As flores e os espinhos

Pelé em 1957

Foram imensas as homenagens pela passagem dos 80 anos de vida do Pelé. Um porre gostoso, como os melhores porres. Eu mesmo perpetrei a minha homenagem, neste tãoSantista. E acrescentei a indefectível foto com Pelé 10. Por falar nisso, as fotos brotaram feito maria-sem-vergonha no meu quintal. Deu a impressão de que todo brasileiro foi fotografado ao lado do Rei.

O feito lembra o público declarado daquele Juventus x Santos de 50 anos atrás, na Rua Javari, Mooca, São Paulo. Naquele dia, o Rei marcou o gol que considera o mais bonito da sua carreira. O gol da fieira de chapéus sobre quatro defensores juventinos, entre eles, e derradeiro, o goleiro Mão de Onça. O único registro do lance é a foto histórica de Rafael Dias Herreira, de A Tribuna. O jogo não foi gravado em filme e o VT é posterior.

Entretanto, talvez não seja preciso mais do que o clic do grande fotógrafo santista, tanto quanto foi desnecessária a recriação eletrônica feita pela equipe técnica do filme Pelé Eterno. Pois as imagens do moleque de branco passando como Pantera Negra sobre a zaga grená estão bem vivas na retina e na mente do público extraordinário que teria ultrapassado em pelo menos 100 vezes os quatro mil lugares do velho campo.

Inacreditável? Eu, pelo menos, ainda não encontrei um amante do futebol com idade suficiente que não declare presença na icônica partida. Por isso, faço o cálculo aleatoriamente, como um míssil do nosso Marinho. Assim sendo, trata-se de imbatível recorde mundial, consideradas todas as competições, até finais olímpicas e decisões de mundiais de futebol, passadas e futuras.

Pelé é imbatível até nas lendas criadas em torno dele.

Mas não apenas flores, afagos e aplausos recebeu o Rei em seu aniversário. A data fez ressurgir também a ira que muitos lhe dedicam desde o episódio controverso do não reconhecimento de uma filha. A opinião pública, como sempre manipulada pela parte irrecuperável da mídia nacional, tendeu em parte a ficar ao lado da moça que, décadas depois, decidiu reclamar o amor do pai.

O caso, porém, por todo ângulo que se analise, dos sentimentos humanos ou religiosos à letra fria da lei, não comporta julgamentos finais implacáveis. Possivelmente, há acertos e equívocos dos dois lados. Um amigo que diz conhecer todo o processo assegura que o jogador (para mim, nunca será ex, porque parece estar entrando em campo agorinha mesmo) é o menos errado na história. Confio no Zé Guido, mas admito que possam haver outros entendimentos.

O que não aceito é a condenação moral definitiva, decretada por gente que se diz movida pelo mais genuíno espírito cristão. Nos últimos dias, li execrações inacreditáveis. Pelé seria um péssimo ser humano, indigno do tratamento de ídolo que recebe. Avessas ao espírito cristão de que se dizem possuídas, essas pessoas sentem-se em condição de lançar contra ele não só a primeira, mas dezenas de pedras, com ódio só comparável ao de Jesus expulsando vendilhões do templo.

Da minha parte santista roxo, continuarei agradecido e idolatrando o Rei. Adepto do errar é humano, seguirei gostando do Edson, a quem me igualo na falibilidade e nas faltas graves ou não que cometo todos os dias. Isso não é advogar em causa própria. É sentir a possibilidade de ser um pouco Pelé.

Um dia especial

Perto do fim do ano de 1957, olhando o cais santista da amurada de um navio de passagem para a Europa, o poeta faz um verso casual. “Dizem que Pelé joga muito. Será verdade?” – pergunta o chileno. Pablo Neruda estava a mais ou menos quatro ou cinco quilômetros distante da Vila Belmiro, onde Pelé talvez treinasse com o Santos.

O verso-indagação fazia sentido para o forasteiro chegado do outro lado do continente, da beira do outro oceano. Ele queria saber de um jogador que completara 17 anos por aqueles dias e sequer jogara fora do país. Mas que, meses antes, ainda aos 16, marcara dois gols contra a Argentina e fizera o Brasil ganhar a Copa Rocca, em jogos no Rio e em São Paulo.

O Rei Menino, no templo da Vila Belmiro, em Santos

A molecada do Marapé e adjacências também não conhecia Neruda, nunca ouvira falar, mas sabia que Pelé era o Rei do Futebol. O Marapé, pra quem não sabe, é o bairro-estado que possui um balneário (a praia do José Menino), sua própria cordilheira (que vai do morro de Santa Terezinha ao Monte Serrat da Padroeira) e o Vaticano ou a Meca do futebol, que é a Vila Belmiro. Não há nada igual no mundo.

Territorialmente, o Marapé estende-se, de sul a norte, da Ilha Comprida a Paraty, já ultrapassando a divisa com o Rio de Janeiro. Isso correspondia também aos domínios do Bom Fonseca e da Bela Dolores, cuja união o Peixe e Pelé ajudaram a tornar mais feliz e abençoada. O que pode ser melhor do que nascer em Santos, ter o melhor time do mundo para torcer e um Rei menino para cortejar (como o infante que, décadas antes, o santista José Bonifácio pajeou)? Pois era assim, poeta, que se sentiam os dez fonsequinhas, alguns ainda por nascer! E foi ali que alguém muito poderoso escolheu para depositar tanta bênção.

