A balela da luta pela democracia

Vivemos uma ditadura entre meados dos anos 1960 até o início dos 80 do século passado. Começou com o golpe militar, que em 1964 derrubou um presidente legitimamente eleito (na época, os vices tinham votação própria, e foi nessa condição que o deposto João Goulart chegou ao poder, pós renúncia do presidente Jânio Quadros), em movimento semelhante às quarteladas latino-americanas. O golpe, entretanto, só se transformaria em ditadura de fato em dezembro de 1968, com o Ato Institucional número 5. Foi então que os militares tiraram a máscara do regime que impunham ao país, com o apoio de muita gente boa, inclusive a chamada grande mídia.

A penada fechou o Congresso, extinguiu os partidos políticos, controlou o Judiciário, tornou ilegais as instituições que se opunham ao sistema, cassou mandatos e afastou da vida pública os políticos de oposição, além de prender estudantes, intelectuais e sindicalistas. Iniciou-se, também, um período de censura à imprensa, em alguns casos com o censor fazendo plantão nas redações. Tal situação levou parte dos opositores do regime a buscar a resistência armada, enquanto outros acreditavam que, contra todas as restrições, a luta poderia manter-se no campo político. Tudo isso é história. Nem precisaria recontar, mas serve para o paralelo que pretendo estabelecer.

Hoje, ouço e leio pessoas declarando-se na resistência à ditadura e em luta pela democracia no País. Acreditam fazer parte de uma cruzada heroica. Mas a principal arma de que dispõem é um discurso feito de lugares comuns, denúncias vazias e argumentos insustentáveis, posto que baseado em naturais diferenças político-ideológicas. Sua irritação mais profunda volta-se contra a postura de um governo nem sempre coerente com sua plataforma eleitoral (o combate à corrupção parece ter sido esquecido, por exemplo), mas que quase nada difere daquela que o levou a ser preferido por expressiva maioria do eleitorado. A bandeira dos “resistentes” é a derrubada de um presidente eleito de forma legítima, tal como os militares de 1964 fizeram com Jango.

Se o governo foi democraticamente eleito e, dois anos depois, os demais poderes (Legislativo e Judiciário) funcionam em toda a plenitude, por vezes até usurpando atribuições de Executivo, e nenhuma instituição da sociedade civil teve suas atividades encerradas, como falar em ditadura? Pois é, estranha tirania que se permite a todo momento ser desafiada e derrotada no embate político que transcorre normalmente. Verdadeira jabuticaba na cena mundial das ditaduras.

Sem falar no ridículo mantra do genocídio, curiosa é também a queixa de uma intelectualidade contra suposta censura à imprensa e imaginária ausência de liberdade de expressão. Isso é quase uma anedota. Os veículos de comunicação, grandes e pequenos, impressos e eletrônicos, na grande maioria fazem oposição militante ao governo e não sofrem qualquer represália. Jornalistas, artistas e escritores dizem e  assinam o que lhes vai pela cabeça, com total sem cerimônia. Um colunista chegou a escrever e publicar que torce pela morte do presidente da República. O STF, que procura “discursos de ódio” para alimentar seu inconsistente inquérito a respeito, comeu mosca. Não se emocionou com essa explícita demonstração de ira. Deixou para lá.

Então, vamos combinar. Fazer oposição a um governo que não escolheu, tudo bem. Procurar todos os argumentos possíveis para enfraquecer um futuro adversário nas urnas, tudo bem. Faz parte do jogo político. O que não cola é essa pretensa defesa da democracia num país em que todas as instituições funcionam sem sustos. O que não pega bem é reclamar de censura quem pode manifestar-se livremente, alto e bom som, inclusive para de forma inédita (porque exclusiva do nosso país) responsabilizar o presidente por uma epidemia mundial. O que não existe por aqui, e agora, é tentativa de se criar algum tipo de controle social da mídia, ameaça que só foi real nos governos lulopetistas.

E são justamente os apoiadores dessa excrescência e os defensores de ditaduras como as de Cuba e Venezuela os que mais criam fantasmas. É o que fazem para se sentir intrépidos resistentes. Mas no fundo, o que os pobres diabos aspiram é o golpe, quando deveriam estar apenas estar se preparando para disputar com competência o voto dos brasileiros na próxima eleição.

