Negócios da bola (segunda parte)

Tentativa de roteiro “baseado em fatos reais”, para série de TV. Os fatos que se seguem, datados de décadas atrás, envolvem um time de futebol e pessoas já mortas, cujos nomes foram modificados. Testemunhas ouvidas pelo autor narraram estas histórias, que nada são mais do que ficção e galhofa.

 Temporada 1, episódio 2

Quarto de hotel cinco estrelas em cidade de um país alpino. O técnico Paco reúne o time para resolver um problema grave, que ameaça não só a reputação dos jogadores e do time, mas a do próprio país que representam. O clima é tenso.

Cinco horas antes.

O comércio local está fechado ao público por causa de um feriado nacional. A pedido da Embaixada, um alto funcionário de prestigiada joalheria abre a loja para atender o elenco e os dirigentes do clube. Armado da maior boa vontade, o rapaz destrava as estantes envidraçadas e coloca os mostruários de joias e relógios à disposição dos estrangeiros.

De volta ao hotel, o chefe da delegação recebe uma ligação da Embaixada. Uma joia valiosa havia sumido e a polícia só não será acionada se não for devolvida até aquela noite. O treinador é chamado para resolver rapidamente o problema, já que o escândalo seria enorme, caso vazasse. Paco diz “deixem comigo”, e chama o elenco para a reunião no quarto dele.

Agora, estão todos acomodados diante do técnico e de uma mesinha. Paco dirige-se aos jogadores no tom que a gravidade do momento exige:

– Um de vocês fez merda. Um puto de vocês pegou uma peça muito cara, colocou no bolso e saiu da joalheria sem pagar. Os caras descobriram e ameaçam avisar a polícia. Precisamos devolver a joia, caralho.

Suspense. Os jogadores se entreolham, tentando adivinhar quem foi capaz de fazer aquilo. O sentimento geral é de vergonha.

– Está claro que um de vocês pegou a joia. Mas não quero humilhar ninguém. Vou dar uma chance ao malandro. O (massagista) Marinho vai apagar as luzes e o filho da puta terá tempo de colocar a joia nesta mesa sem ser visto.

– Apague a luz, Marinho!

O silêncio só não é maior do que a escuridão do quarto. Ninguém percebe qualquer movimento, até que Paco autorize Marinho a acender a luz de novo.

Então, como num conto do detetive Hercule Poirot, espantosamente a joia brilha no meio da mesa. Paco elogia a honestidade dos jogadores e dispensa o grupo.

Com açúcar e com afeto

Da primeira vez que falei palavrão em casa, tinha 7 ou 8 anos de idade. Só repeti, me achando adulto pra caramba, uma frase que ouvi na escola: “O Dudu é fresco”. Ia rir da minha fala, quando levei uma chapuletada. Foi a única vez que o Bom Fonseca bateu em mim ou em qualquer dos outros nove filhos. O velho era todo carinho e só perdia as estribeiras quando azucrinávamos demais a vida da amada Bela Dolores, nossa mãe.

É claro que depois, na rua e em casa, eu iria descobrir legítimos e cabeludos palavrões, entre os quais um sinônimo para o inofensivo fresco da primeira bofetada. Mais sonoro e potente, perobo foi contribuição do Albano, leitor ávido, mano que abriu os horizontes do nosso vocabulário, inclusive o profano. Nessa época, já entoávamos o encantador refrão “um, dois, três, pau no cu do português!”, embora lusitanos fôssemos, os santistas e os Fonseca.

Dizia-se que eram palavras de baixo calão, mas hoje elas cabem no sermão do padre da querida paróquia de São Judas Tadeu, sem escandalizar os fiéis de tão ingênuas. Agora, existe arsenal mais pesado e devastador à disposição dos bocas sujas. Não, não falo das eruditas sentenças dos juízes da corte, um manancial incrível. Falo de outras palavras mas feias que as do Celso de Mello. Além dos palavrões tradicionais, que enriquecíamos com os impropérios da torcida da Burrinha em Ulrico Mursa, temos as expressões modificadas nos laboratórios da militância ideológica. Letais como vírus chinês.

Reacionário, retrógrado, fascista, palavras que moleque sadio do Marapé jamais usou, são afrontas que se dirigem a torto e a direito, muitas vezes sem que o autor da injúria e o próprio injuriado tenham noção do significado. Mas machucam e podem terminar em tragédia. Basta que de um lado esteja um pensamento, palavra de ordem ou orientação central e, do outro, o oposto disso, um adversário ou inimigo. Um membro da elite exploradora do povo.