Nos anos seguintes, Neruda teria as suas respostas. Algumas dadas em sua própria terra, no palco do Estácio Nacional de Santiago do Chile, nos recitais que o Santos de Pelé ofereceu aos chilenos. O estádio que depois serviu de cárcere para os adversário da ditadura militar. Estádio que mais tarde o próprio Peixe exorcizaria, já sem Pelé, ao massacrar por 5 a 0 a seleção de Pinochet, diante do ditador, na comemoração da classificação espúria do país para a Copa do Mundo.

Com um admirador, no Estádio Nacional do Chile

Numa das passagens de Pelé pelo Chile, eu estava junto. Foi no início de 1970, quando o Santos ganhou mais um torneio internacional, meses antes do tri da seleção no México. Na viagem com o maior time de todos os tempos, achei legal o Rei me acolher. Ele disse que eu parecia ter um pé na cozinha. A voz do pastor King ainda se ouvia forte e a negritude estava em alta no mundo, com Ali, Ella, Marley e os Panteras. E aqui, com Cartola, Elza, Simonal, os livros de Machado de Assis e a maioria negra daquele time inesquecível!

Por essas histórias e as outras que você viria a conhecer com mais detalhes, poeta, nunca mais foi necessário perguntar se é verdade que Pelé joga muito. Ele joga mais ainda. Por isso é Rei. Eterno Rei!

Variações em torno de uma fraude chamada VAR

O que os comentaristas de futebol da grande mídia enchem a boca para chamar de “tecnologia” nada mais é do que o dedo do operador de vídeo na cabine do VAR. Seja ele um técnico ou um juiz treinado para exercer a função. Pois é essa figura quem determina, nos casos de impedimento, por exemplo, a posição da bola, a posição do atacante e o momento exato em que o passe sai do pé do jogador que dá o penúltimo toque. Assim, se o varista antecipar ou retardar o congelamento da imagem, voluntária ou involuntariamente, o lance será ou não invalidado. Com o aplauso dos comentaristas e dos entendidos.

Ou seja, nada há de tecnológico nisso, apenas a mais normal ação de alguém que tanto pode acertar quanto errar. Não há infalibilidade, tanto quanto não havia na alegada prescrição “científica” da Globo e do Mandetta para o combate à pandemia, seguida por prefeitos e governadores. Com mais de 120 mil mortos, não dá para dizer que a estratégia foi bem sucedida. Como não se pode afirmar que o juiz eletrônico veio para eliminar os erros de arbitragem e instituir a justiça no futebol, depois das clamorosas (com licença, mestre Cláudio Carsughi!) manipulações que se verificam, rodada após rodada.

Domingo passado, a vítima do VAR foi o Santos e o beneficiado, mais uma vez, foi o Flamengo. No primeiro gol anulado, mesmo contando com a imagem da câmara lateral, a equipe de juízes eletrônicos demorou cerca de cinco minutos para decretar que o atacante santista tinha um ombro em posição irregular. Una cabeza  seria mais apropriado, mas não. Um ombro. Um frame antes, ele poderia estar em posição legal. Quem pode garantir, tecnologicamente, que a imagem foi parada no momento certo, ou se avançou um pouco mais, até o alegado impedimento? Pois é, nunca se saberá. E nem adianta depois, com base nessa manipulação (no melhor sentido da palavra), vir com linhas traçadas artificialmente sobre a imagem real para provar o que não passa de suposição.

No caso, o mais escandaloso foi o tempo que os três juízes eletrônicos levaram para decidir, em lance tão simples, se havia ou não impedimento, mesmo contando com a filmagem mais elucidativa possível. Por que a demora? O que os levou a vacilar tanto? Que artes fizeram nesse tempo? Ressalte-se que a decisão foi exclusivamente deles, pois o juiz de campo só cumpriu o que lhe foi recomendado: anulou o gol santista e assinalou impedimento. Curioso é que grande parte dos comentaristas considerou essa decisão acertada, por ser mais fácil de julgar. Fácil como, se os caras atrasaram tanto o jogo?

Já no segundo gol santista anulado, há uma confluência de responsabilidades do juiz de campo com os colegas eletrônicos. É claro que o lance foi muito mais complexo, já que era preciso determinar em primeiro lugar o momento exato em que o pé esquerdo de Marinho toca a bola na cobrança da falta. Em segundo lugar, os árbitros deveriam precisar a posição do meia Jobson nesse mesmo instante, se adiantada ou não. Outra necessidade: conferir se o santista tocou ou não a mão na bola. Finalmente, caberia ao juiz de campo decidir se a movimentação de Jobson teria prejudicado o goleiro do Flamengo.

Mais uma vez com o auxílio da “tecnologia digital”, aquela que usa o dedo do operador de vídeo, decidiu-se que Jobson estava adiantado. Mas, com a imagem correndo, viu-se que ele não toca com o braço nem interfere de alguma forma na trajetória dela. O juiz de campo vai, então, conferir tudo na telinha do VAR.

Detalhes. O juiz havia validado o gol, não contestado por nenhum flamenguista. Nem mesmo queixou-se o goleiro, supostamente o prejudicado pela participação passiva de Jobson no lance. O comentarista de arbitragem da Globo (nada me convence de que não haja contato direto entre ele e a cabine eletrônica) tenta encontrar uma saída e dar uma força ao Flamengo. Primeiro, fala do possível impedimento. Depois, vem com a história do braço de Jobson na bola. Finalmente, com a demora do VAR, já não sabe mais o que falar. Para sua salvação, o juiz de campo vai conferir o lance. Anulado o gol, após outros cinco minutos de paralisação, os globais confraternizam. Decisão acertada!