O ano mais vergonhoso da mídia militante

Nos próximos dias, talvez logo depois dos fogos do révèillon, a grande mídia vai comemorar a marca dos 200 mil brasileiros supostamente mortos em consequência da pandemia. Será mais uma grande oportunidade para a imprensa militante chamar presidente da República de genocida e de responsabilizá-lo por um mal que veio de fora, que atingiu todos os países e que em nenhum lugar foi combatido de forma mais efetiva. Nossos sucessos e fracassos foram semelhantes ao que se viu por toda parte.

Nada disso importa para as Organizações Globo e o Grupo Folha. O causador do infortúnio é o presidente. Mesmo que até o mais distraído javanês saiba que, no Brasil, a justiça atribuiu a governadores e prefeitos a responsabilidade pela contenção da covid-19. Ao governo central cabe entregar recursos financeiros para os delírios das autoridades regionais. E, claro, para a velha e boa corrupção.

Sobrou dinheiro para a importação de caríssimos ventiladores pulmonares que não chegaram (ou chegaram com defeito) e para a instalação de hospitais de campanha pouco ou nada utilizados, e logo fechados. Sobrou dinheiro para a abertura de milhares de covas e a compra de caixões funerários, apenas para fazer figuração no Jornal Nacional.

O mesmo papel coube aos caminhões frigoríficos estacionados nos pátios de alguns hospitais, alegadamente para a conservação de cadáveres. Segundo o pânico disseminado pela grande mídia e por um insano ministro da Saúde, não haveria como guardá-los antes do enterro, tantas seriam as mortes. Também este agouro, felizmente, não se cumpriu.

No início do ano, o presidente deu uma declaração a respeito da doença. Disse que no caso dele, por ser um cidadão saudável, a contaminação se manifestaria na forma de uma gripezinha. A declaração está gravada e não dá margem a dúvidas. Bolsonaro falou dele. Mas a grande mídia distorceu a fala presidencial da forma calhorda. O insensível presidente teria minimizado a pandemia.

A Globo, por exemplo, nem se deu conta de que Bolsonaro apenas repetiu, limitada à sua pessoa, e não generalizando, declaração feita antes pelo consultor principal da emissora para questões de saúde. O Dr. Dráuzio Varella sim diminuiu o mal chinês, ao dizer que ele provocaria “resfriadinho”. Também está gravado, para quem quiser conferir.

Há dias, falando da ansiedade geral pela vacina, o presidente afirmou não ligar para as pressões pela liberação sem critério e, acima de tudo, sem a aprovação da Anvisa. De novo, a grande mídia deturpou miseravelmente o discurso. Na telinha e nas páginas dos jornalões, Bolsonaro teria dito que não está nem aí para a aflição das pessoas. Trata-se, como se vê e como se viu ao longo do ano, ou melhor, desde que as urnas de 2018 contrariaram as expectativas da esquerda, do jornalismo mais vergonhoso já praticado no país

Atravessamos a agora chamada primeira onda da crise sanitária com a população aterrorizada pelas orientações dos cientistas engajados (aqueles que sabem exatamente o que precisam dizer para ter seu instante de fama na televisão) e paralisada por medidas autoritárias dos governos regionais. À doença somaram-se desocupação generalizada, fechamento de milhares de empresas e aviltamento da renda das famílias, entre outras mazelas.

Quem teve de socorrer essa população, vítima do desvario de governadores e prefeitos, foi o governo federal. Rapidamente, criou-se um programa emergencial em todos os aspectos superior ao assistencialismo dos governos anteriores. Dessa forma, evitou-se a tragédia maior arquitetada por gente como o governador paulista João Dória, apenas para se opor a Bolsonaro.

Agora, na dita segunda onda da pandemia, voltam o alarmismo da grande mídia e o repeteco de medidas que não funcionaram antes e que hoje são renegadas até pelos patrocinadores da OMS. A reclusão e o isolamento, retifica a organização, são formas equivocadas de proteger a população.

De novo, nenhuma surpresa. As autoridades regionais só estão preocupadas em se cacifar para as próximas eleições, enquanto a grande mídia dedica-se a procurar picuinhas que possam atazanar o presidente, para seguir militando. Pedir que faça jornalismo (o que é isso?) é exigir demais, se atingiu o fundo do poço e hoje serve ao mais sórdido ativismo político.

