“Deixa comigo!” Era Edu falando por Ele

No México, em 1959: já não se discutia qual era o melhor do mundo

Naquele tempo… o Cara nada disse aos seguidores. Nem havia o que dizer, porque o debate não existia entre o pessoal da Rua XV, os apreciadores do chope do Nicanor, e muito menos entre o povão da beira do cais, da orla das praias, do Gonzaga e da Vila Belmiro. O Santos era o melhor time do mundo e ponto. Sem contestação! Sem dúvida!

O que Ele deixava rolar eram pequenas discussões (hoje chamadas resenhas, para mim de forma equivocada) que torcedor adora esquentar diante de uma cerveja gelada, de um bolinho de batatalhau e, agora, da tela do computador. Era o que acontecia e o Criador do Time dos Sonhos apenas sorria. “Centroavantes? Vejam o que reservei pra vocês!”

Para ficar só quando a metade da história apenas começava, e não recuar a Arnaldo, Araken e Feitiço, o Santos bicampeão paulista em 1955 e 1956 tinha uma dos mais técnicos e ferozes centroavantes brasileiros: Emmanuelle Del Vecchio, que substituiu Odair Titica na função de fazer gols. Mas em 1955, quando foi artilheiro do campeonato paulista e chegou à seleção brasileira, o italiano já tinha a concorrência de um atacante franzino, formado na Burrinha.

Pagão foi entrando aos poucos no time, muitas vezes ao lado do próprio Del Vecchio, e ganhou a camisa 9 quando o titular passou a substituir o meia Vasconcellos, que teve a perna quebrada num lance com o zagueiro são-paulino Mauro, na Vila Belmiro. Em setembro de 1957, Del Vecchio foi vendido para o Verona da Itália, e a camisa 10 começou a ser assumida pelo menino Pelé, que aos 16 anos já jogava na seleção, e nem era titular do Peixe.

Com tudo isso, saía de cena uma fantástica dupla avançada – Del Vecchio e Vasconcellos –, para a entrada de Pagão e Pelé, que formariam com Pepe o espetacular trio PPP. A partir daí, a sucessão de grandes centroavantes no comando do ataque santista é avassaladora. A década nem termina e já surge Coutinho, outro fenômeno precoce, que estreia com 14 anos.

Um ataque de 1955: Alfredinho, Jair, Pagão, Vasconcellos e Pepe

Essa estirpe de artilheiros (em seguida enriquecida pela chegada de Toninho Guerreiro) só encontra paralelo no que aconteceu na ponta-esquerda do Peixe, a partir do momento em que Pepe se impôs e levou o técnico Lula a deslocar o versátil Tite para o lado direito ou para a armação do time. O Canhão da Vila reinou soberano no ataque santista até a metade da década seguinte, a das grandes conquistas dos anos 1960. Aí, um atrás do outro, chegaram às praias do paraíso os endiabrados Abel e Edu.

A estreia do magrela que veio do América do Rio foi de tirar o fôlego dos mais incrédulos frequentadores das arquibancadas da Vila, tanto quanto dos eternos insatisfeitos das sociais. Eu estava lá e pensei, com outras palavras: “Caramba! Como o Peixe foi encontrar esse diabinho? Só pode ser coisa do Cara lá de cima! Mas, agora, Ele vai demorar para trazer outra novidade como essa.”

Pois não se passou um ano e, numa noite no Pacaembu, diante do Bangu, veio fazer rima o Edu, poeta de Jaú. Sem a menor cerimônia, o moleque de 14 anos tirou a bola das mãos do Rei, na cobrança de uma falta: “Deixa comigo”, ele disse ao atônito Pelé, indeciso entre dar risada ou xingar. Foi o primeiro dos 183 gols que Edu marcou pelo Santos.

(Que me desculpe o pessoal da Assophis pelos enganos factuais que cometo ao contar minhas histórias confiando só na memória. É certo que, de vez em quando, se as dúvidas são maiores do que as frágeis certezas, recorro à bíblia do Odir Cunha, também conhecida como Time dos sonhos. Então, não erro.)

