o Santos ganhou mais um torneio internacional, meses antes do tri da seleção no México. Na viagem com o maior time de todos os tempos, achei legal o Rei me acolher. Ele disse que eu parecia ter um pé na cozinha. A voz do pastor King ainda se ouvia forte e a negritude estava em alta no mundo, com Ali, Ella, Marley e os Panteras. E aqui, com Cartola, Elza, Simonal, os livros de Machado de Assis e a maioria negra daquele time inesquecível!

Por essas histórias e as outras que você viria a conhecer com mais detalhes, poeta, nunca mais foi necessário perguntar se é verdade que Pelé joga muito. Ele joga mais ainda. Por isso é Rei. Eterno Rei!

A língua que se fala

Você sabe como se chama aquela peça ora branca, ora metálica, ora vermelha ou de outra cor qualquer, com mais ou menos um palmo de comprimento por um palmo de altura, que você liga na tomada (atenção para a voltagem!), encaixa nela duas fatias de pão de forma, regula o termostato e liga deslizando uma chave para baixo? Isso mesmo, aquela que às vezes até assusta com o salto das fatias quando chegam ao ponto desejado.

Sabe mesmo? Pois é! Eu também achava que sabia, ao sair esta manhã para comprar uma dessas geringonças no comércio das proximidades. Meu primeiro engano foi imaginar que peça tão pouco desenvolvida tecnologicamente seria encontrável até na banca do Sílvio, aqui na esquina. O Sílvio, atualmente, vende de tudo, de alimentos e bebidas a cabos para celular, de brinquedos a revistas. Tinha um banco querendo que ele vire salão de beleza, mas parece que a ideia dos espertinhos não colou. Sílvio prefere vender jornal para pet fazer xixi.

É claro que a outrora banca de jornais não tinha o produto que eu procurava. Surpresa foi não encontrá-lo nas três lojas de utilidades em que entrei. No entanto, não é para falar do sumiço de alguns produtos das prateleiras, talvez vitimados pelo covid-19, que alugo a sua atenção. Minha intenção é outra. Quero falar de como as pessoas utilizam nomenclatura própria, com nomes diversos para coisas iguais ou nomes iguais para coisas diversas.

Entrei na primeira loja e fiz o pedido à moça que me atendeu:

– Preciso de uma torradeira. Que opções você tem?

– Claro! Temos uma linha muito interessante de sanduicheiras. Venha comigo.

– Espere! Sanduicheira é aquela maquininha na qual o pão vai deitado? Na que eu preciso, as fatias vão em pé, sem recheio.

– Ah, entendi! Sei qual é. O que o senhor procura é uma tostadeira. Não temos. Está em falta.

Na loja seguinte, já familiarizado com o assunto, fui direto ao ponto.

– Por favor, quero uma tostadeira. Você tem?

– Temos sanduicheiras de algumas marcas muito boas. Venha ver.

– Desculpe, mas eu preciso de uma tostadeira. Aquela com duas fendas em cima, pra gente colocar as fatias de pão de forma e fazer torradas. Você tem?

(Parêntesis para “colocar versus inserir”. Já repararam como no comércio o cartão tem de ser “inserido” nas maquininhas de compra? Colocar é palavrão. Eu, de sacanagem, às vezes pergunto: posso enfiar?)

– O senhor deveria ter dito logo que quer uma torradeira. Essa não temos mais.

Na terceira loja, a moça me explicou que tanto faz dizer torradeira ou tostadeira. Ela entende os dois nomes. É o mesmo produto, mas infelizmente está em falta.

Com açúcar e com afeto

Da primeira vez que falei palavrão em casa, tinha 7 ou 8 anos de idade. Só repeti, me achando adulto pra caramba, uma frase que ouvi na escola: “O Dudu é fresco”. Ia rir da minha fala, quando levei uma chapuletada. Foi a única vez que o Bom Fonseca bateu em mim ou em qualquer dos outros nove filhos. O velho era todo carinho e só perdia as estribeiras quando azucrinávamos demais a vida da amada Bela Dolores, nossa mãe.