Nos dias que correm, pesado mesmo é chamar alguém de bolsonarista, com justa ou nenhuma razão. Da mesma forma que, na resposta, os defensores reais ou supostos do ex-presidente condenado, preso e temporariamente solto são genericamente apodados de ladrões. Nas hostes da esquerda, recente contribuição da proveta linguística é “cancelamento”. Nesse processo, antigos e leais companheiros, com vasta contribuição às causas, sejam elas quais forem, são implacavelmente triturados. Apenas por terem sem querer elogiado o porte do cavalo montado há dias pelo “criador” da covid-19. Outra aberração é atribuir sentimentos de ódio a alguém. Ou melhor… veja bem… quer dizer…

A palavra ódio não teve o significado alterado, como tantas outras. Narrativa, por exemplo, tornou-se em geral sinônimo de ficção. História inventada, mentira, para falar mais claro. Fake news, para ser moderninho. Mas ódio não. Ódio continua sendo um sentimento reprovável, que rebaixa quem é tomado por ele, conformeos dicionários. O diferente é que atualmente se pode exprimir ódio profundo contra alguém, desejar-lhe a mais dolorosa das mortes, e não ser condenado moralmente por isso. Pois, depende. A quem essa ira incontida se dirige? Quem a expressa?

Pois é! Nossos cientistas sociais/colunistas da mídia conseguiram relativizar o ódio. Inventaram o ódio do bem, na linha dos criminosos em favor do interesse comum (diferentes dos reles batedores de carteira e, portanto, defensáveis), dos democratas do porrete ativo (os antigos vândalos, na versão de democracia mais aceita nas escolas progressistas atuais), da censura que jornalistas e intelectuais defendem, quando a livre expressão aprisionada é a dos outros.

Para os combatentes situados nas confortáveis e bem remuneradas trincheiras dos departamentos de ciências sociais das universidades públicas, o ódio está liberado, desde que empregado contra adversários políticos. O fim justifica o meio, como explicou um deles em coluna que, logo, servirá de forro para o xixi dos meus poodles. O ódio vale quando pode ajudar a mudar “tudo isso que está aí”, dizem, mesmo quando o “tudo isso que está aí” é um governo cujas propostas foram legitimadas pelo voto popular. Típico equívoco da democracia, lamentam.

Assim, por esse exercício admirável de pensamento político, é justo desejar a morte física de quem não se conseguiu bater nas urnas e que, lamentavelmente, o maluco incompetente não foi capaz de abater na faca. Por que esperar tanto pelo voto redentor, posto que incerto, como se viu em outubro de 2018? Não seria melhor antecipar a solução que o eleitor não vê a um palmo do nariz e poupá-lo dos males que o eleito já fez e ainda fará?

Um desses que remuneramos e pensa pior do que escreve nem se dá ao trabalho de teorizar e buscar fundamentos “científicos” para justificar a explosão de ódio. De tempos em tempos, nos espaços que lhe concedem gazetas desvairadas, ele ameaça com a revolução popular que, implora, virá desbancar as elites econômicas e políticas e entregar o poder aos cidadãos. Democracia direta, é o que diz querer, despreocupado de questões práticas como de que forma auscultar tantas pessoas sobre tudo. Preocupação que, de fato, não existe, pois a “manifestação popular”, ele sabe, está restrita e é exclusiva dos comitês amigos.

No grosso, as ideias que lança têm pelo menos dois séculos de atraso, mas o doutor está certo de que representam o futuro. Um dia, provavelmente vingarão. Ele imagina, como muitos dos camaradas, que viram no PCC uma aposta interessante e acreditou nos black blocs e nos caminhoneiros em greve, que se diziam dispostos a afundar o país. Tais frustrações, no entanto, são sempre compensadas pela certeza de que um dia os sem terra e os sem teto de Stedile e Boulos cumprirão a ameaça dos líderes e atearão fogo no país.

Com muito afeto e plenos de ódio bondoso no coração.

Negócios da bola (primeira parte)

Tentativa de roteiro “baseado em fatos reais”, para série de TV. Os fatos que se seguem, datados de décadas atrás, envolvem um time de futebol e pessoas já mortas, cujos nomes foram modificados. Testemunhas ouvidas pelo autor narraram estas histórias, que nada são mais do que pura ficção e galhofa.

 Temporada 1, episódio 1

Quarto de hotel cinco estrelas em uma capital sul-americana. Paco, o treinador do time, interfona para o massagista Marinho.

– Você comprou um “3 em 1” em Nova York, não foi? Quanto pagou? Ainda está com ele?

– Sim, chefe. Paguei 100 dólares.