Outros domingos!

No tempo em que Santos era mais Santos, o sol mais quente, a areia da praia mais fina e a espuma das ondas mais branca, não havia como não ser feliz. Por isso, quando um amigo era levado pelos pais para alguma cidade do interior ou de outro estado, ainda que por poucos dias, batia a pena do infeliz. Como aguentaria ficar longe daqui? Como sobreviveria à falta de um domingo como os nossos?

Lembro de algumas dessas localidades. Fernandópolis, São João da Boa Vista, Águas de Lindóia. As mineiras Uberlândia e Poços de Caldas, as fluminenses Volta Redonda e Vassouras. Alguns amigos daquela infância tinham parentes pro Norte ou pro Sul. Eu mesmo tive um tio, irmão de minha mãe, que morou em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, antes de ir para Joinville e se fixar de vez em Santa Catarina.

O mais impressionante para mim foi quando apareceu no Parque Infantil Dr. Alcides Lobo Viana, Canal 1, perto da Carvalho de Mendonça, um garoto que todo ano passava férias em Buenos Aires. Outro país! Uau! Não sei se o pai ou a mãe, um deles tinha parentes argentinos. Mas o “pior” do Luizinho é que, além de bem de vida, para os padrões do nosso bairro, jogava uma bola impressionante. Dava raiva!

Até a juventude, eu mesmo ultrapassei poucas vezes o Rio Cubatão, a não ser indo a São Paulo ou para passar uns dias em Mauá, no alto da Serra, levado pelos padrinhos. Até gostava, mas logo não via a hora de voltar para o meu Marapé. A maresia chamava, tanto quanto as aventuras sem limites e sem razão entre Itanhaém e Bertioga, Praia Grande e Cubatão, São Vicente e Guarujá. No fundo, era só falta do que fazer, com uma certeza inabalável: naquilo estava toda a felicidade.

Vontade louca de subir os morros da cidade, pra catar coquinhos e bicos de papagaio e vender na feira, reforçando o trocado dos carretos. Saudades das inocentes incursões à perigosa zona portuária. Às vezes, à própria zona, à noite. Laurence Harvey praiano à procura da Kim Novak tropical na servidão humana do escritor sem obra que nasceria daquelas andanças, como parecia certo. Aí, já estou invadindo territórios do Adelto Gonçalves: a literatura e os lados do cais.

 

Se era impossível me imaginar distante da cidade, mas impensável era encontrar alguém que não fosse Peixe no nosso pedaço glorioso. Conto nos dedos da mão esquerda os quintas-colunas que conheci. É claro que tinha bem mais do que isso, mas eles preferiam o anonimato e se escondiam na Coréia, disfarçados de torcedores da Burrinha ou de espanhóis do Xabuca, se ousavam pisar na Vila. Só davam as caras, nas raras derrotas nossas, denunciados pelo sorriso discreto. Não eram loucos de ostentar, como faz hoje a fauna esquisita que veio pra perto do mar.

Mais tarde, já anos 1960, o Cabral amigo das Docas, se revelou palmeirense. Na verdade, nunca escondeu tal condição, que nele não pegava mal. Cabral era boa gente, torcia pelo time de Ademir da Guia, único jogador que lamento não ter jogado no Peixe da época, e era também um meia de respeito, no nosso time do campeonato interno do Portuários. O ruim é que o time verde dele era o único capaz de, vez por outra, bem raramente, claro, dar uma bicadinha no Santos.

O rei do futebol

A estação da Sorocabana, que trouxe Dolores, e o time de Athié

O bom, meu filho, seria todos virem a este mundo no lugar em que serão felizes e tendo o time certo para torcer. Eu recebi as duas bênçãos. Nasci na beira do mar, na cidade que Braz Cubas fundou para fazer a felicidade de seus filhos, e o meu time chegou no momento exato, quando eu estava por completar um ano de idade.

