Outubro, 17

Hoje esqueço o boné

Com que me cubro.

Pois é outubro

E o verão já se insinua

No céu, na rua.

No ar, até!

 

Apogeu vermelho das pitangas!

 

Outubro do sangue

Rubro, remoto na neve,

Que aqui não ferve.

E lá abunda.

Revés do nosso sol

De alma branda.

 

Revolta amável dos de tanga!

 

De novo outubro.

E se a cabeça ora descubro,

Quisera liberar igual

Os pés das vestes,

Para pisar o mal sem dor,

Subir mil everestes!

 

São Paulo, 17/10/2017

A sua bênção, mãe!

Escrevi estes versos há três anos, quando a mãe estava para completar 98 anos de idade. Ano passado, no 5 de maio, comemoramos seus 100 anos e me pareceu que ela só esperou por isso, pela festinha que fizemos, para ir juntar-se em seguida ao Bom Fonseca. A Bela Dolores morreu serenamente um mês depois, no amanhecer do dia 2 de junho, na Santos que aprendeu a amar e em que nasceram seus doze filhos. O áudio pode acompanhar a leitura.

 

Que bênção de mãe!

A sua bênção, mãe.

Deus te abençoe, meu filho…

Vá com cuidado,

Não tome chuva.

Você já fez a lição?

Não volte tarde demais.

Porque eu não durmo.

E, quando acordada,

seu pai não dá sossego jamais.

Que sonho de mãe!

Nenhuma melhor do que a minha!

Ou mais linda! De certo que não!

De certo que outra igual

Nem daqui mil anos.

Xiririca não tem mais,

E o molde ficou no Ribeira,

Uma padroeira inteira.

De cabeça no lugar,

Mas impossível de achar.

Que perfeição de mãe!

Que mais podia ter feito

Que deixou por fazer?

Nossas roupas de tecido barato,

Costuradas na singer

Que lhe arruinou as pernas bonitas.

As tortas domingueiras.

De camarão ou uva preta,

Bem ao gosto do marido.

Preta é a uva, mãe!

Que orgulho de mãe!

Teria sido rainha do rádio,

Carmem, marlene, emilinha,

E preferiu ser Ângela só minha.

Se a ouvissem, não se pediria

Mortadela com ene no meio.

O português que bem se fala

Ficou entre as tábuas do Marapé,

Suas cercas, seu chalé.

É acelora ou acerola?

Que emoção, mãe!

Mesmo que hoje me desconheça,

Que não me chame Marcão,

Que pergunte “quem é o cara?”,

Tão logo me afasto dela.

A confusão vem dos tempos felizes,

No meio de tanto irmão,

Quando fui Nélson, Zinho, Albano, Horácio,

Paulo, Sílvio e mesmo Márcio, Marisa e Tzi.

Mudei eu, mãe. Você não!

(São Paulo, 5 de maio de 2017)

São Santos

No início dos anos 1960, eu estudava no seminário dos padres Paulinos, no quilômetro 17 da Rodovia Raposo Tavares, antes de Cotia. Cada turma tinha uma sala fixa, na qual passávamos as tardes entre aulas e horários de estudo. Pela manhã, trabalhávamos na gráfica, que imprimia livros, revistas e jornais católicos. De manhã bem cedo assistíamos à missa diária e, à tardinha, rezávamos o terço. Fora isso, três refeições, os recreios depois do almoço e da janta e a cama, para um sono profundo.

Nas classe, cada um tinha sua carteira, onde guardávamos livros, cadernos e o material escolar. Sobre elas, alguns colocavam santinhos. Eu coloquei esse time do Peixe, recortado de A Tribuna nas férias anteriores e colado numa moldura de cartolina. O padre quis saber o que era aquilo. Respondi que eram Santos, mas não colou. Tive de desmontar o altar.

peixe 62

Anos mais tarde, com aquela escalação, fiz estes versos ruins:

Santos nomes

Gilmar dos Santos Neves

Uns mais longos, outros breves,

Como versos deste salmo.

Mauro Ramos de Oliveira,

Uma zaga quase inteira,

De cá Lima, de lá Dalmo.

Raul Donazar Calvet

E mais à frente Zito. Pois é:

José Ely de Miranda.

Mengálvio, e logo Dorval

Na exuberância infernal

De uma agitada ciranda.

Coutinho, Pelé e Pepe,

Ou Pagão, Pelé e Pepe,

Que o produto não se altera

Faça chuva ou faça sol,

Arte, graça e futebol,

Beleza em corpos de fera!

Tudo bem!

Bom dia, Sol! Bom dia, dia!

Omeprazol, Amaryl, Amoxilina!

Espero a noite com alegria,

Nada de estresse nesta rotina

 

Bom dia, taqui taquicardia!

Salve, salve, querida angina!

Nem te ligo, tatibitate arritmia.

Favor ir ver se estou na esquina.

 

Vias aéreas ou baixas.

Tudo certo, tudo Rivotril.

Cadê as lindas caixas

Do inescapável Isordil?

 

Viva bem, viva contente,

Seja smart, seja sagaz

Tenha sempre um bom estente.

Um ou dois ou três ou mais!

Uma bênção de mãe

Ela nasceu em 5 de maio de 1919, em Xiririca, que virou Eldorado Paulista, anos depois. Nasceu Maria das Dores e logo virou Dolores. Domingo agora, completará 100 anos de idade. Na foto abaixo está a capa do DVD que fiz para ela, juntando 14 das canções que ela ainda canta. Na maioria marchinhas da virada dos anos 1930 para 1940, época em que casou e virou Fonseca. O vídeo está disponível no youtube. Há dois anos, fiz uns versos para ela. Estão logo depois da foto.