É claro que depois, na rua e em casa, eu iria descobrir legítimos e cabeludos palavrões, entre os quais um sinônimo para o inofensivo fresco da primeira bofetada. Mais sonoro e potente, perobo foi contribuição do Albano, leitor ávido, mano que abriu os horizontes do nosso vocabulário, inclusive o profano. Nessa época, já entoávamos o encantador refrão “um, dois, três, pau no cu do português!”, embora lusitanos fôssemos, os santistas e os Fonseca.

Dizia-se que eram palavras de baixo calão, mas hoje elas cabem no sermão do padre da querida paróquia de São Judas Tadeu, sem escandalizar os fiéis de tão ingênuas. Agora, existe arsenal mais pesado e devastador à disposição dos bocas sujas. Não, não falo das eruditas sentenças dos juízes da corte, um manancial incrível. Falo de outras palavras mas feias que as do Celso de Mello. Além dos palavrões tradicionais, que enriquecíamos com os impropérios da torcida da Burrinha em Ulrico Mursa, temos as expressões modificadas nos laboratórios da militância ideológica. Letais como vírus chinês.

Reacionário, retrógrado, fascista, palavras que moleque sadio do Marapé jamais usou, são afrontas que se dirigem a torto e a direito, muitas vezes sem que o autor da injúria e o próprio injuriado tenham noção do significado. Mas machucam e podem terminar em tragédia. Basta que de um lado esteja um pensamento, palavra de ordem ou orientação central e, do outro, o oposto disso, um adversário ou inimigo. Um membro da elite exploradora do povo.

Nos dias que correm, pesado mesmo é chamar alguém de bolsonarista, com justa ou nenhuma razão. Da mesma forma que, na resposta, os defensores reais ou supostos do ex-presidente condenado, preso e temporariamente solto são genericamente apodados de ladrões. Nas hostes da esquerda, recente contribuição da proveta linguística é “cancelamento”. Nesse processo, antigos e leais companheiros, com vasta contribuição às causas, sejam elas quais forem, são implacavelmente triturados. Apenas por terem sem querer elogiado o porte do cavalo montado há dias pelo “criador” da covid-19. Outra aberração é atribuir sentimentos de ódio a alguém. Ou melhor… veja bem… quer dizer…

A palavra ódio não teve o significado alterado, como tantas outras. Narrativa, por exemplo, tornou-se em geral sinônimo de ficção. História inventada, mentira, para falar mais claro. Fake news, para ser moderninho. Mas ódio não. Ódio continua sendo um sentimento reprovável, que rebaixa quem é tomado por ele, conformeos dicionários. O diferente é que atualmente se pode exprimir ódio profundo contra alguém, desejar-lhe a mais dolorosa das mortes, e não ser condenado moralmente por isso. Pois, depende. A quem essa ira incontida se dirige? Quem a expressa?

Pois é! Nossos cientistas sociais/colunistas da mídia conseguiram relativizar o ódio. Inventaram o ódio do bem, na linha dos criminosos em favor do interesse comum (diferentes dos reles batedores de carteira e, portanto, defensáveis), dos democratas do porrete ativo (os antigos vândalos, na versão de democracia mais aceita nas escolas progressistas atuais), da censura que jornalistas e intelectuais defendem, quando a livre expressão aprisionada é a dos outros.

Para os combatentes situados nas confortáveis e bem remuneradas trincheiras dos departamentos de ciências sociais das universidades públicas, o ódio está liberado, desde que empregado contra adversários políticos. O fim justifica o meio, como explicou um deles em coluna que, logo, servirá de forro para o xixi dos meus poodles. O ódio vale quando pode ajudar a mudar “tudo isso que está aí”, dizem, mesmo quando o “tudo isso que está aí” é um governo cujas propostas foram legitimadas pelo voto popular. Típico equívoco da democracia, lamentam.

Assim, por esse exercício admirável de pensamento político, é justo desejar a morte física de quem não se conseguiu bater nas urnas e que, lamentavelmente, o maluco incompetente não foi capaz de abater na faca. Por que esperar tanto pelo voto redentor, posto que incerto, como se viu em outubro de 2018? Não seria melhor antecipar a solução que o eleitor não vê a um palmo do nariz e poupá-lo dos males que o eleito já fez e ainda fará?