Dois Santos. A cidade e o time.

Meu time foi fundado na noite de 14 de abril de 1912, ano da quinta Olimpíada da era moderna, que Estocolmo realizaria entre junho e julho. E eu nasci um ano menos cinco dias antes, no claro mês das garças forasteiras, das Palavras ao mar de Vicente de Carvalho. Ainda assim, desde que abri os olhos, apressado, já era duplamente santista.

De time e cidade.

Tão santista quanto eu, só a bela por quem me apaixonei anos depois em Eldorado Paulista, então Xiririca. Aquela que trouxe para Santos e com quem me casei e fiz família. No meu coração, tenha certeza, o Peixe já existia quando nasci antes dele. E aos pés firmes da Dolores, jamais outro solo assentou-se com tal naturalidade como o destes lugares esplêndidos entre a serra e o mar – sem dúvida, a única e definitiva pátria da minha Bela. Nada faltou para ser feliz.

Uma cidade, um time, a amada.

Para vocês, você e seus nove irmãos, livres de insignificantes incompatibilidades (cronológicas, geográficas), foi fácil assumir a dupla identidade. Nasceram na cidade abençoada e – de Arnaldo Silveira a Zito, de Urbano a Athié, do Largo da Concórdia à Vila sagrada – tiveram desde sempre o melhor time para torcer.

O bordado eterno da Bela Dolores

(Música de fundo: Dolores, na voz de Lúcio Alves)

Há um ano, no dia 2 de junho, a Bela Dolores foi ao encontro do Bom Fonseca. Partiu serena, quase um mês após completar o centenário, no dia 5 de maio. Seus últimos tempos, a partir dos 95 ou 96 anos, foram de desorientação. Mas nunca esqueceu as músicas da juventude, que cantava com letras incrivelmente intactas. Nem os bordados, tricotados ainda que de mãos vazias.

Ficaram a saudade boa e a lembrança feliz. Ficaram os olhares mudos passeando pela curta paisagem ao redor, as indagações silenciosas, as risadas sapecas, as historinhas ingênuas e maliciosas: o doutor me receitou/um remédio que é bom de tomar/um beijinho antes do almoço/um beijinho depois do jantar.

Sobraram as recordações que guardava para si de tempos melhores, ou nem tanto. Da antiga Xiririca e da mocidade com os pais e os irmãos, à Santos de toda uma vida. A Dolores – que bem poderia ser chamada Emilinha, Marlene, Isaurinha, Carmem e Ângela, exclusivamente nossas – segue cantando e bordando seus paninhos.

Crochê imaginário

Que outras maravilhas tecem as mãos silenciosas,

sem agulha e linha?

Se delas se fizeram encantos, milagres e vidas,

com pés no chão.

Que sonhos percorrem a mente ágil, incansável,

também canções

embaladas nos versos inspirados dos poetas

que tudo cantam?

Que histórias agitam os olhos vivos, mais opacos

quanto mais longe vêem,

posto não repousarem meigos, joias esplêndidas,

em mansos regaços?

Que veste sairá dessa labuta com arte e método,

e será definitivamente sua?

Talvez o derradeiro manto, antes de se tornar inútil

ao anjo que há de vir.

Fim de namoro

Deve ser complicado namorar nesta era da comunicação permanente. Digo deve ser porque sou de outro tempo. Vejam só! Um amigo pediu pra namorada programar o celular novo. Foi sua desgraça. O cara viajava muito, sempre nos fins de semana, e deu à menina, sem querer, a oportunidade de monitorá-lo onde quer que estivesse.

Na primeira vez, numa cidade do sul, o espião mostrou que o amado estava a algumas quadras do hotel em que, cara de pau, dizia dormir o sono dos justos. Semanas depois, no Nordeste, estava no hotel, mas não naquele que a namorada reservara para ele. Estava em outro, justo o que hospedava uma companheira de trabalho, aquela assanhada!