As flores e os espinhos

Pelé em 1957

Foram imensas as homenagens pela passagem dos 80 anos de vida do Pelé. Um porre gostoso, como os melhores porres. Eu mesmo perpetrei a minha homenagem, neste tãoSantista. E acrescentei a indefectível foto com Pelé 10. Por falar nisso, as fotos brotaram feito maria-sem-vergonha no meu quintal. Deu a impressão de que todo brasileiro foi fotografado ao lado do Rei.

O feito lembra o público declarado daquele Juventus x Santos de 50 anos atrás, na Rua Javari, Mooca, São Paulo. Naquele dia, o Rei marcou o gol que considera o mais bonito da sua carreira. O gol da fieira de chapéus sobre quatro defensores juventinos, entre eles, e derradeiro, o goleiro Mão de Onça. O único registro do lance é a foto histórica de Rafael Dias Herreira, de A Tribuna. O jogo não foi gravado em filme e o VT é posterior.

Entretanto, talvez não seja preciso mais do que o clic do grande fotógrafo santista, tanto quanto foi desnecessária a recriação eletrônica feita pela equipe técnica do filme Pelé Eterno. Pois as imagens do moleque de branco passando como Pantera Negra sobre a zaga grená estão bem vivas na retina e na mente do público extraordinário que teria ultrapassado em pelo menos 100 vezes os quatro mil lugares do velho campo.

Inacreditável? Eu, pelo menos, ainda não encontrei um amante do futebol com idade suficiente que não declare presença na icônica partida. Por isso, faço o cálculo aleatoriamente, como um míssil do nosso Marinho. Assim sendo, trata-se de imbatível recorde mundial, consideradas todas as competições, até finais olímpicas e decisões de mundiais de futebol, passadas e futuras.

Pelé é imbatível até nas lendas criadas em torno dele.

Mas não apenas flores, afagos e aplausos recebeu o Rei em seu aniversário. A data fez ressurgir também a ira que muitos lhe dedicam desde o episódio controverso do não reconhecimento de uma filha. A opinião pública, como sempre manipulada pela parte irrecuperável da mídia nacional, tendeu em parte a ficar ao lado da moça que, décadas depois, decidiu reclamar o amor do pai.

O caso, porém, por todo ângulo que se analise, dos sentimentos humanos ou religiosos à letra fria da lei, não comporta julgamentos finais implacáveis. Possivelmente, há acertos e equívocos dos dois lados. Um amigo que diz conhecer todo o processo assegura que o jogador (para mim, nunca será ex, porque parece estar entrando em campo agorinha mesmo) é o menos errado na história. Confio no Zé Guido, mas admito que possam haver outros entendimentos.

O que não aceito é a condenação moral definitiva, decretada por gente que se diz movida pelo mais genuíno espírito cristão. Nos últimos dias, li execrações inacreditáveis. Pelé seria um péssimo ser humano, indigno do tratamento de ídolo que recebe. Avessas ao espírito cristão de que se dizem possuídas, essas pessoas sentem-se em condição de lançar contra ele não só a primeira, mas dezenas de pedras, com ódio só comparável ao de Jesus expulsando vendilhões do templo.

Da minha parte santista roxo, continuarei agradecido e idolatrando o Rei. Adepto do errar é humano, seguirei gostando do Edson, a quem me igualo na falibilidade e nas faltas graves ou não que cometo todos os dias. Isso não é advogar em causa própria. É sentir a possibilidade de ser um pouco Pelé.

Um dia especial

Perto do fim do ano de 1957, olhando o cais santista da amurada de um navio de passagem para a Europa, o poeta faz um verso casual. “Dizem que Pelé joga muito. Será verdade?” – pergunta o chileno. Pablo Neruda estava a mais ou menos quatro ou cinco quilômetros distante da Vila Belmiro, onde Pelé talvez treinasse com o Santos.

O verso-indagação fazia sentido para o forasteiro chegado do outro lado do continente, da beira do outro oceano. Ele queria saber de um jogador que completara 17 anos por aqueles dias e sequer jogara fora do país. Mas que, meses antes, ainda aos 16, marcara dois gols contra a Argentina e fizera o Brasil ganhar a Copa Rocca, em jogos no Rio e em São Paulo.