Um desses que remuneramos e pensa pior do que escreve nem se dá ao trabalho de teorizar e buscar fundamentos “científicos” para justificar a explosão de ódio. De tempos em tempos, nos espaços que lhe concedem gazetas desvairadas, ele ameaça com a revolução popular que, implora, virá desbancar as elites econômicas e políticas e entregar o poder aos cidadãos. Democracia direta, é o que diz querer, despreocupado de questões práticas como de que forma auscultar tantas pessoas sobre tudo. Preocupação que, de fato, não existe, pois a “manifestação popular”, ele sabe, está restrita e é exclusiva dos comitês amigos.

No grosso, as ideias que lança têm pelo menos dois séculos de atraso, mas o doutor está certo de que representam o futuro. Um dia, provavelmente vingarão. Ele imagina, como muitos dos camaradas, que viram no PCC uma aposta interessante e acreditou nos black blocs e nos caminhoneiros em greve, que se diziam dispostos a afundar o país. Tais frustrações, no entanto, são sempre compensadas pela certeza de que um dia os sem terra e os sem teto de Stedile e Boulos cumprirão a ameaça dos líderes e atearão fogo no país.

Com muito afeto e plenos de ódio bondoso no coração.

Hipocrisia no bote salva-vidas

Depois, os defensores das bases científicas para o enfrentamento dos problemas – e nada tenho contra a ciência de Osvaldo Cruz, Emílio Ribas e Saturnino de Brito – ficam chateados quando ridicularizados. Ou quando pegos em descaradas contradições, em flagrante militância político-ideológica.

Vejam o caso da OMS, melhor dizendo Desorganização Mundial da Saúde, com suas desorientações ligadas à pandemia. É um vai e vem tão célere quanto pingue pongue chinês. Após omitir informações disponíveis desde o ano passado e vacilar na emissão do alerta mundial que poderia ter evitado milhares de mortes com a adoção no momento certo das medidas preventivas, a entidade deu agora de oscilar entre o horror e o terror desnaturados.

Esta semana, sem mais nem menos, anunciou que o corona vírus pode ser transmitido pelo ar. Era o que faltava para alimentar o estoque de más notícias dos arautos do medo e dos telejornais que adoram colocar em polvorosa os pobres mortais que somos e sabemos, sem necessidade de mais sadismo. O bom é que os caras erram muito; o ruim é que podem acertar algum chute.

Mais honesto seria que todas essas autoridades médicas, científicas e midiáticas se dessem as mãos como num templo e, em generoso ato de contrição, reconhecessem sua brutal ignorância sobre covid-19. O que é a doença? Boa pergunta. Como se dá a transmissão? Não fazemos a menor ideia. O isolamento é a melhor prevenção? Sem dúvida, como várias outras: parar de respirar, mudar para Marte. Na falta da vacina, existe remédio que ajude? Ontem, não havia. Hoje, não sabemos. Amanhã, possivelmente sim. Ou não mais.

De forma que obrigar as pessoas a ficar em casa, como fazem governadores, prefeitos e juízes, além do Bonner, não passa de uma safada hipocrisia, por se tratar de uma solução (?) reservada a parte da população. Pode ficar em casa quem tem recursos para pagar serviços e produtos a domicílio. Não podem ficar parados os que precisam ganhar algum, provendo serviços e produtos aos privilegiados. Trata-se, pois, de um humanismo estranho, que decide, no barco à deriva, os poucos que terão lugar no bote salva-vidas.

Para fugir dos militantes

Não tenho qualquer afeto por mensagens bolsonaristas que, vira e mexe, despencam em meu facebook. Quando se tornam insuportáveis, simplesmente deleto. A mensagem e o autor ou propagador. Tento evitar atitudes drásticas, porém, porque me interessa ter alguma amostra do que pensam os defensores do presidente da República.