Ao longo do jogo, haveria ainda mais duas participações ou omissões importantes do VAR, sempre a favor do Flamengo. Inicialmente uma falta violenta do rubro-negro Bruno Henrique em Marinho, perto do quarto árbitro, foi ignorada pelos quatro juízes (seria expulsão direta ou no mínimo cartão amarelo para o flamenguista). Mais adiante, o mesmo Marinho ganhou de Gustavo Henrique na velocidade e foi derrubado nas proximidades da área pelo zagueiro. Apontado impedimento do santista, o VAR é acionado para verificar se houve ou não pênalti a favor do Santos. A imagem mostra com clareza que Marinho partiu de posição legal, não havendo impedimento, e foi derrubado por trás pelo zagueiro, fora da área. Não foi pênalti, mas a falta deveria render a Gustavo Henrique o cartão vermelho. O juiz, entretanto, preferiu manter a marcação do impedimento que não existiu.

Ano passado, contra o Cruzeiro no Mineirão, Gustavo Henrique ainda no Santos cometeu infração idêntica aos cinco minutos de jogo. O juiz nada marcou, mas o VAR interferiu e, além de determinar a marcação da falta, levou o juiz a expulsar o zagueiro. A questão principal, assim, nem é discutir a indisfarçável manipulação dos juízes eletrônicos, seus conluios com os árbitros de campo ou a parcialidade dos comentaristas de arbitragem da Globo. A questão é a falta de critério. Tal distorção leva à marcação, por exemplo, dos pênaltis duvidosos que evitaram derrotas do Flamengo, já nos acréscimos do segundo tempo, em jogos sucessivos. E à absurda anulação dos gols santistas na Vila.

Outra façanha de Giovanni. Ele nos deu Diego e Robinho

Como nossos dias não são apenas de recolhimento, por causa da pandemia, mas também de muita reprise na grade de programação das emissoras de TV, aproveito para repostar uma ficção escrita originalmente para a seção Tesoura Afiada, que mantive no Portal do Santista Roxo, na primeira década deste século. Era o relato de um certo Argemiro da Veiga, oficial de barbearia, salão montado no Macuco, junto ao cais, com base em devaneios do freguês Nicácio Pinto. Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais é, portanto, só coincidência. Neste texto, Nicácio faz uma reverência ao craque Giovanni.

De terça pra cá, Nicácio não apareceu no salão. “Está de molho, com um princípio de gripe”, explicou a Izilda, que veio pegar o jornal emprestado. Por isso, fiquei meio sem assunto e resolvi recordar uma história envolvendo a dispensa do Giovanni, o Messias, do Santos, em 2006. Foi o dia em que o China e o Neves, meus fregueses, quase se pegaram. China ficou a favor da dispensa e o Neves, contra.

O China achava que a decisão tinha sido do Luxemburgo e o Neves culpava o presidente Marcelo Teixeira. O China dizia que o Giovanni nem deveria ter voltado, porque não ganhou nada com o Peixe, e o Neves não se esquecia de 1995, “quando a gente voltou a andar de cabeça erguida, graças a ele”. Enfim, discordaram em tudo, como sempre.

Eu, ouvindo aquele bate-boca, não sabia o que pensar. Uma hora achava que o Neves tinha razão e, na outra, dava a mão à palmatória pro China. Fui de um lado pro outro, que nem público em jogo de tênis. Como uma coisa puxa outra, lembrei de uma discussão quente do China com o Neves, no início de 2003, depois da estreia do Peixe na Libertadores. Aquele jogo em que o Robinho fez o time colombiano de gato e sapato. Com a garotada campeã brasileira, parecia que os anos dourados estavam de volta, para alegria da nossa torcida.

– Quem vivia criticando, dizendo que o Marcelo Teixeira só gosta de contratar medalhões, agora, tem de bater palmas pra ele. O presidente trabalhou em silêncio e o resultado está aí. Libertadores, mundial interclubes, vamos buscar todas as estrelas que Pelé e companhia ficaram devendo – disse o China, antecipando prazeres. Nem era indireta. Ele olhava bem nos olhos do Neves.

– Sai pra lá, China. Esse aí não fez nada. O que ele fez foi gastar o dinheiro que o Santos tinha e o que não tinha, com um monte de jogadores em fim de carreira. Quando a grana acabou, entregou o time ao Leão e rezou. Pra sorte dele e nossa, tinham sobrado o Diego, o Robinho e outros garotos bons de bola descobertos pela diretoria anterior – respondeu o Neves, com o rosto gordo mais vermelho que o normal.

Eu estou reproduzindo só o que me lembro e tirando as partes mais pesadas, porque logo os dois começaram a trocar ofensas. Estavam chegando às vias de fato quando, de repente, ouviu-se a voz do Nicácio, que parecia entretido com a leitura da Tribuna.

– Vocês dois estão falando bobagem. Se existe um grande responsável pelo aparecimento desses meninos, esse alguém é o Giovanni. É, o Giovanni, que fez aquela coisa ridícula de pintar o cabelo de vermelho, mas jogava muita bola.

Com o salão em silêncio, o velho continuou:

– O Marcelo nunca deu bola pras divisões de base. Tanto que desmontou o trabalho iniciado pelo Samir e pelo Pelé. O que ele queria era ganhar um título com jogadores de nome, como o pai dele fez em 1984.