Não há mais privacidade. Os namorados, quando não moram juntos, vão dormir falando no celular, trocando mensagens no zapzap e é assim que começam o dia, na manhã seguinte. Em uma semana, conversam mais do que muito casal em toda a vida. E não só conversam. Quase trepam pelo smart, mesmo que tenham saído do motel há não mais do que meia hora. “Estou gostosa, bem?”. “Quer me ver tomando banho, mor?”

Eu só conheci o quarto de minhas namoradinhas depois dos amassos regulamentares por todos os cantos da casa. Assim mesmo, em ocasiões especiais, como a morte da avó ou de uma tia querida, o piripaque que levou subitamente o sogrão ao hospital, o acidente com o irmãozinho mais novo na escola. Nessas oportunidades, a vigilância abrandava e, às vezes, ficávamos sozinhos tomando conta da casa e trocando carícias com a cara mais triste do mundo.

Com a Lindinha, não tive qualquer chance. Na verdade, nunca entrei na casa dela. Embora fôssemos colegas de classe, tínhamos um namoro de fim de semana. Ninguém sabia na escola. Começou no fim do segundo ano do colegial. Todo sábado e domingo à noite eu a esperava no ponto do bonde em frente ao Atlântico Hotel, no Gonzaga. Ela chegava com as duas irmãs e os namorados.

Dali, cada casal seguia para seu próprio programa, que deveria ter a duração de uma sessão de cinema. A sessão das 20, que terminava às 22 horas. No máximo dez minutos depois disso, eu devolvia Lindinha para as irmãs no mesmo ponto de bonde. No domingo, a rotina se repetia, e era conveniente para mim, pois em seguida encontrava os amigos na calçada em frente e continuava a noitada.

Funcionou bem até quando as aulas terminaram e vieram as férias e o verão. Eu não tinha telefone em casa e nem sabia o número da casa dela. Mas não falhava. Toda noite de sábado e domingo nos encontrávamos no lugar de sempre e eu dedicava umas duas horas e meia ao namoro, sem descuidar dos amigos, com os quais estudava, jogava vôlei na praia, batia bola e tomava cerveja toda noite.

Até que veio o carnaval. Esquecemos das mudanças que os desfiles provocavam no itinerário dos bondes e não combinamos um plano B. Esperei Lindinha na frente do hotel, mas não havia bonde. A avenida da praia estava interditada. O desencontro acabou com o namoro não só naquele fim de semana e nos seguintes. O carnaval passou, o verão acabou e o namoro também.

Repeteco de memórias santistas

Perdoando-os desde logo pela pouca idade, é claro que muitos conterrâneos não terão topado com o seresteiro Mauricy Moura cantando sucessos da época em um boteco qualquer da noite santista. “Eu daria tudo o que pudesse…” Nem prestigiaram o restaurante que o ídolo Tite, nosso ponta-esquerda dos anos 1950, predecessor de Pepe, o canhão da Vila, montou no caminho da Ponte Pênsil, onde era atração com seu violão.

Ambos, o calunga Mauricy e o craque Tite, tinham no repertório as canções de Lupicínio e do santista Lúcio Cardim, o autor de Matriz e Filial, magnífica interpretação de Jamelão. Esses de quem falo nem imaginam o que isso seja. Seja lá o que desconheçam: Cardim, Matriz e Filial, Jamelão…

Se não conhecem tais mitos, é claro que nunca foram a uma batalha de confete para ver desfilar as Dengosas do Marapé, os Romanos do Campo Grande, os Chineses do Mercado, a Embaixada de Santa Teresa, o Cordão das Esmeraldas e o Bloco da Cruz de Malta. Porque essa monumental folia é do tempo em que blocos na rua eram a melhor coisa do carnaval.