O Rei Menino, no templo da Vila Belmiro, em Santos

A molecada do Marapé e adjacências também não conhecia Neruda, nunca ouvira falar, mas sabia que Pelé era o Rei do Futebol. O Marapé, pra quem não sabe, é o bairro-estado que possui um balneário (a praia do José Menino), sua própria cordilheira (que vai do morro de Santa Terezinha ao Monte Serrat da Padroeira) e o Vaticano ou a Meca do futebol, que é a Vila Belmiro. Não há nada igual no mundo.

Territorialmente, o Marapé estende-se, de sul a norte, da Ilha Comprida a Paraty, já ultrapassando a divisa com o Rio de Janeiro. Isso correspondia também aos domínios do Bom Fonseca e da Bela Dolores, cuja união o Peixe e Pelé ajudaram a tornar mais feliz e abençoada. O que pode ser melhor do que nascer em Santos, ter o melhor time do mundo para torcer e um Rei menino para cortejar (como o infante que, décadas antes, o santista José Bonifácio pajeou)? Pois era assim, poeta, que se sentiam os dez fonsequinhas, alguns ainda por nascer! E foi ali que alguém muito poderoso escolheu para depositar tanta bênção.

Nos anos seguintes, Neruda teria as suas respostas. Algumas dadas em sua própria terra, no palco do Estácio Nacional de Santiago do Chile, nos recitais que o Santos de Pelé ofereceu aos chilenos. O estádio que depois serviu de cárcere para os adversário da ditadura militar. Estádio que mais tarde o próprio Peixe exorcizaria, já sem Pelé, ao massacrar por 5 a 0 a seleção de Pinochet, diante do ditador, na comemoração da classificação espúria do país para a Copa do Mundo.

Com um admirador, no Estádio Nacional do Chile

Numa das passagens de Pelé pelo Chile, eu estava junto. Foi no início de 1970, quando o Santos ganhou mais um torneio internacional, meses antes do tri da seleção no México. Na viagem com o maior time de todos os tempos, achei legal o Rei me acolher. Ele disse que eu parecia ter um pé na cozinha. A voz do pastor King ainda se ouvia forte e a negritude estava em alta no mundo, com Ali, Ella, Marley e os Panteras. E aqui, com Cartola, Elza, Simonal, os livros de Machado de Assis e a maioria negra daquele time inesquecível!

Por essas histórias e as outras que você viria a conhecer com mais detalhes, poeta, nunca mais foi necessário perguntar se é verdade que Pelé joga muito. Ele joga mais ainda. Por isso é Rei. Eterno Rei!

Outubro, 17

Hoje esqueço o boné

Com que me cubro.

Pois é outubro

E o verão já se insinua

No céu, na rua.

No ar, até!

 

Apogeu vermelho das pitangas!

 

Outubro do sangue

Rubro, remoto na neve,

Que aqui não ferve.

E lá abunda.

Revés do nosso sol

De alma branda.

 

Revolta amável dos de tanga!

 

De novo outubro.

E se a cabeça ora descubro,

Quisera liberar igual

Os pés das vestes,

Para pisar o mal sem dor,

Subir mil everestes!

 

São Paulo, 17/10/2017

Variações em torno de uma fraude chamada VAR

O que os comentaristas de futebol da grande mídia enchem a boca para chamar de “tecnologia” nada mais é do que o dedo do operador de vídeo na cabine do VAR. Seja ele um técnico ou um juiz treinado para exercer a função. Pois é essa figura quem determina, nos casos de impedimento, por exemplo, a posição da bola, a posição do atacante e o momento exato em que o passe sai do pé do jogador que dá o penúltimo toque. Assim, se o varista antecipar ou retardar o congelamento da imagem, voluntária ou involuntariamente, o lance será ou não invalidado. Com o aplauso dos comentaristas e dos entendidos.