– Robinho e Diego só puderam surgir no Santos por causa da construção do centro de treinamento ali do lado da Santa Casa. É claro que foram o Pelé e o Samir que construíram o CT. Mas com que dinheiro? Com o dinheiro da venda do Giovanni para o Barcelona.

Nesse momento, o velho já caminhava em direção à porta do salão. Antes de sair, porém, voltou-se de novo para o China.

– Em vez de ficar aí batendo boca, vocês deviam mais é agradecer ao Giovanni.

O sublime por linhas tortas

Manga, Hélvio e Ivan; Ramiro, Formiga e Zito; Alfredinho, Álvaro, Pagão, Vasconcellos e Pepe. Na voz de Ernane Franco, pelas ondas da Rádio Atlântica de Santos, nas tardes de domingo, isso era pura poesia. Versos como nenhum santista cantou antes ou depois. E olha que temos, nascidos entre o mar e a serra, os melhores poetas, de Vicente de Carvalho e Martins Fontes à turma do Charlie Brown Jr, a Renato Teixeira e Lúcio Cardim.

Na numeração, a sequência de 1 a 11 é que me intrigava. Um do goleiro Manga, ok. Mas depois vinham Hélvio com a 2, jogando pelo meio da defesa, ao lado do Formiga, o número 6, chamado na época de quarto-zagueiro. O 3, Ivan, jogava pela esquerda, e o 4 Ramiro do outro lado, pela direita. O 5 era Zito, nosso líder, hoje chamado médio volante. Só muito mais tarde vim a entender essa lógica, que nenhum desvairado venha a querer contrariar.

Depois, a coisa seguia, digamos, linearmente. O 7 do Alfredinho (ponta direita), o 8 do Álvaro (meia direita), o 9 do Pagão (centroavante), o 10 do Vasconcellos (meia esquerda ou ponta de lança) e o 11 do Pepe (ponta esquerda). Mas aí o inesperado vinha da bola que essa turma jogava. Este ataque, depois com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, viraria definitivamente o estado da arte, em todas as suas manifestações. Ora música, ora balé, ora pintura, como os gols de Pelé e Neymar.

Almas simples preferem times numerados iguais as casas das ruas normais, pares à direita, ímpares à esquerda, previsíveis como uma bomba do Pepe, o nosso canhão. Sem surpresas, sempre de acordo com o esperado, porque nunca tais almas, as simplórias, puderam exclamar “oh”, ante um drible de Pagão, Dorval ou Edu. Um passe improvável de Mengálvio ou Coutinho. A classe extra de Mauro e Joel Camargo.

Santistas, ao contrário, somos sofisticados. Nossa defesa vai de 1, 4, 2, 6, 3 e 5, e assim se fez imortal, como as linhas dos 100 gols, o trio PPP, o ataque mágico dos quatro negros e um branquelo. A retaguarda que às vezes tomava três, para ajudar nossa dianteira a fazer cinco, seis, sete, oito, nove, dez. Amém!

Gols de Pelé

Pelé, Coutinho e Dorval: um inferno

Coutinho contou uma vez que, chateado com as confusões feitas pelos narradores de rádio, resolveu amarrar uma fita branca num dos pulsos. Ele não queria mais ser o perdedor de todos os gols da dupla e deixar para Pelé as honras dos gols marcados. Quando a bola entrava, gol do Rei. Quando saía, finalização errada de Coutinho. Muitas vezes, era o contrário: Pelé perdia, num lance, e o centroavante marcava, em outro

Até entre os adversários dava-se a confusão. Não ficava muito claro quem vinha com a bola e quem traiçoeiramente se deslocava por trás dos desesperados beques. Piorava mais ainda quando a dupla virava trio, com a presença de Dorval. O inferno ficava mais quente.

O jornalista De Vaney, que nasceu em 22 de fevereiro de 1907, em Ribeirão Preto, e morreu em 29 de janeiro de 1990, na cidade, marcou a imprensa santista. Foi um dos mais premiados cronistas esportivos do país. Em entrevista ao jornal Notícias Populares, de São Paulo, ele contou que tais enganos ajudaram a construir o mito Pelé, cuja carreira acompanhou desde o início.

— Recordemo-nos, por exemplo, de uma irradiação feita por Geraldo José de Almeida: “Gol de Pelé! Gol do craque café! Só Pelé faria um gol assim!” Nisso, o locutor de campo interrompeu: “Olha, Geraldo, o gol foi de Coutinho!” Geraldo não se perturbou: “Só Pelé daria um passe assim!” Nova interrupção do repórter de campo: “Olha, Geraldo, o passe foi de Dorval!” Mas Geraldo saiu-se com esta: “Um gol assim só com Pelé dentro do campo!” O repórter de campo completou: “Só Pelé perderia um gol com essa elegância, com essa majestade de rei do futebol!”.

Antoninho Fernandes, craque no campo e no banco

Um dos maiores artilheiros do Peixe, o meia de futebol refinado virou técnico para ganhar, entre outros títulos, um tri paulista, um brasileiro, uma supercopa sul-americana e uma Recopa Mundial. Foi ouro no Pan-Americano dirigindo o Brasil

                                              Agachado com a bola nas mãos, no time de 1951

 

 

É possível que eu tenha visto Antoninho Fernandes em campo, em seu último ano de jogador. Mas, lembrança que é bom, nada. De 1954, a única imagem que restou com alguma nitidez, mais de 65 anos depois, foi a de um dia sombrio de agosto. Aquele 24 em que o presidente Vargas se matou.