A proeminência das escolas de samba – com as magníficas X-9, Império e Brasil – viria mais tarde. Como mais tarde ainda veio a União Imperial do sambista Lúcio Nunes. Lúcio também não pôde ver a Bola Alvinegra desfilar com o Rei, não faz tanto tempo assim. Lamento que tantos não receberam o convite dirigido à Dona Dorotéa, mas extensivo a todos: vamos furar aquela onda?

                O rei Momo Valdemar Esteves da Cunha e o bonde com reboque

Coisa mais fácil de encontrar na noite da Baixada, qualquer dia da semana, qualquer época do ano, eram os grupos de choro. Os chorões. Tarde da noite, você no ponto, de volta da escola ou da casa da namorada, esperando o ônibus, e lá vinham eles, precedidos pelo som inconfundível que lançavam no ar. Puro enlevo. Ou você entrava no bonde, e dava de cara com eles.

Até na travessia da balsa do Guarujá cheguei a encontrá-los. Violão, cavaquinho, pandeiro, quatro ou cinco músicos que nada falavam, não conversavam entre si, nem cantavam. Só tocavam. Como tocavam! Uns após outros, os grandes clássicos da nossa música saltavam das cordas. De onde vinham ou para onde iam, não faço a menor ideia. Daí que acho que eram criaturas fantásticas cruzando o meu caminho só para me encantar!

Quando troco umas palavras com meu quase contemporâneo Braz Cubas, chegamos à conclusão de que a cidade fundada por ele é um lugar mágico. Algo como o país das maravilhas de Alice. Onde mais poderiam surgir gentes, fenômenos e costumes tão arrebatadores? E, de quebra, um time como o Peixe de reis e príncipes. De malabaristas como Kaneko, Edu, Mané Maria. De poetas da bola como Pagão e Dom Antônio Fernandes! A máquina de fazer gols, versos e canções, quase orações.

Alguns têm a minha idade. Nossas memórias são quase as mesmas. Mas poucos nadaram nos canais que se abriram para a instalação dos tubulões do esgoto nas ruas de terra do Marapé. Não subiram o morro, cataram coquinho brejaúva ou colheram bico de papagaio para vender na feira. Não invadiram quintais para roubar carambolas, pitangas e abricós.

Não mancharam indelevelmente puídas camisas com o roxo do jambolão. Nunca arriscaram a vida, aos oito, dez anos, saltando do bonde em movimento, depois de passar de um estribo a outro, na fuga do cobrador. Nem mudaram a direção dos trilhos, só para ver a fúria do motorneiro e a algazarra dos passageiros, quando o coletivo seguia reto ao invés de virar, ou virava quando devia seguir em frente.

Teriam, como eu e meus irmãos, saboreado os tremoços da patrícia gorda que fazia ponto, todo jogo, sob as sociais de Ulrico Mursa? Teriam ajudado a cobrir de cuspe o infeliz goleiro adversário nas pugnas contra a briosa burrinha? Teriam usado de todos os artifícios para invadir a Vila? Ah, a Vila! Inesquecíveis recitais do Peixe!

Nas tardes de domingo, as famílias já assistiam ao programa Sílvio Santos na tevê. Eu, quando não tinha Peixe na Vila, e avançando no tempo, pegava minha fusqueta azul, a inesquecível Agripina, e fugia para São Lourenço, antes de Boracéia e da divisa com São Sebastião. Na época, Bertioga pertencia a Santos e a praia não tinha sido modificada pelos condomínios.

Levávamos uma caixa de isopor cheia de gelo e latinhas. Estacionávamos na areia, estendíamos a toalha, armávamos as cadeiras de alumínio e o guarda-sol e passávamos o dia ocupados apenas em, vez por outra, ir até o mar e dar um mergulho. Nenhum dinheiro, mas fazíamos daquela praia deserta um lugar mais sofisticado do que qualquer ponto da costa mediterrânea.

Minha namorada era linda, os domingos eram de sol, e eu era o dono do mundo.