Ou seja, nada há de tecnológico nisso, apenas a mais normal ação de alguém que tanto pode acertar quanto errar. Não há infalibilidade, tanto quanto não havia na alegada prescrição “científica” da Globo e do Mandetta para o combate à pandemia, seguida por prefeitos e governadores. Com mais de 120 mil mortos, não dá para dizer que a estratégia foi bem sucedida. Como não se pode afirmar que o juiz eletrônico veio para eliminar os erros de arbitragem e instituir a justiça no futebol, depois das clamorosas (com licença, mestre Cláudio Carsughi!) manipulações que se verificam, rodada após rodada.

Domingo passado, a vítima do VAR foi o Santos e o beneficiado, mais uma vez, foi o Flamengo. No primeiro gol anulado, mesmo contando com a imagem da câmara lateral, a equipe de juízes eletrônicos demorou cerca de cinco minutos para decretar que o atacante santista tinha um ombro em posição irregular. Una cabeza  seria mais apropriado, mas não. Um ombro. Um frame antes, ele poderia estar em posição legal. Quem pode garantir, tecnologicamente, que a imagem foi parada no momento certo, ou se avançou um pouco mais, até o alegado impedimento? Pois é, nunca se saberá. E nem adianta depois, com base nessa manipulação (no melhor sentido da palavra), vir com linhas traçadas artificialmente sobre a imagem real para provar o que não passa de suposição.

No caso, o mais escandaloso foi o tempo que os três juízes eletrônicos levaram para decidir, em lance tão simples, se havia ou não impedimento, mesmo contando com a filmagem mais elucidativa possível. Por que a demora? O que os levou a vacilar tanto? Que artes fizeram nesse tempo? Ressalte-se que a decisão foi exclusivamente deles, pois o juiz de campo só cumpriu o que lhe foi recomendado: anulou o gol santista e assinalou impedimento. Curioso é que grande parte dos comentaristas considerou essa decisão acertada, por ser mais fácil de julgar. Fácil como, se os caras atrasaram tanto o jogo?

Já no segundo gol santista anulado, há uma confluência de responsabilidades do juiz de campo com os colegas eletrônicos. É claro que o lance foi muito mais complexo, já que era preciso determinar em primeiro lugar o momento exato em que o pé esquerdo de Marinho toca a bola na cobrança da falta. Em segundo lugar, os árbitros deveriam precisar a posição do meia Jobson nesse mesmo instante, se adiantada ou não. Outra necessidade: conferir se o santista tocou ou não a mão na bola. Finalmente, caberia ao juiz de campo decidir se a movimentação de Jobson teria prejudicado o goleiro do Flamengo.

Mais uma vez com o auxílio da “tecnologia digital”, aquela que usa o dedo do operador de vídeo, decidiu-se que Jobson estava adiantado. Mas, com a imagem correndo, viu-se que ele não toca com o braço nem interfere de alguma forma na trajetória dela. O juiz de campo vai, então, conferir tudo na telinha do VAR.

Detalhes. O juiz havia validado o gol, não contestado por nenhum flamenguista. Nem mesmo queixou-se o goleiro, supostamente o prejudicado pela participação passiva de Jobson no lance. O comentarista de arbitragem da Globo (nada me convence de que não haja contato direto entre ele e a cabine eletrônica) tenta encontrar uma saída e dar uma força ao Flamengo. Primeiro, fala do possível impedimento. Depois, vem com a história do braço de Jobson na bola. Finalmente, com a demora do VAR, já não sabe mais o que falar. Para sua salvação, o juiz de campo vai conferir o lance. Anulado o gol, após outros cinco minutos de paralisação, os globais confraternizam. Decisão acertada!

Ao longo do jogo, haveria ainda mais duas participações ou omissões importantes do VAR, sempre a favor do Flamengo. Inicialmente uma falta violenta do rubro-negro Bruno Henrique em Marinho, perto do quarto árbitro, foi ignorada pelos quatro juízes (seria expulsão direta ou no mínimo cartão amarelo para o flamenguista). Mais adiante, o mesmo Marinho ganhou de Gustavo Henrique na velocidade e foi derrubado nas proximidades da área pelo zagueiro. Apontado impedimento do santista, o VAR é acionado para verificar se houve ou não pênalti a favor do Santos. A imagem mostra com clareza que Marinho partiu de posição legal, não havendo impedimento, e foi derrubado por trás pelo zagueiro, fora da área. Não foi pênalti, mas a falta deveria render a Gustavo Henrique o cartão vermelho. O juiz, entretanto, preferiu manter a marcação do impedimento que não existiu.