– Então, vem aqui. E traz o aparelho, que eu quero comprar.

Paco explica ao massagista que estava encrencado com um freguês, a quem havia prometido vender uma daquelas maravilhas. Trouxera cinco dos EUA, mas naquela manhã outros compradores apareceram e levaram todos.

Naquele tempo, quem viajava para o exterior trazia na bagarem alguma bebida, cigarros, perfumes, lenços de seda, suéteres de cashmere inglês, relógios e brinquedos elétricos. Esses produtos ficavam mais baratos quando comprados livre de impostos nas zonas francas de Lima e da Cidade do Panamá, escalas das viagens entre o Sul e o Norte do continente.

Na América do Sul, o que podia ser comprado em um país para ser vendido em outro era algumas roupas de lã no Peru e na Bolívia, cashmere de padrão inferior na Argentina, também produtora de um bronzeador, o Rayito de Sol, muito apreciado nas praias e piscinas brasileiras. Havia também alguma bebida, como o rum e o pisco, que podia interessar nas vizinhanças. Nas andanças do time pelo continente, Paco estudava bem o roteiro e avaliava os negócios possíveis.

Sonhos de consumo de maior valor agregado eram pequena TV de cinco polegadas, ainda em preto e branco, e um auto rádio chamado GoldStar, de seis válvulas, além do recém lançado “3 em 1”, equipamento que reunia toca discos, rádio e gravador de fita cassete numa só peça. Era de uma dessas novidades que o treinador precisava para não deixar o freguês na mão.

No quarto do chefe, Marinho encontra o comprador à espera. Sem ação, acompanha a rápida sequência da história. O sujeito passa 150 dólares em dinheiro para Paco, que entrega a encomenda ao novo dono. Em seguida, Paco coloca uma nota de 50 dólares no bolso e paga o subordinado com os outros 100.

– Tudo certo? Obrigado, Marinho!

Hipocrisia no bote salva-vidas

Depois, os defensores das bases científicas para o enfrentamento dos problemas – e nada tenho contra a ciência de Osvaldo Cruz, Emílio Ribas e Saturnino de Brito – ficam chateados quando ridicularizados. Ou quando pegos em descaradas contradições, em flagrante militância político-ideológica.

Vejam o caso da OMS, melhor dizendo Desorganização Mundial da Saúde, com suas desorientações ligadas à pandemia. É um vai e vem tão célere quanto pingue pongue chinês. Após omitir informações disponíveis desde o ano passado e vacilar na emissão do alerta mundial que poderia ter evitado milhares de mortes com a adoção no momento certo das medidas preventivas, a entidade deu agora de oscilar entre o horror e o terror desnaturados.

Esta semana, sem mais nem menos, anunciou que o corona vírus pode ser transmitido pelo ar. Era o que faltava para alimentar o estoque de más notícias dos arautos do medo e dos telejornais que adoram colocar em polvorosa os pobres mortais que somos e sabemos, sem necessidade de mais sadismo. O bom é que os caras erram muito; o ruim é que podem acertar algum chute.

Mais honesto seria que todas essas autoridades médicas, científicas e midiáticas se dessem as mãos como num templo e, em generoso ato de contrição, reconhecessem sua brutal ignorância sobre covid-19. O que é a doença? Boa pergunta. Como se dá a transmissão? Não fazemos a menor ideia. O isolamento é a melhor prevenção? Sem dúvida, como várias outras: parar de respirar, mudar para Marte. Na falta da vacina, existe remédio que ajude? Ontem, não havia. Hoje, não sabemos. Amanhã, possivelmente sim. Ou não mais.

De forma que obrigar as pessoas a ficar em casa, como fazem governadores, prefeitos e juízes, além do Bonner, não passa de uma safada hipocrisia, por se tratar de uma solução (?) reservada a parte da população. Pode ficar em casa quem tem recursos para pagar serviços e produtos a domicílio. Não podem ficar parados os que precisam ganhar algum, provendo serviços e produtos aos privilegiados. Trata-se, pois, de um humanismo estranho, que decide, no barco à deriva, os poucos que terão lugar no bote salva-vidas.

O sublime por linhas tortas

Manga, Hélvio e Ivan; Ramiro, Formiga e Zito; Alfredinho, Álvaro, Pagão, Vasconcellos e Pepe. Na voz de Ernane Franco, pelas ondas da Rádio Atlântica de Santos, nas tardes de domingo, isso era pura poesia. Versos como nenhum santista cantou antes ou depois. E olha que temos, nascidos entre o mar e a serra, os melhores poetas, de Vicente de Carvalho e Martins Fontes à turma do Charlie Brown Jr, a Renato Teixeira e Lúcio Cardim.