Dolores

Que bênção de mãe!

A sua bênção, mãe.

Deus te abençoe, meu filho…

Vá com cuidado, tenha atenção!

Não tome chuva.

Você já fez a lição?

Não volte tarde demais.

Porque eu não durmo.

E, quando acordada,

O pai não sossega jamais.

 

Que sonho de mãe!

Nenhuma melhor do que a minha!

Ou mais linda! De certo que não!

De certo que igual

Nem daqui mil anos.

Pois Xiririca não tem mais,

E o molde afundou no Ribeira,

Uma padroeira inteira.

De cabeça no lugar,

Hoje impossível de achar.

 

Que perfeição de mãe!

Que mais podia ter feito

Que deixou por fazer?

Das roupas de tecido barato,

Costuradas na singer

Que lhe arruinou as pernas,

Às tortas domingueiras.

De camarão ou uva preta,

Bem ao gosto do marido.

Falo da cor da uva, mãe!

 

Que orgulho de mãe!

Teria sido não menos que rainha,

Carmem, marlene, emilinha,

E preferiu ser ângela só minha.

Se a ouvissem, não se pediria

Mortadela com ene no meio,

Recheio indevido, alça sem mala?

O português que bem se fala

Ficou entre as tábuas do Marapé,

Suas cercas, seu chalé.

 

Que emoção, mãe!

Mesmo que hoje me desconheça,

Que não me chame Marcão,

Que pergunte “quem é o cara?”,

Tão logo me afasto.

Confusão dos tempos felizes,

No meio de tanto irmão,

Em que fui Nélson, Zinho, Albano, Horácio,

Paulo, Sílvio e mesmo Márcio, Marisa e Tzi.

Quem mudou foi eu. Você, não!

 

(São Paulo, 5 de maio de 2017)

O maior time do mundo

 

 

Gylmar dos Santos Neves

Nomes longos, nomes breves,

Como os versos deste salmo.

 

Mauro Ramos de Oliveira,

Uma zaga quase inteira,

De cá Lima, de lá Dalmo.

 

Raul Donazar Calvet

E, mais adiante, pois é:

José “Zito” de Miranda!

 

Mengálvio e, logo, Dorval

Abrem o alegre festival,

De uma irada ciranda.

 

Pagão, Del Vecchio, Afonsinho,

Ou Pelé, Pepe, Coutinho

Que o produto não se altera.

 

Faça chuva ou faça sol,

Vila é arte e futebol,

Preto e branco, bela e fera!

 

E pensar que, antes destes, aqui estiveram Arnaldo Silveira, Urbano Caldeira, Araquém, Feitiço, Athié, Odair Titica, Antoninho Fernandes, Vasconcelos, Tite, Manga, Hélvio, Ivan, Urubatão, Gonçalo, Ramiro, Álvaro  e Formiga.

E que em seguida vieram Cláudio Adão, Carlos Alberto, Joel Camargo, Clodoaldo, Edu, Eusébio, Batata, Juary, João Paulo, Pita, Geraldino, Dema, Chulapa, Márcio Rossini, Giovanni, Almir, Robinho e Diego, Ganso e Neymar.

Primavera / Psicose

Escrevi os versos abaixo em 1962, aos 12 para 13 anos, quando fazia o ginasial no seminário dos padres paulinos, no quilômetro 17,5 da Rodovia Raposo Tavares. O professor de português gostou e disse que mostrou pra mulher, que também gostou. Dei o nome de Primavera, mas depois, quando voltei para Santos, meu irmão Albano disse que Psicose era melhor. E assim foi feito.

E na manhã primaveril do campo,
A flor mais linda dos jardins do mundo
Surgiu-me a mim envolta pelo manto
Do fino orvalho de um amor profundo.

E nela eu descobri tanta beleza,
Toda beleza, o esplendor da vida,
Que o coração tomado de tristeza,
Temi perdê-la, a minha flor querida.

Enlouquecido a destalei do galho.
Assassinada, mas só minha.
E pura

E a derradeira lágrima de orvalho
Rolou-me pela mão que a tem.
Segura

Receita para estes tempos

Tudo bem!

Bom dia, Sol! Bom dia, dia!
Amaryl, Omeprazol, Amoxilina!
Sonho a volta da alegria,
De algo novo, sem rotina!

Bom dia taqui, taquicardia!
Salve, salve, amiga angina!
Nem te ligo, tibitate arritmia.
Vá ver se estou na esquina!

Vias aéreas ou baixas.
Tudo certo, tudo Rivotril.
Cadê as sagradas caixas
Do inescapável Isordil?

Viva bem, viva contente,
Seja smart, seja sagaz
Tenha sempre um bom estente.
Um ou dois ou três ou mais!

Outubro, 17

Hoje esqueço o boné
Com que me cubro
Pois é outubro
E o verão se insinua
No céu, na rua.
No ar, até!
 
Apogeu vermelho das pitangas!
 
Outubro do sangue
Rubro, remoto na neve,
Que aqui não ferve.
E lá abunda.
Revés do nosso sol
De alma branda.
 
Revolta amável destas tangas!
 
De novo outubro.
E se a cabeça descubro,
Quisera liberar igual
Os pés das vestes,
Pisar sem dor o mal,
Subir mil everestes!
 
São Paulo, 17/10/2017