Levaria um pouco mais de tempo para fixar instantes dos primeiros jogos na Vila. Uma derrota para o Corinthians, perto do Natal. Uma vitória contra o Botafogo de Garrincha, com o menino Pelé entrando no fim. Mas Antoninho já não brilhava com a camisa branca.

Para falar a verdade, na minha meninice eu nem sabia quem era Antoninho. Porque ídolos brotavam em penca na Vila e as coisas aconteciam tão rápido com o Peixe, que eu pensava que sempre haviam sido daquele jeito. Um show de bola de não se acabar.

Antes que o Sputnik desse a volta na Terra e assombrasse o mundo, o Santos já corria o planeta e empolgava multidões. Pelé e Dorval vinham na esteira de Ramiro, Zito, Formiga, Álvaro, Pagão, Del Vecchio, Vasconcelos e Pepe. Além desses, Lima, Mengálvio e Coutinho estavam de malas prontas para desembarcar na Vila ou já tinham chegado ao campo dos sonhos. Que tempos!

Os mais velhos falavam maravilhas de Nicácio, Odair, Carlyle, Pinhegas, Walter e, principalmente, Antoninho Fernandes. Mas para quê cultuar o passado, mesmo tão próximo, se o presente nos oferecia tanto? De forma que uma geração de craques foi esquecida, ou nem era lembrada pelos que pegavam o bonde maravilhoso naquela hora, como eu.

Só fui ouvir falar de Antoninho quando ele passou a ser definitivamente o principal assistente do técnico Lula. Não soube dos dois anos que ainda jogou no Jabuca nem do título mineiro conquistado com o Galo, já como técnico, no início dos anos de 1960. Desconhecia, sobretudo, sua importância na formação das inesquecíveis equipes santistas.

Na cidade ou longe dela, Antoninho continuou trabalhando para o clube que sempre amou. Jamais houve um olheiro como ele, capaz de reconhecer o craque no primeiro toque na bola. Ou tão profundo conhecedor do maior celeiro de futebolistas que o Brasil já teve: a várzea santista, de onde saiu e à qual voltaria até morrer.

Nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado, era possível formar fortíssimas seleções nacionais só com jogadores nascidos na cidade, como Olavo, Cláudio Cristóvão Pinho, Baltazar e Pavão, para citar os que fizeram sucesso em outros clubes. Antoninho era um desses selecionáveis, mas teve a falta de sorte de jogar numa época que era mais forte a influência carioca na seleção. Por isso, nunca defendeu a equipe nacional.

Como seu time era a alegria dos juízes safados, teve de se contentar com dois vice-campeonatos paulistas, no período em que jogou no Santos, de 1941 a 1954. Ganhou, ainda, a Taça Cidade de São Paulo, em 1949, o torneio quadrangular de Belo Horizonte, em 1951, e o torneio início do campeonato paulista, em 1952. Pela seleção paulista, foi campeão brasileiro nesse ano.

Rápido, habilidoso e inteligente, era um grande armador – foi chamado de “arquiteto da bola” – e um mortal finalizador. Em exatos 400 jogos, marcou 145 gols para o Santos. É o 12º maior artilheiro santista.

                                                    Medalha de ouro com o Brasil no Pan de 1963

Em 1967, no lugar de Lula com apenas 45 anos de idade, o atacante alto e esguio deu lugar ao treinador gordo e tranquilo, que continuou levando o Santos a grandes conquistas. Em quatro anos, foi campeão brasileiro (Taça de Prata de 1968), continental (Supercopa Sul-Americana) e intercontinental (Recopa Mundial, batendo a Internazionale, campeã da Recopa Europeia);

Ganhou, ainda, o tricampeonato paulista de 1967 a 1969, a Taça Cidade de São Paulo de 1970 (com um time de garotos, já que meio Santos servia à seleção no tri do México) e torneios internacionais, como o Hexagonal do Chile (duas vezes) e o Pentagonal de Buenos Aires. Antes, foi campeão Pan-Americano, dirigindo a seleção brasileira nos Jogos de São Paulo, em 1963. Em 1971, quando Athié deixou a presidência, passou o comando da equipe para seu ex-jogador Mauro.

Antoninho Fernandes nasceu em Santos no dia 13 de agosto de 1921. Morreu muito jovem, aos 52, também em Santos, no dia 10 de dezembro de 1973. Era um domingo. Horas depois, viu lá de cima o seu time entrar em campo, no Morumbi, para enfrentar o Palmeiras.

O maior e mais vitorioso técnico do futebol mundial

Na minha memória afetiva estão os dois jogos épicos do Santos em competições oficiais: a virada contra o Milan, no Maracanã, em 1963, e a goleada sobre o Fluminense, no Pacaembu, em 1995, que nos levou à final do campeonato brasileiro daquele ano. Assisti ao primeiro pela TV e ao segundo no estádio. Na mesma memória estão os dois maiores espetáculos de futebol jamais vistos no mundo, protagonizados pelo time mágico de Zito e Pelé.

Ambos também oficiais e consagrados por títulos conquistados aconteceram nos inesquecíveis anos de 1962 e 1963, quando o Peixe virou cinquentão e levou tudo o que disputou. Foi um show por onde passou. Nesses dois jogos, que apenas ratificaram a liderança santista nacional e mundial, brilhou além do time fantástico a competência do treinador Luiz Alonso Peres. Lula, aliás o criador do time. Do primeiro desses jogos, soube apenas o resultado, no dia seguinte, pois era interno em um seminário de padres. O segundo, vi pela TV.