Na numeração, a sequência de 1 a 11 é que me intrigava. Um do goleiro Manga, ok. Mas depois vinham Hélvio com a 2, jogando pelo meio da defesa, ao lado do Formiga, o número 6, chamado na época de quarto-zagueiro. O 3, Ivan, jogava pela esquerda, e o 4 Ramiro do outro lado, pela direita. O 5 era Zito, nosso líder, hoje chamado médio volante. Só muito mais tarde vim a entender essa lógica, que nenhum desvairado venha a querer contrariar.

Depois, a coisa seguia, digamos, linearmente. O 7 do Alfredinho (ponta direita), o 8 do Álvaro (meia direita), o 9 do Pagão (centroavante), o 10 do Vasconcellos (meia esquerda ou ponta de lança) e o 11 do Pepe (ponta esquerda). Mas aí o inesperado vinha da bola que essa turma jogava. Este ataque, depois com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, viraria definitivamente o estado da arte, em todas as suas manifestações. Ora música, ora balé, ora pintura, como os gols de Pelé e Neymar.

Almas simples preferem times numerados iguais as casas das ruas normais, pares à direita, ímpares à esquerda, previsíveis como uma bomba do Pepe, o nosso canhão. Sem surpresas, sempre de acordo com o esperado, porque nunca tais almas, as simplórias, puderam exclamar “oh”, ante um drible de Pagão, Dorval ou Edu. Um passe improvável de Mengálvio ou Coutinho. A classe extra de Mauro e Joel Camargo.

Santistas, ao contrário, somos sofisticados. Nossa defesa vai de 1, 4, 2, 6, 3 e 5, e assim se fez imortal, como as linhas dos 100 gols, o trio PPP, o ataque mágico dos quatro negros e um branquelo. A retaguarda que às vezes tomava três, para ajudar nossa dianteira a fazer cinco, seis, sete, oito, nove, dez. Amém!

Para fugir dos militantes

Não tenho qualquer afeto por mensagens bolsonaristas que, vira e mexe, despencam em meu facebook. Quando se tornam insuportáveis, simplesmente deleto. A mensagem e o autor ou propagador. Tento evitar atitudes drásticas, porém, porque me interessa ter alguma amostra do que pensam os defensores do presidente da República.

O mesmo tratamento dou aos representantes do outro extremo, que reúne uma autointitulada esquerda brasileira, composta de lulistas, petistas e adeptos de outras siglas ideologicamente mais radicais. Quando não consigo perceber sinceridade e vejo só oportunismo na defesa da democracia, o que os moveria, conforme dizem, rebato seus argumentos e, no limite, os afasto.

O problema é que, por intermédio de terceiros, esse tipo de mensagem, de um lado e de outro, reaparece por aqui, para meu desgosto. O que me incomoda não é apenas o ódio insano e sem partido, de todas as colorações, mas sim a defesa do que, no meu entender, é indefensável. Como a louvação de métodos medievais de fazer política e o elogio da prática aplicada nos últimos governos de saquear os cofres públicos em nome de suposto combate às desigualdades.

Hoje mesmo, recebi de contrabando panfleto produzido por um profissional que trabalhou para o governo Lula e foi sócio de publicação bancada por órgãos federais (nela anunciavam exclusivamente estatais, instituições financeiras, ministérios e parceiros como a JBS), fechada no fim dos 16 anos de lulopetismo. Tempos atrás, após ler impropérios a mim dirigidos, afastei-me definitivamente do antigo colega de redação, um bom jornalista antes de se tornar militante.

Da mesma forma, sigo sendo alcançado pela Folha e suas variações, na medida em que integrantes de minha lista no facebook insistem em reproduzir aqui textos assinados por comentaristas da empresa, uma vez que desapareceram os repórteres do antigo jornalismo, feito mais de apuração e menos de opinião. É irritante, porque foi justamente para não prestigiar a reprodução de mentiras e palpites enviesados que cancelei minha assinatura do jornal.

Nesses casos e em outros, como a reprodução de blogs militantes, em primeiro lugar deleto a publicação pontual. Só na reincidência extremada, deleto a barriga de aluguel, e tento evitar futuros dissabores.

Doutores da universidade pública sentenciam: Bolsonaro mata bolsonaristas!

Por estes dias, um veículo resistente da mídia paulista publicou algo identificado como “pesquisa” ou “trabalho acadêmico”. Segundo o “estudo”, assinado por quatro assalariados de universidades públicas, o presidente da República, ao desdenhar das recomendações das autoridades sanitárias para combate à pandemia, estaria matando seus eleitores. Exatamente isso: Bolsonaro estaria matando as pessoas que votaram nele.