Um título mundial com a paradinha que o Rei imitou

Dalmo, o terceiro em pé, a partir da esquerda: no time de 1962

 O chute com o pé direito saiu rasteiro, baixo, seco. Nem forte nem fraco. O suficiente para tornar inútil o salto do goleiro milanês. Balzarini não se iludiu com a paradinha e foi para o lado certo, mas não conseguiu evitar o gol.

Seis anos depois, quase no mesmo dia, no mesmo estádio, na mesma meta. O mesmo time de branco, outro adversário, outros protagonistas. A cena é quase um replay, com diferenças em detalhes. Desfecho igual, bola na rede, mas o goleiro quase impediu o sucesso do batedor.

Dizem que Dalmo Gaspar ensinou Pelé a usar a paradinha na cobrança de penalidades máximas. Se é verdade, não foi mera coincidência a semelhança entre os dois gols históricos, no Maracanã.

O segundo desses gols, na noite de 19 de novembro de 1969, contra o Vasco da Gama, foi o milésimo do Rei. O primeiro foi o momento mágico vivido por Dalmo, em 16 de novembro de 1963, e deu o bicampeonato mundial ao Santos.

O lateral esquerdo era um dos nomes menos ilustres de um time que, no terceiro jogo da decisão contra o Milan, desfalcado de Calvet, Zito e Pelé, tinha Gilmar, Ismael, Mauro, Haroldo, Dalmo, Lima, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Almir e Pepe. Mas o gol solitário e decisivo foi dele.

Considerado um dos jogadores mais regulares, foi titular nos melhores times santistas da época. Mas, diferente dos companheiros, quase não foi lembrado para as seleções nacionais. Mesmo assim, acumulou uma invejável coleção de títulos, entre 1957 e 1964, período em que permaneceu na Vila.

Além das duas Libertadores da América e dos dois Mundiais Interclubes (1962-1963), foi cinco vezes campeão paulista e quatro vezes campeão brasileiro. Conquistou nove torneios internacionais, entre a Europa e as Américas.

Dalmo nasceu (19 de outubro de 1932) e morreu (2 de fevereiro de 2015) em Jundiaí. Nunca esqueceu o Santos, como mostrou em versos.

Pensar em ti é o que eu faço de bom na vida!

E sentir saudades é o que me resta de bom!

Quem não gostava do seu futebol criativo e brasileiro!

Das belezas das suas jogadas e dos gols tão ligeiros!

A saudade dói em meu peito,

Se para outros não dói, não sei!

Só sei que não verei mais as vitórias que guardei!

Santos FC. Sem você jamais seria o que fui!

Dias de sol, praia e arte

Educação Física não precisava ter na escola. Criança pobre da periferia faz como meus irmãos e eu fazíamos na infância despojada, mas feliz, do Marapé. Subindo e descendo os morros para catar coquinho. Rodando descalço toda a cidade, da nossa pequena rua até o centro, esticando para a Zona Noroeste, bem pra lá do matadouro municipal e dos urubus no céu, passando o cemitério da Areia Branca e o quartel do 2° BC, aquele em que o Rei foi reco, quase chegando a São Vicente por essa via alternativa. Ou seguindo para os lados da Ponta da Praia, beirando o cais do porto, correndo entre os armazéns empoeirados e passando pelos canais do mercado e do Macuco, com a vista bonita das catraias coloridas. Na busca de aventuras que iam muito além da carona no estribo dos bondes da SMTC, enlouquecendo cobradores e motorneiros, ora pois.

Pedalando, quando havia uma magrela disponível, até o canto das Tortugas, no Guarujá, ou até a Praia das Vacas, depois da Ponte Pênsil, em São Vicente. Ou seguindo direto até Praia Grande. Nadando em torno da Ilha Porchat ou atravessando a entrada do canal para chegar à Praia do Góes, Ilha de Santo Amaro, Guarujá, mijando de medo e molhando de toda forma o calção mal ajambrado, porque nadava mal pra caramba, mas não queria fazer feio. Saltando, saltei mesmo ou é fantasia?, do trampolim da Ponta da Praia, da pedra do Tarzan no Itararé, onde tanto moleque da nossa idade morreu.