Ano passado, contra o Cruzeiro no Mineirão, Gustavo Henrique ainda no Santos cometeu infração idêntica aos cinco minutos de jogo. O juiz nada marcou, mas o VAR interferiu e, além de determinar a marcação da falta, levou o juiz a expulsar o zagueiro. A questão principal, assim, nem é discutir a indisfarçável manipulação dos juízes eletrônicos, seus conluios com os árbitros de campo ou a parcialidade dos comentaristas de arbitragem da Globo. A questão é a falta de critério. Tal distorção leva à marcação, por exemplo, dos pênaltis duvidosos que evitaram derrotas do Flamengo, já nos acréscimos do segundo tempo, em jogos sucessivos. E à absurda anulação dos gols santistas na Vila.

A língua que se fala

Você sabe como se chama aquela peça ora branca, ora metálica, ora vermelha ou de outra cor qualquer, com mais ou menos um palmo de comprimento por um palmo de altura, que você liga na tomada (atenção para a voltagem!), encaixa nela duas fatias de pão de forma, regula o termostato e liga deslizando uma chave para baixo? Isso mesmo, aquela que às vezes até assusta com o salto das fatias quando chegam ao ponto desejado.

Sabe mesmo? Pois é! Eu também achava que sabia, ao sair esta manhã para comprar uma dessas geringonças no comércio das proximidades. Meu primeiro engano foi imaginar que peça tão pouco desenvolvida tecnologicamente seria encontrável até na banca do Sílvio, aqui na esquina. O Sílvio, atualmente, vende de tudo, de alimentos e bebidas a cabos para celular, de brinquedos a revistas. Tinha um banco querendo que ele vire salão de beleza, mas parece que a ideia dos espertinhos não colou. Sílvio prefere vender jornal para pet fazer xixi.

É claro que a outrora banca de jornais não tinha o produto que eu procurava. Surpresa foi não encontrá-lo nas três lojas de utilidades em que entrei. No entanto, não é para falar do sumiço de alguns produtos das prateleiras, talvez vitimados pelo covid-19, que alugo a sua atenção. Minha intenção é outra. Quero falar de como as pessoas utilizam nomenclatura própria, com nomes diversos para coisas iguais ou nomes iguais para coisas diversas.

Entrei na primeira loja e fiz o pedido à moça que me atendeu:

– Preciso de uma torradeira. Que opções você tem?

– Claro! Temos uma linha muito interessante de sanduicheiras. Venha comigo.

– Espere! Sanduicheira é aquela maquininha na qual o pão vai deitado? Na que eu preciso, as fatias vão em pé, sem recheio.

– Ah, entendi! Sei qual é. O que o senhor procura é uma tostadeira. Não temos. Está em falta.

Na loja seguinte, já familiarizado com o assunto, fui direto ao ponto.

– Por favor, quero uma tostadeira. Você tem?

– Temos sanduicheiras de algumas marcas muito boas. Venha ver.

– Desculpe, mas eu preciso de uma tostadeira. Aquela com duas fendas em cima, pra gente colocar as fatias de pão de forma e fazer torradas. Você tem?

(Parêntesis para “colocar versus inserir”. Já repararam como no comércio o cartão tem de ser “inserido” nas maquininhas de compra? Colocar é palavrão. Eu, de sacanagem, às vezes pergunto: posso enfiar?)

– O senhor deveria ter dito logo que quer uma torradeira. Essa não temos mais.

Na terceira loja, a moça me explicou que tanto faz dizer torradeira ou tostadeira. Ela entende os dois nomes. É o mesmo produto, mas infelizmente está em falta.

Outra façanha de Giovanni. Ele nos deu Diego e Robinho

Como nossos dias não são apenas de recolhimento, por causa da pandemia, mas também de muita reprise na grade de programação das emissoras de TV, aproveito para repostar uma ficção escrita originalmente para a seção Tesoura Afiada, que mantive no Portal do Santista Roxo, na primeira década deste século. Era o relato de um certo Argemiro da Veiga, oficial de barbearia, salão montado no Macuco, junto ao cais, com base em devaneios do freguês Nicácio Pinto. Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais é, portanto, só coincidência. Neste texto, Nicácio faz uma reverência ao craque Giovanni.