O mesmo tratamento dou aos representantes do outro extremo, que reúne uma autointitulada esquerda brasileira, composta de lulistas, petistas e adeptos de outras siglas ideologicamente mais radicais. Quando não consigo perceber sinceridade e vejo só oportunismo na defesa da democracia, o que os moveria, conforme dizem, rebato seus argumentos e, no limite, os afasto.

O problema é que, por intermédio de terceiros, esse tipo de mensagem, de um lado e de outro, reaparece por aqui, para meu desgosto. O que me incomoda não é apenas o ódio insano e sem partido, de todas as colorações, mas sim a defesa do que, no meu entender, é indefensável. Como a louvação de métodos medievais de fazer política e o elogio da prática aplicada nos últimos governos de saquear os cofres públicos em nome de suposto combate às desigualdades.

Hoje mesmo, recebi de contrabando panfleto produzido por um profissional que trabalhou para o governo Lula e foi sócio de publicação bancada por órgãos federais (nela anunciavam exclusivamente estatais, instituições financeiras, ministérios e parceiros como a JBS), fechada no fim dos 16 anos de lulopetismo. Tempos atrás, após ler impropérios a mim dirigidos, afastei-me definitivamente do antigo colega de redação, um bom jornalista antes de se tornar militante.

Da mesma forma, sigo sendo alcançado pela Folha e suas variações, na medida em que integrantes de minha lista no facebook insistem em reproduzir aqui textos assinados por comentaristas da empresa, uma vez que desapareceram os repórteres do antigo jornalismo, feito mais de apuração e menos de opinião. É irritante, porque foi justamente para não prestigiar a reprodução de mentiras e palpites enviesados que cancelei minha assinatura do jornal.

Nesses casos e em outros, como a reprodução de blogs militantes, em primeiro lugar deleto a publicação pontual. Só na reincidência extremada, deleto a barriga de aluguel, e tento evitar futuros dissabores.

Doutores da universidade pública sentenciam: Bolsonaro mata bolsonaristas!

Por estes dias, um veículo resistente da mídia paulista publicou algo identificado como “pesquisa” ou “trabalho acadêmico”. Segundo o “estudo”, assinado por quatro assalariados de universidades públicas, o presidente da República, ao desdenhar das recomendações das autoridades sanitárias para combate à pandemia, estaria matando seus eleitores. Exatamente isso: Bolsonaro estaria matando as pessoas que votaram nele.

Um dos “cientistas”, doutor em Ciência Política formado pela USP e professor da Federal do ABC, Ivan Filipe Fernandes, afirma que nos municípios em que o presidente foi mais votado no primeiro turno de 2018 é menor o isolamento das pessoas e maior o número de mortes por Covid-19. Logo… “É como se, com seu discurso, Bolsonaro tivesse levado seus eleitores ao abatedouro”, conclui o doutor. Isso mesmo: ele acusa o presidente de levar seus eleitores ao abatedouro.

“Ideologia, isolamento e morte: uma análise dos efeitos do bolsonarismo na pandemia de Covid-19” – esse é o título da coisa, obrada por “pesquisadores” da Universidade Federal do ABC, da Universidade de São Paulo e da Fundação Getúlio Vargas. Que um panfleto como a Falha leve a sério uma aberração como essa já não surpreende. Surpreende menos ainda que militantes políticos instalados em instituições mantidas pelo Estado se dediquem a isso. Mas, como são remunerados com dinheiro nosso, penso que deveriam ocupar-se de atividades mais sérias.

Alguma dúvida do caráter meramente panfletário da bobajada? Pois vejam o que confessa o doutor Ivan: “Não conseguimos estimar quantas pessoas morreram a mais por conta das falas do presidente, mas certamente teríamos menos óbitos, principalmente entre seus apoiadores, se ele tivesse agido de forma diferente”. Em outras palavras, a “pesquisa” não consegue dizer quantas pessoas Bolsonaro matou, mas cientificamente conclui que poderia ter matado menos. Brilhante!

Deve ser por isso que os marajás das nossas universidades públicas, abrigados especialmente na chamada área de ciências humanas, são tão laureados no universo acadêmico internacional. A relevância de seus trabalhos é mundialmente reconhecida e pode ser medida por excrescências como essa, que exigiu o esforço conjunto de quatro ativistas da militância universitária e resultou num conclusivo “certamente”.