Mas aí já estou falando de tempos depois, do adolescente que estudava à noite e trabalhava com carteira de menor de segunda a sábado, e tinha fôlego e pernas pra disputar olimpíadas completas todo fim de semana. Onde houvesse uma bola rolando pelas ruas calçadas ou não, campos de terra, areia ou grama, entre Bertioga e Peruíbe. Com tempo para o futebol de salão (era esse o nome do jogo) nas noites de sexta e sábado, para o vôlei e o frescobol nas manhãs de domingo nas areias quentes e para o jacaré de peito na parte mais rasa do mar.

Ah, e nessas quebradas também havia Arte praticada com gosto. Daquela arte que a mãe não recomendava, quando conseguia nos ver escapulir: “Não vão fazer arte por aí!” Arte de invadir quintais em busca de frutas e cacarecos, de afanar gibis nas bancas de revistas, de embolsar balas nos balcões de padarias, mercearias e botecos, de fazer carreto na feira, de transformar em dinheiro jornais velhos, latas de cera e garrafas vazias, de recolher e derreter as sobras de fios das obras da iluminação pública e vender o cobre.

                A carona no estribo do bonde e as gloriosas tardes na Vila

Tudo isso, como dizia o pai, nosso mestre nessas e noutras virações, rendia “uns bons cobres”. Sem redundância. Embora seja justo admitir que a Grande Arte, como no livro do Rúbem Fonseca, a Verdadeira Arte, nos pegava como espectadores, na Vila Belmiro, em cujo gramado Zito, Formiga, Álvaro, Pagão, Coutinho, Pelé e Pepe imperavam. Exclusividade para os nossos sentidos, compunham magistrais sinfonias, criavam indescritíveis balés e escreviam com a bola enredos e poesias como jamais imaginadas.

Não se deve, porém, desmerecer a felicidade dos domingos de praia, num tempo em que o sol era mais brilhante, a água mais verde claro e as ondas mais brancas. De novo Marapé e José Menino, entrando na puberdade, delicia era me deixar levar pelo mar, mirando a garota mais bonita de quantas faziam alarido, saltavam arrepiadas e davam gritinhos assustados ali por perto.

Também cheias de malícia e vontade.

O campo dos sonhos

    Santos nos anos 1950: a capital não capital

Lembrança remota da Vila: novembro de 1956. Faltava pouco para o Natal e, não sei como, o pai conseguiu me colocar nas sociais do estádio. Era assim o Bom Fonseca. Vivia nos filhos as duas grandes paixões: o Santos e o cinema. Como ele teve 12 filhos com minha mãe, é claro que havia uma terceira – primeira, sem dúvida – grande paixão.

Domingo, portanto, era dia de matinê ou de Peixe. Não na mesa, que camarão não é peixe, mas naquele tempo era barato e generoso, pelo menos ali a beira mar. Domingo sim, domingo não, o sete barbas com chuchu seguido da sessão da tarde nos cinemas do bairro. Domingo não, domingo sim, torta e pastéis de camarão antes do jogo. Almoços que vinham das mãos batalhadoras da Bela Dolores; programas garantidos pela esperteza ingênua do meu velho pai, quando o dinheiro sempre curto não sobrava nem para pagar o fiado da padaria.

Entrar no cinema sem ingresso era mais complicado, mas Fonseca sempre dava um jeito de nos colocar para dentro. Às vezes, até ele acabava indo junto, “para acompanhar os mais novos”, menores de 10 anos, nos filmes proibidos, como recomendava o porteiro. Voltávamos depois para casa comentando as aventuras vividas na tela grande, e a gente era ainda mais feliz vendo a alegria dele dizendo que a fita havia sido formidável. Tinha um jeito bonito de falar aquele homem que mal concluíra o primário. Bonito e correto, porque a Bela Dolores policiava o português nos domínios dela, e não perdoava o erro mais insignificante.