Naquela época, não estava na moda a expressão “nó tático”, mas foi exatamente isso o que Lula fez com os pobres adversários. Contra o Botafogo, que se achava rival do Peixe, mas que historicamente foi apenas um eventual coadjuvante de nossas conquistas, o massacre de 5 a 0 no Maracanã, fechando o bicampeonato da Taça do Brasil (em seguida, sucessivamente, viriam mais três títulos nacionais) não deixou margem a dúvidas. O Botafogo de Garrincha e Didi era irremediavelmente impotente diante do Peixe.

Na noite de 2 de abril de 1963, os dois times entraram com sua força máxima no Maracanã. O Santos tinha vencido no Pacaembu (4 a 3), mas o Botafogo ganhou o segundo jogo por vistoso 3 a 1, e era considerado pela mídia o favorito a conquistar a Copa do Brasil. A ilusão durou pouco. O Peixe meteu cinco com os seus atacantes (Dorval, Coutinho, Pelé, Pelé e Pepe) e deu branco no ataque carioca de Amarildo, Quarentinha e Zagallo, além de Garrincha.

Para esse resultado, foram fundamentais duas intervenções táticas de Lula: Zito ficou na cobertura de Dalmo na marcação a Garrincha e Dorval recuou para acompanhar Zagallo, bloqueando a armação do time botafoguense. O ponta esquerda não viu a cor da bola, anulado pelo ponteiro santista, e o genial Mané pouco produziu. Quando passava por Dalmo, parava no grande capitão.

Meses antes, no Estádio da Luz, Lisboa, a intervenção tática do treinador do Peixe foi mais simples, mas mostrou outra de suas qualidades, talvez a menos valorizada. Desde que assumiu o Santos, e foi montando o maior time da história do futebol, Lula estimulava a polivalência dos seus jogadores. Com ele, zagueiros pelo meio deviam ser tão bons laterais quanto meias defensivos e avançados, às vezes até atacantes, como Ramiro, Formiga, Urubatão e Feijó não cansaram de mostrar. O mesmo valia para laterais, volantes, meias e atacantes. No time de Lula, tinham de jogar em várias posições.

Em Lisboa, Lula tinha à disposição o mesmo time da vitória no Maracanã, pouco menos de um mês antes, com Gilmar, Lima, Mauro, Calvet, Dalmo, Zito, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Ou seja, podia escalar simplesmente o melhor conjunto da história do futebol mundial, e não precisava esquentar a cabeça. O bruxo, entretanto, resolveu azucrinar os portugueses.

Foi assim que o veterano zagueiro Olavo surgiu na lateral do Peixe, na noite de 11 de outubro de 1962, no Estádio da Luz. Eram tão grandes a empáfia lusitana e a certeza na vitória em Lisboa, decorrentes do que o Benfica fizera com os rivais europeus, incluídos Barcelona e Real Madrid, no bicampeonato da Copa da Uefa, que a mudança promovida por Lula nem foi percebida por eles.

Na verdade, a entrada de Olavo nada alterava na defesa santista. Mas o deslocamento de Lima para a meia, no lugar de Mengálvio, foi decisivo. Ao poderio do ataque santista acrescentou-se a mobilidade de Lima, mais ofensivo do que o clássico meia catarinense. Além de mais rápido, o coringa era também um poderoso finalizador de média distância.

Em suma, não foi fácil a vida do goleiro Costa Pereira. Com Dorval e Pepe em noite mais inspirada do que nunca, era impossível para ele e seus companheiros saber onde morava o perigo. O técnico Riera achava que o Santos tentaria manter a vantagem obtida no Maracanã e jogaria na defesa.

Pagou caro a ingenuidade. “O Santos nunca se fechava”, disse Zito ao jornalista Odir Cunha. “Fomos pra cima deles desde o início”, completou Lima. Aos 25 minutos, Pelé já havia marcado duas vezes. E os santistas só deram folga aos 32 do segundo tempo, quando Pepe fez o quinto gol, depois de Coutinho e Pelé terem feito outros dois. No fim, o público aplaudiu de pé o time brasileiro.

Quase100 mil portugueses viram no estádio aquela exibição inacreditável e até saíram felizes com os gols marcados por Eusébio e Santana depois dos 40 minutos do segundo tempo. Afinal, tiveram o privilégio de testemunhar um espetáculo de gala apresentado pelo maior time do mundo. Um time que, além da realeza de Pelé e da liderança de Zito, contava com a genialidade de um elenco inteiro de mágicos da bola. Sob o comando de Lula.

Não por acaso, quatro anos depois Lima foi o melhor jogador da seleção na Copa da Inglaterra, tendo se transformado no mais famoso coringa do futebol brasileiro. Jogava praticamente em todas as posições. Lula procurava explorar ao máximo o talento dos jogadores de que dispunha, muitas vezes montando o time não com os melhores por posição, mas com os melhores do elenco.