Um dos “cientistas”, doutor em Ciência Política formado pela USP e professor da Federal do ABC, Ivan Filipe Fernandes, afirma que nos municípios em que o presidente foi mais votado no primeiro turno de 2018 é menor o isolamento das pessoas e maior o número de mortes por Covid-19. Logo… “É como se, com seu discurso, Bolsonaro tivesse levado seus eleitores ao abatedouro”, conclui o doutor. Isso mesmo: ele acusa o presidente de levar seus eleitores ao abatedouro.

“Ideologia, isolamento e morte: uma análise dos efeitos do bolsonarismo na pandemia de Covid-19” – esse é o título da coisa, obrada por “pesquisadores” da Universidade Federal do ABC, da Universidade de São Paulo e da Fundação Getúlio Vargas. Que um panfleto como a Falha leve a sério uma aberração como essa já não surpreende. Surpreende menos ainda que militantes políticos instalados em instituições mantidas pelo Estado se dediquem a isso. Mas, como são remunerados com dinheiro nosso, penso que deveriam ocupar-se de atividades mais sérias.

Alguma dúvida do caráter meramente panfletário da bobajada? Pois vejam o que confessa o doutor Ivan: “Não conseguimos estimar quantas pessoas morreram a mais por conta das falas do presidente, mas certamente teríamos menos óbitos, principalmente entre seus apoiadores, se ele tivesse agido de forma diferente”. Em outras palavras, a “pesquisa” não consegue dizer quantas pessoas Bolsonaro matou, mas cientificamente conclui que poderia ter matado menos. Brilhante!

Deve ser por isso que os marajás das nossas universidades públicas, abrigados especialmente na chamada área de ciências humanas, são tão laureados no universo acadêmico internacional. A relevância de seus trabalhos é mundialmente reconhecida e pode ser medida por excrescências como essa, que exigiu o esforço conjunto de quatro ativistas da militância universitária e resultou num conclusivo “certamente”.

Pode não ter sido em vão, contudo. Vai que o Darth Vader do stf se interesse pelo caso e indicie o presidente por extermínio em massa de bolsonaristas!

Gols de Pelé

Pelé, Coutinho e Dorval: um inferno

Coutinho contou uma vez que, chateado com as confusões feitas pelos narradores de rádio, resolveu amarrar uma fita branca num dos pulsos. Ele não queria mais ser o perdedor de todos os gols da dupla e deixar para Pelé as honras dos gols marcados. Quando a bola entrava, gol do Rei. Quando saía, finalização errada de Coutinho. Muitas vezes, era o contrário: Pelé perdia, num lance, e o centroavante marcava, em outro

Até entre os adversários dava-se a confusão. Não ficava muito claro quem vinha com a bola e quem traiçoeiramente se deslocava por trás dos desesperados beques. Piorava mais ainda quando a dupla virava trio, com a presença de Dorval. O inferno ficava mais quente.

O jornalista De Vaney, que nasceu em 22 de fevereiro de 1907, em Ribeirão Preto, e morreu em 29 de janeiro de 1990, na cidade, marcou a imprensa santista. Foi um dos mais premiados cronistas esportivos do país. Em entrevista ao jornal Notícias Populares, de São Paulo, ele contou que tais enganos ajudaram a construir o mito Pelé, cuja carreira acompanhou desde o início.

— Recordemo-nos, por exemplo, de uma irradiação feita por Geraldo José de Almeida: “Gol de Pelé! Gol do craque café! Só Pelé faria um gol assim!” Nisso, o locutor de campo interrompeu: “Olha, Geraldo, o gol foi de Coutinho!” Geraldo não se perturbou: “Só Pelé daria um passe assim!” Nova interrupção do repórter de campo: “Olha, Geraldo, o passe foi de Dorval!” Mas Geraldo saiu-se com esta: “Um gol assim só com Pelé dentro do campo!” O repórter de campo completou: “Só Pelé perderia um gol com essa elegância, com essa majestade de rei do futebol!”.

Antoninho Fernandes, craque no campo e no banco

Um dos maiores artilheiros do Peixe, o meia de futebol refinado virou técnico para ganhar, entre outros títulos, um tri paulista, um brasileiro, uma supercopa sul-americana e uma Recopa Mundial. Foi ouro no Pan-Americano dirigindo o Brasil

                                              Agachado com a bola nas mãos, no time de 1951

 

 

É possível que eu tenha visto Antoninho Fernandes em campo, em seu último ano de jogador. Mas, lembrança que é bom, nada. De 1954, a única imagem que restou com alguma nitidez, mais de 65 anos depois, foi a de um dia sombrio de agosto. Aquele 24 em que o presidente Vargas se matou.