Abra-se um parêntesis, aqui, para lembrar da quantidade de salas de cinema que havia na cidade. Só ali pertinho, havia o Marapé, no Canal 1, e o Campo Grande e o Carlos Gomes, no Canal 2. Mais adiante, já pela Vila Mathias, ficava o Bandeirantes. Nem estou falando da Cinelândia santista, do Gonzaga e da praia, com opções mais finas e fartas. A Santos dos anos 1950 era uma espécie de capital não capital brasileira, tal a relevância que alcançara em termos políticos, culturais, econômicos e sociais. Tinha reconhecidamente o melhor sistema de transporte público, o maior número de agências bancárias relativamente à população, a qual também usufruía da maior quantidade de telefones por habitante. Chegava a rivalizar com São Paulo e Rio no jeito metropolitano de ser.

Quanto ao futebol, já era um jovem adulto quando conheci a bilheteria da Vila. Até então, nunca havia comprado um ingresso para ver o Peixe. Pequenos, íamos direto para a fila dos “meninos do Santos Football Club”, que tinham direito a um lance especial de arquibancada, atrás do gol do fundo. Quando a regalia acabou e não éramos mais tão crianças – e já sem a companhia do velho, embora com todo o estímulo dele –, simplesmente invadíamos o estádio, passando sorrateiramente pelas catracas ou escalando o muro baixo da antiga coreia, a arquibancada em geral frequentada pela fauna adversária.

Aí, entretanto, já avanço no tempo. O que quero falar agora é da época em que o pai nos levava até a Vila e, depois de nos colocar lá dentro, voltava para casa. Para a casa de repente vazia das crianças e, suspeito agora, para os braços de Dolores. A ideia me sugere que pelo menos um dos mais novos tenha sido gerado no exato instante de um gol de Pepe, na sossegada tarde de domingo do abafado chalé de madeira da Rua Morvan Dias de Figueiredo, bairro do Marapé.


Um dos primeiros Santos que vi na Vila: o campeão de 1955

Essa época, na minha memória, começa com o dia cinzento de agosto de 1954, do suicídio de Getúlio Vargas. Aos seis anos, nem na escola eu estava, mas lembro do silêncio que cobriu a cidade desde cedo. A Vila já era um lugar familiar, que eu e meus irmãos frequentávamos com alguma sem cerimônia. A lembrança mais viva, porém, é de dois anos depois, novembro de 1956. Naquele domingo, já disse, o pai conseguiu me colocar nas sociais e foi lá de cima, correndo pelos corredores atrás das atuais cabines de rádio, que vi deslumbrado o estádio cheio de gente pela primeira vez. Urbano Caldeira era imenso para os meus nove anos. Guardo o placar da terrível derrota – 0 a 4 – e o nome dos artilheiros inimigos – Zague e Paulo, dois gols cada –, mas no fim estava menos triste do que excitado. Além disso, nada abalava a certeza transmitida pelo pai: o Santos era o melhor e perdia jogos e campeonatos porque os juízes nos roubavam.

Só não foi assim no grande ano de 1935. Daquela vez, lembrava o Bom Fonseca, não houve juiz ou bandeirinha capaz de parar o ataque de Saci, Pereira, Raul, Araken e Junqueirinha. Muito menos as pobres defesas adversárias. Ganhamos o campeonato no campo desse mesmo timinho que agora vinha fazer festa na nossa Vila. Mas eles não perdiam por esperar. Em breve, começariam o doído tabu diante do nosso time e o longo jejum de títulos. Como requinte, compramos o centroavante que começava a virar ídolo deles, o baiano Zague, apenas pelo prazer de repassá-lo em seguida para o futebol mexicano e ganhar na transação. A partir de 1957, eles passariam onze anos a pão e água contra o Peixe.