No ataque santista, Alfredinho, Dorval, Álvaro, Pagão, Coutinho, Toninho, Tite, Edu e Abel podiam jogar tanto nas extremas quanto no meio, recuados ou avançados. O Santos de Lula tinha, permanentemente, um grupo de cerca de vinte titulares, que se equivaliam e davam ao treinador todas as opções técnicas e táticas. A torcida ia para o estádio sem saber bem que time jogaria. Pagão ou Coutinho? Tite ou Pepe? Dorval ou Alfredinho? Zito e Mengálvio? Zito e Lima? Lima e Mengálvio? Zito ou Formiga ou Urubatão?

Lula assinou o primeiro contrato com o Santos no dia 13 de maio de 1952. O treinador era conhecido na cidade pelo trabalho em equipes amadoras e foi para a Vila trabalhar na base. O mineiro Formiga (Cruzeiro) e o goleiro Manga (Bonsucesso) já estavam lá desde o ano anterior, mas em seguida chegariam Zito (Taubaté), Álvaro e Feijó (Jabaquara, no começo de 1953), Vasconcellos e, mais tarde, Pagão (Portuguesa Santista). Nos times de baixo despontavam os promissores Del Vecchio e Pepe, além de Ramiro, comprado do Fluminense.

Era um elenco de peso, mas os títulos não vinham e uma penca de técnicos foi chegando e sendo dispensada. Até que, em junho de 1954, o presidente Athié decidiu entregar o time a Lula, que se transformaria no melhor e mais vitorioso técnico do futebol brasileiro. Em 13 anos no Santos, Lula ganhou 21 títulos oficiais, entre eles dois mundiais, duas Libertadores e o pentacampeonato brasileiro (Copa do Brasil, de 1961 a 1965), além de oito paulistas e diversos troféus internacionais. Venceu 770 partidas em 950, inéditos 81% de vitórias.

O maior mérito de Lula, entretanto, foi assim reconhecido pelo jornalista Odir Cunha, no livro Time dos sonhos: “Jamais outro técnico criou uma obra tão perfeita. Um time com todos os jogadores do próprio país, nenhum contratado por muito dinheiro e quase todos lançados antes de atingirem a maioridade.”

Lula foi demitido em 1967, dando lugar ao auxiliar Antoninho Fernandes, por causa de alguns maus resultados (entre eles a eliminação para o Cruzeiro, na Taça Brasil de 1966) e de intrigas políticas internas. Voltou depois à Lusinha e, em 1968, passou pelo Corinthians, com o qual derrubou o tabu, que ajudara a criar, de não vencer o Santos. Trabalhou ainda na base do Santo André e afastou-se do futebol no início dos anos 1970 por graves problemas de saúde.

Luiz Alonso Peres, o técnico que foi pedreiro e estivador antes de trabalhar no futebol, nasceu em Santos no dia 1º de março de 1922 e morreu aos 50 anos, em 15 de junho de 1972, em São Paulo. O Peixe deve uma grande homenagem a ele.

A terceira estrela esquecida e o primeiro tri das Américas

 

Recopa Mundial conquistada com o gol de Toninho

Neste dia 24 de junho, em 1969, um ano quase tão mágico para o futebol quanto o biênio 1962/1963, o Santos bateu a Inter de Milão no San Siro por 1 a 0, gol de Toninho Guerreiro. Era o terceiro mundial de clubes. Menos de uma semana após vencer as finais do campeonato paulista (outro tri estadual), o time viajou para jogar com o supercampeão europeu com a faixa da Recopa Sul-Americana.

Das duas copas, organizadas pela UEFA e pela Conmebol, participaram apenas clubes campeões mundiais. O representante europeu foi definido pela desistência do Real Madrid de participar do confronto com a Inter. Na verdade, o clube espanhol sempre evitou jogar contra times sul-americanos fora do seu continente, particularmente contra o Santos de Zito e Pelé, e essa era uma possibilidade, caso disputasse e ganhasse o título continental.

Do lado de cá, disputaram a Recopa Sul-Americana o Peñarol do Uruguai, o Racing argentino e o Peixe. Dois turnos, com jogos de ida e volta. O primeiro turno foi jogado em novembro de 1968. O Santos venceu o Racing no Parque Antártica (2 a 0, Pelé e Edu) e o Peñarol no Maracanã (1 a 0, Clodoaldo).

No returno, abril de 1969, outra vitória sobre o Racing em Avellaneda (3 a 2, com dois de Toninho e um de Negreiros) e uma derrota de 3 a 0 contra o forte time uruguaio, em Montevidéu. Na última rodada, o Racing, que havia perdido de 3 a 0 no Centenário, segurou o Peñarol (1 a 1) e deu o título ao Peixe.

Na Recopa Mundial, o regulamento previa decisão em melhor de três jogos, mas em seguida à derrota em Milão, os italianos decidiram entregar os pontos. Ainda no vestiário, anunciaram que não viriam ao Brasil e os santistas puderam trazer no avião a taça do seu terceiro título mundial de clubes.

De forma que, bem antes do São Paulo, o Santos foi tricampeão mundial, justificando a fama obtida desde o início da década de melhor time de futebol do planeta. Talvez nem tenha comemorado tanto quando os dois primeiros mundiais, pelo excesso de conquistas acumuladas pelo time de Zito e Pelé.

Naquele mesmo ano, além dos dois títulos internacionais, o Peixe fechou outro tricampeonato paulista, a competição mais forte do continente, e contribuiu com quase todos os seus titulares para a mais brilhante classificação de uma seleção nacional para a Copa do Mundo.