Levaria um pouco mais de tempo para fixar instantes dos primeiros jogos na Vila. Uma derrota para o Corinthians, perto do Natal. Uma vitória contra o Botafogo de Garrincha, com o menino Pelé entrando no fim. Mas Antoninho já não brilhava com a camisa branca.

Para falar a verdade, na minha meninice eu nem sabia quem era Antoninho. Porque ídolos brotavam em penca na Vila e as coisas aconteciam tão rápido com o Peixe, que eu pensava que sempre haviam sido daquele jeito. Um show de bola de não se acabar.

Antes que o Sputnik desse a volta na Terra e assombrasse o mundo, o Santos já corria o planeta e empolgava multidões. Pelé e Dorval vinham na esteira de Ramiro, Zito, Formiga, Álvaro, Pagão, Del Vecchio, Vasconcelos e Pepe. Além desses, Lima, Mengálvio e Coutinho estavam de malas prontas para desembarcar na Vila ou já tinham chegado ao campo dos sonhos. Que tempos!

Os mais velhos falavam maravilhas de Nicácio, Odair, Carlyle, Pinhegas, Walter e, principalmente, Antoninho Fernandes. Mas para quê cultuar o passado, mesmo tão próximo, se o presente nos oferecia tanto? De forma que uma geração de craques foi esquecida, ou nem era lembrada pelos que pegavam o bonde maravilhoso naquela hora, como eu.

Só fui ouvir falar de Antoninho quando ele passou a ser definitivamente o principal assistente do técnico Lula. Não soube dos dois anos que ainda jogou no Jabuca nem do título mineiro conquistado com o Galo, já como técnico, no início dos anos de 1960. Desconhecia, sobretudo, sua importância na formação das inesquecíveis equipes santistas.

Na cidade ou longe dela, Antoninho continuou trabalhando para o clube que sempre amou. Jamais houve um olheiro como ele, capaz de reconhecer o craque no primeiro toque na bola. Ou tão profundo conhecedor do maior celeiro de futebolistas que o Brasil já teve: a várzea santista, de onde saiu e à qual voltaria até morrer.

Nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado, era possível formar fortíssimas seleções nacionais só com jogadores nascidos na cidade, como Olavo, Cláudio Cristóvão Pinho, Baltazar e Pavão, para citar os que fizeram sucesso em outros clubes. Antoninho era um desses selecionáveis, mas teve a falta de sorte de jogar numa época que era mais forte a influência carioca na seleção. Por isso, nunca defendeu a equipe nacional.

Como seu time era a alegria dos juízes safados, teve de se contentar com dois vice-campeonatos paulistas, no período em que jogou no Santos, de 1941 a 1954. Ganhou, ainda, a Taça Cidade de São Paulo, em 1949, o torneio quadrangular de Belo Horizonte, em 1951, e o torneio início do campeonato paulista, em 1952. Pela seleção paulista, foi campeão brasileiro nesse ano.

Rápido, habilidoso e inteligente, era um grande armador – foi chamado de “arquiteto da bola” – e um mortal finalizador. Em exatos 400 jogos, marcou 145 gols para o Santos. É o 12º maior artilheiro santista.

                                                    Medalha de ouro com o Brasil no Pan de 1963

Em 1967, no lugar de Lula com apenas 45 anos de idade, o atacante alto e esguio deu lugar ao treinador gordo e tranquilo, que continuou levando o Santos a grandes conquistas. Em quatro anos, foi campeão brasileiro (Taça de Prata de 1968), continental (Supercopa Sul-Americana) e intercontinental (Recopa Mundial, batendo a Internazionale, campeã da Recopa Europeia);

Ganhou, ainda, o tricampeonato paulista de 1967 a 1969, a Taça Cidade de São Paulo de 1970 (com um time de garotos, já que meio Santos servia à seleção no tri do México) e torneios internacionais, como o Hexagonal do Chile (duas vezes) e o Pentagonal de Buenos Aires. Antes, foi campeão Pan-Americano, dirigindo a seleção brasileira nos Jogos de São Paulo, em 1963. Em 1971, quando Athié deixou a presidência, passou o comando da equipe para seu ex-jogador Mauro.