Pode não ter sido em vão, contudo. Vai que o Darth Vader do stf se interesse pelo caso e indicie o presidente por extermínio em massa de bolsonaristas!

Matando a democracia, para salvar a democracia

                              Semelhanças e afinidades

Há duas semanas, bandos “democratas” de torcedores organizados dos times de futebol de São Paulo vestiram preto como cor preferencial, ergueram os punhos fechados à mma e foram à luta. O palco da guerra, a Avenida Paulista, estava parcialmente ocupada pelos “fascistas”.

O comando de defesa da democracia, como autoproclamado e tratado pela grande mídia, estava armado de seus melhores argumentos – paus, pedras e artigos para fogueira, E não titubeou. Foi pra cima da polícia, tentando chegar ao inimigo. Destruiu e queimou o que encontrou no caminho, em eloquente demonstração da tolerância que os guia. Com um porrete na mão e uma palavra de ordem na boca, não são mesmo umas gracinhas, Hebe?

O xerifão companheiro do velho juiz de merda nada viu demais nisso tudo. Nem moveu um nervo do mussolíneo rosto. Em São Paulo, até a guarda civil metropolitana sabe quem são os organizadores e financiadores dos bandos ditos de torcedores, na verdade formados por arruaceiros e criminosos.

Se a polícia municipal nada faz contra eles é porque se borra de medo dos marginais e de suas ramificações nos presídios. Como conhece de perto seus bons clientes, não é com eles que o acusador-investigador-punidor da nossa peculiar justiça se preocupa. Daí também a inércia da banda dominada da Polícia Federal, aquela que não se submete a interferências.

Os olhos argutos do pau mandado do advogado do PT, hoje presidente do stf (quem diria!), estão voltados para o outro lado. O lado amarelo. Para o esperto Xandão, é ali que mora o perigo. Parecem grupos familiares, incluídas as crianças e os não esquecidos velhinhos, em inocente convescote na via pública. Mas o solerte policial não se deixa enganar, pois sabe tudo de bandidagem.

Sabe que aquela turma apenas disfarça malignas intenções. É certo que ninguém agridem, nada destroem, mas querem acabar com a corte dos impolutos Gilmar e Lewandowski e com o parlamento do Botafogo e de outras dezenas de sobreviventes da lava jato. Vejam só!

Legislativo e Judiciário, principalmente na figura dos que mais os emporcalham não podem ser criticados por ninguém. Já no outro poder constitucional, o Executivo do presidente democraticamente eleito e do ministério legitimamente escalado, nesse podem bater à vontade.

Sintam-se liberados milicianos encapuzados, grande mídia marrom empulhadora, blogs e publicações nanicas movidas a pixulecos, esquerda rouanete festiva e, sempre, instituições da sociedade civil aparelhadas política e ideologicamente. É preciso dar nome ao gado, Santa Cruz?

A parcialidade de toda essa gente é tão grande que os fogos lançados sobre um supremo preenchido pela ausência de Fachins e Carmem Lúcias escandalizaram nossos democratas impressos, televisivos e judiciais. Os mesmos que ignoraram a retirada do mastro e a queima da bandeira brasileira, naquela noite, em Curitiba, por rapazes civilizados. Como ninguém é de ferro, não se pode condenar que eles tenham aproveitado o embalo para também abater vitrinas suspeitas de atentar contra as liberdades.

Nesse caso, o advogado do pcc, hoje inquisidor mór do tribunal que consagra Celso de M…, é um magistrado compreensivo. Entende a fúria da rapaziada e acha legal o hackeamento de autoridades, sem temer a volta do cipó de arueira e do pau que bate em Chico.

É implacável, porém, com a privacidade e a inviolabilidade de deputados e senadores com mandato popular. Acha que o xamego do Temer que o nomeou é tão representativo quanto o voto de milhares de brasileiros. Pois, sim! – dizia a Bela (e sábia) Dolores.

Será que temos de nos orgulhar do Darth Vader feito black bloc desgarrado que estraçalha a democracia para alegadamente salvá-la?