O milésimo do Rei: cereja de 1969

O Brasil habilitou-se a ganhar o tri mundial no México contando com oito santistas no grupo convocado pelo técnico João Saldanha: Cláudio, Carlos Alberto, Joel Camargo, Djalma Dias, Rildo, Clodoaldo, Pelé e Edu. Seriam nove, se fosse feita justiça a Toninho Guerreiro.

Coroando o ano, no dia 19 de novembro, no Maracanã, os companheiros do Rei comemoraram o milésimo gol junto com ele.

Duvidoso privilégio: ver o precoce adeus de Coutinho

Entre Pelé e Dorval

Coutinho levou a dupla de zaga chilena para a entrada da própria área, quando Lima e Pelé iniciaram o contra-ataque, ainda no meio de campo. Pelé tocou para Lima e saiu em velocidade pela meia direita. Coutinho, lá na frente, voltou alguns metros, cercado pelos dois beques, e chamou o passe. Lima percebeu a movimentação do companheiro e lançou. Foi na verdade um chute, forte e rasteiro. O centroavante desviou a bola com o lado de dentro do pé direito, para a esquerda da defesa, e saiu pelo outro lado, de novo levando os marcadores.

Além de Rei, Pelé também era chamado de Fera, quando iniciava suas arrancadas mortais. Naqueles dias mesmo, em Santiago, onde o Santos disputava mais um torneio de verão, um hexagonal com a participação dos três maiores times chilenos da época, mais América do México e Dínamo de Zagreb, a agência de publicidade de uma distribuidora de combustíveis gravou com ele alguns comerciais baseados no símbolo da empresa, a pantera. Imagem perfeita.

Alcançado o milésimo gol, dois meses antes, o Rei não parecia muito animado com partidas sem importância. Mesmo assim, marcou oito vezes em cinco rodadas do torneio chileno, duas no jogo final, que deu o título ao Peixe, contra o Universidade Católica, batida por 3 a 2 na noite de 7 de fevereiro de 1970, sábado de carnaval. Coutinho fez o outro gol santista, possivelmente seu último com a camisa branca. O mais espetacular, no entanto, foi o passe para um dos tentos de Pelé, que comecei a descrever acima.

A Fera não resistiu à bola tão açucarada. Nem o Rei nem a bola precisaram acelerar ou reduzir a velocidade. Encontraram-se naturalmente dentro da área, e Pelé encheu o pé. Com tanta força, que acompanhou deslizando de peixinho pela grama a trajetória da bola até dentro do gol. Atônito, o goleiro só pode ver com o rabo do olho aquela dupla invasão de sua meta e de sua privacidade.

Coutinho nem se deu ao trabalho de verificar o desfecho do lance. Passou correndo pela minha frente, na direção oposta à comemoração dos companheiros. Fazia cara de mau e gritava: “Couto, tu é foda”, caprichando no jeito de falar da cidade que adotou antes de fazer 15 anos. Ele não era muito chegado a reverências e, embora participasse com alegria dos festejos do ataque de sonho, às vezes preferia o recolhimento.

Eu disse que Coutinho “passou correndo pela minha frente” e esqueci de explicar o que eu fazia sentado atrás do gol do Estádio Nacional de Santiago do Chile atacado pelo Peixe. A localização privilegiada, oferecida ao repórter fantasiado de fotógrafo de jornal, me permite guardar as lembranças e descrever a jogada. Claro que sem o brilho dos repórteres da época (Vital Bataglia, Alberto Helena, Roberto Avallone, Luiz Carlos Ramos, Elói Gertel, e a turma de A Tribuna), mas com informação bastante para virar obra-prima de Gepp e Maia.

Os dois ilustradores eram o replay impresso dos principais gols da rodada, na Edição de Esportes do Jornal da Tarde, cuja chegada à livraria do Café do Atlântico, na Cinelândia santista, minha turma aguardava, para curtir um pouco mais os recitais do Peixe, no fim dos anos 1960.

Os domingos daquele tempo eram fabulosos, como fábulas mesmo. Praia pela manhã, Peixe na Vila ou na TV à tarde, namoro à noite nos jardins da orla ou nas poltronas dos cinemas do Gonzaga. E sobrava tempo para as últimas cervejas, prolongando o fim de semana até a segunda-feira. O que se poderia desejar mais do que ter 18 anos e, de repente, ver Mauricy Moura despontar no mesmo bar, cantando Sou santista? Pois é! E tinha a Edição de Esportes, confirmando que nada havia igual ao Peixe.

A tristeza que ficou do carnaval de 1970, sem contradição, foi o duvidoso privilégio de assistir no Chile aos últimos jogos pra valer do jovem Coutinho. Um desperdício iniciado anos antes, por conta de problemas físicos, que Antoninho Fernandes tentou evitar, ao ter pela frente o desafio de encontrar um centroavante para o time, já sem Toninho Guerreiro, vendido ao São Paulo. Sabendo que os garotos da base não estavam prontos para a missão, o treinador foi ver na Ponta da Praia a pelada de fim de ano que reunia os maiores craques do futebol brasileiro. Coutinho comeu a bola, marcou de bicicleta e fez a alegria do grande público que servia de alambrado para o campo de areia.

O treinador não foi surpreendido. Só constatou que a solução estava ali. Terminada a farra, entregou o endereço do alfaiate ao centroavante e pediu que ele se apresentasse na Vila depois do révèillon. Com o passaporte em dia.

O piracicabano Coutinho teria feito 77 anos nesta quinta-feira, 11 de junho. Morreu o ano passado, dia 11 de março, em Santos.