Antoninho Fernandes nasceu em Santos no dia 13 de agosto de 1921. Morreu muito jovem, aos 52, também em Santos, no dia 10 de dezembro de 1973. Era um domingo. Horas depois, viu lá de cima o seu time entrar em campo, no Morumbi, para enfrentar o Palmeiras.

O maior e mais vitorioso técnico do futebol mundial

Na minha memória afetiva estão os dois jogos épicos do Santos em competições oficiais: a virada contra o Milan, no Maracanã, em 1963, e a goleada sobre o Fluminense, no Pacaembu, em 1995, que nos levou à final do campeonato brasileiro daquele ano. Assisti ao primeiro pela TV e ao segundo no estádio. Na mesma memória estão os dois maiores espetáculos de futebol jamais vistos no mundo, protagonizados pelo time mágico de Zito e Pelé.

Ambos também oficiais e consagrados por títulos conquistados aconteceram nos inesquecíveis anos de 1962 e 1963, quando o Peixe virou cinquentão e levou tudo o que disputou. Foi um show por onde passou. Nesses dois jogos, que apenas ratificaram a liderança santista nacional e mundial, brilhou além do time fantástico a competência do treinador Luiz Alonso Peres. Lula, aliás o criador do time. Do primeiro desses jogos, soube apenas o resultado, no dia seguinte, pois era interno em um seminário de padres. O segundo, vi pela TV.

Naquela época, não estava na moda a expressão “nó tático”, mas foi exatamente isso o que Lula fez com os pobres adversários. Contra o Botafogo, que se achava rival do Peixe, mas que historicamente foi apenas um eventual coadjuvante de nossas conquistas, o massacre de 5 a 0 no Maracanã, fechando o bicampeonato da Taça do Brasil (em seguida, sucessivamente, viriam mais três títulos nacionais) não deixou margem a dúvidas. O Botafogo de Garrincha e Didi era irremediavelmente impotente diante do Peixe.

Na noite de 2 de abril de 1963, os dois times entraram com sua força máxima no Maracanã. O Santos tinha vencido no Pacaembu (4 a 3), mas o Botafogo ganhou o segundo jogo por vistoso 3 a 1, e era considerado pela mídia o favorito a conquistar a Copa do Brasil. A ilusão durou pouco. O Peixe meteu cinco com os seus atacantes (Dorval, Coutinho, Pelé, Pelé e Pepe) e deu branco no ataque carioca de Amarildo, Quarentinha e Zagallo, além de Garrincha.

Para esse resultado, foram fundamentais duas intervenções táticas de Lula: Zito ficou na cobertura de Dalmo na marcação a Garrincha e Dorval recuou para acompanhar Zagallo, bloqueando a armação do time botafoguense. O ponta esquerda não viu a cor da bola, anulado pelo ponteiro santista, e o genial Mané pouco produziu. Quando passava por Dalmo, parava no grande capitão.

Meses antes, no Estádio da Luz, Lisboa, a intervenção tática do treinador do Peixe foi mais simples, mas mostrou outra de suas qualidades, talvez a menos valorizada. Desde que assumiu o Santos, e foi montando o maior time da história do futebol, Lula estimulava a polivalência dos seus jogadores. Com ele, zagueiros pelo meio deviam ser tão bons laterais quanto meias defensivos e avançados, às vezes até atacantes, como Ramiro, Formiga, Urubatão e Feijó não cansaram de mostrar. O mesmo valia para laterais, volantes, meias e atacantes. No time de Lula, tinham de jogar em várias posições.

Em Lisboa, Lula tinha à disposição o mesmo time da vitória no Maracanã, pouco menos de um mês antes, com Gilmar, Lima, Mauro, Calvet, Dalmo, Zito, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Ou seja, podia escalar simplesmente o melhor conjunto da história do futebol mundial, e não precisava esquentar a cabeça. O bruxo, entretanto, resolveu azucrinar os portugueses.

Foi assim que o veterano zagueiro Olavo surgiu na lateral do Peixe, na noite de 11 de outubro de 1962, no Estádio da Luz. Eram tão grandes a empáfia lusitana e a certeza na vitória em Lisboa, decorrentes do que o Benfica fizera com os rivais europeus, incluídos Barcelona e Real Madrid, no bicampeonato da Copa da Uefa, que a mudança promovida por Lula nem foi percebida por eles.

Na verdade, a entrada de Olavo nada alterava na defesa santista. Mas o deslocamento de Lima para a meia, no lugar de Mengálvio, foi decisivo. Ao poderio do ataque santista acrescentou-se a mobilidade de Lima, mais ofensivo do que o clássico meia catarinense. Além de mais rápido, o coringa era também um poderoso finalizador de média distância.

Em suma, não foi fácil a vida do goleiro Costa Pereira. Com Dorval e Pepe em noite mais inspirada do que nunca, era impossível para ele e seus companheiros saber onde morava o perigo. O técnico Riera achava que o Santos tentaria manter a vantagem obtida no Maracanã e jogaria na defesa.

Pagou caro a ingenuidade. “O Santos nunca se fechava”, disse Zito ao jornalista Odir Cunha. “Fomos pra cima deles desde o início”, completou Lima. Aos 25 minutos, Pelé já havia marcado duas vezes. E os santistas só deram folga aos 32 do segundo tempo, quando Pepe fez o quinto gol, depois de Coutinho e Pelé terem feito outros dois. No fim, o público aplaudiu de pé o time brasileiro.

Quase100 mil portugueses viram no estádio aquela exibição inacreditável e até saíram felizes com os gols marcados por Eusébio e Santana depois dos 40 minutos do segundo tempo. Afinal, tiveram o privilégio de testemunhar um espetáculo de gala apresentado pelo maior time do mundo. Um time que, além da realeza de Pelé e da liderança de Zito, contava com a genialidade de um elenco inteiro de mágicos da bola. Sob o comando de Lula.

Não por acaso, quatro anos depois Lima foi o melhor jogador da seleção na Copa da Inglaterra, tendo se transformado no mais famoso coringa do futebol brasileiro. Jogava praticamente em todas as posições. Lula procurava explorar ao máximo o talento dos jogadores de que dispunha, muitas vezes montando o time não com os melhores por posição, mas com os melhores do elenco.

No ataque santista, Alfredinho, Dorval, Álvaro, Pagão, Coutinho, Toninho, Tite, Edu e Abel podiam jogar tanto nas extremas quanto no meio, recuados ou avançados. O Santos de Lula tinha, permanentemente, um grupo de cerca de vinte titulares, que se equivaliam e davam ao treinador todas as opções técnicas e táticas. A torcida ia para o estádio sem saber bem que time jogaria. Pagão ou Coutinho? Tite ou Pepe? Dorval ou Alfredinho? Zito e Mengálvio? Zito e Lima? Lima e Mengálvio? Zito ou Formiga ou Urubatão?

Lula assinou o primeiro contrato com o Santos no dia 13 de maio de 1952. O treinador era conhecido na cidade pelo trabalho em equipes amadoras e foi para a Vila trabalhar na base. O mineiro Formiga (Cruzeiro) e o goleiro Manga (Bonsucesso) já estavam lá desde o ano anterior, mas em seguida chegariam Zito (Taubaté), Álvaro e Feijó (Jabaquara, no começo de 1953), Vasconcellos e, mais tarde, Pagão (Portuguesa Santista). Nos times de baixo despontavam os promissores Del Vecchio e Pepe, além de Ramiro, comprado do Fluminense.

Era um elenco de peso, mas os títulos não vinham e uma penca de técnicos foi chegando e sendo dispensada. Até que, em junho de 1954, o presidente Athié decidiu entregar o time a Lula, que se transformaria no melhor e mais vitorioso técnico do futebol brasileiro. Em 13 anos no Santos, Lula ganhou 21 títulos oficiais, entre eles dois mundiais, duas Libertadores e o pentacampeonato brasileiro (Copa do Brasil, de 1961 a 1965), além de oito paulistas e diversos troféus internacionais. Venceu 770 partidas em 950, inéditos 81% de vitórias.

O maior mérito de Lula, entretanto, foi assim reconhecido pelo jornalista Odir Cunha, no livro Time dos sonhos: “Jamais outro técnico criou uma obra tão perfeita. Um time com todos os jogadores do próprio país, nenhum contratado por muito dinheiro e quase todos lançados antes de atingirem a maioridade.”

Lula foi demitido em 1967, dando lugar ao auxiliar Antoninho Fernandes, por causa de alguns maus resultados (entre eles a eliminação para o Cruzeiro, na Taça Brasil de 1966) e de intrigas políticas internas. Voltou depois à Lusinha e, em 1968, passou pelo Corinthians, com o qual derrubou o tabu, que ajudara a criar, de não vencer o Santos. Trabalhou ainda na base do Santo André e afastou-se do futebol no início dos anos 1970 por graves problemas de saúde.

Luiz Alonso Peres, o técnico que foi pedreiro e estivador antes de trabalhar no futebol, nasceu em Santos no dia 1º de março de 1922 e morreu aos 50 anos, em 15 de junho de 1972, em São Paulo. O Peixe deve uma grande homenagem a ele.