De terça pra cá, Nicácio não apareceu no salão. “Está de molho, com um princípio de gripe”, explicou a Izilda, que veio pegar o jornal emprestado. Por isso, fiquei meio sem assunto e resolvi recordar uma história envolvendo a dispensa do Giovanni, o Messias, do Santos, em 2006. Foi o dia em que o China e o Neves, meus fregueses, quase se pegaram. China ficou a favor da dispensa e o Neves, contra.

O China achava que a decisão tinha sido do Luxemburgo e o Neves culpava o presidente Marcelo Teixeira. O China dizia que o Giovanni nem deveria ter voltado, porque não ganhou nada com o Peixe, e o Neves não se esquecia de 1995, “quando a gente voltou a andar de cabeça erguida, graças a ele”. Enfim, discordaram em tudo, como sempre.

Eu, ouvindo aquele bate-boca, não sabia o que pensar. Uma hora achava que o Neves tinha razão e, na outra, dava a mão à palmatória pro China. Fui de um lado pro outro, que nem público em jogo de tênis. Como uma coisa puxa outra, lembrei de uma discussão quente do China com o Neves, no início de 2003, depois da estreia do Peixe na Libertadores. Aquele jogo em que o Robinho fez o time colombiano de gato e sapato. Com a garotada campeã brasileira, parecia que os anos dourados estavam de volta, para alegria da nossa torcida.

– Quem vivia criticando, dizendo que o Marcelo Teixeira só gosta de contratar medalhões, agora, tem de bater palmas pra ele. O presidente trabalhou em silêncio e o resultado está aí. Libertadores, mundial interclubes, vamos buscar todas as estrelas que Pelé e companhia ficaram devendo – disse o China, antecipando prazeres. Nem era indireta. Ele olhava bem nos olhos do Neves.

– Sai pra lá, China. Esse aí não fez nada. O que ele fez foi gastar o dinheiro que o Santos tinha e o que não tinha, com um monte de jogadores em fim de carreira. Quando a grana acabou, entregou o time ao Leão e rezou. Pra sorte dele e nossa, tinham sobrado o Diego, o Robinho e outros garotos bons de bola descobertos pela diretoria anterior – respondeu o Neves, com o rosto gordo mais vermelho que o normal.

Eu estou reproduzindo só o que me lembro e tirando as partes mais pesadas, porque logo os dois começaram a trocar ofensas. Estavam chegando às vias de fato quando, de repente, ouviu-se a voz do Nicácio, que parecia entretido com a leitura da Tribuna.

– Vocês dois estão falando bobagem. Se existe um grande responsável pelo aparecimento desses meninos, esse alguém é o Giovanni. É, o Giovanni, que fez aquela coisa ridícula de pintar o cabelo de vermelho, mas jogava muita bola.

Com o salão em silêncio, o velho continuou:

– O Marcelo nunca deu bola pras divisões de base. Tanto que desmontou o trabalho iniciado pelo Samir e pelo Pelé. O que ele queria era ganhar um título com jogadores de nome, como o pai dele fez em 1984.

– Robinho e Diego só puderam surgir no Santos por causa da construção do centro de treinamento ali do lado da Santa Casa. É claro que foram o Pelé e o Samir que construíram o CT. Mas com que dinheiro? Com o dinheiro da venda do Giovanni para o Barcelona.

Nesse momento, o velho já caminhava em direção à porta do salão. Antes de sair, porém, voltou-se de novo para o China.

– Em vez de ficar aí batendo boca, vocês deviam mais é agradecer ao Giovanni.

Negócios da bola (fim)

Tentativa de roteiro “baseado em fatos reais”, para série de TV. Os fatos que se seguem, datados de décadas atrás, envolvem um time de futebol e pessoas já mortas, cujos nomes foram modificados. Testemunhas ouvidas pelo autor narraram estas histórias, que nada são mais do que pura ficção e galhofa.

 Temporada 1, episódio 3

Saguão do aeroporto de uma capital do sul do país. Fininho, auxiliar técnico de Paco no comando do time de futebol, caminha de um lado para outro. Parece desorientado, enquanto espera pela chamada do voo que o levará de volta. Desorientado a ponto de, frustrada a primeira parte da missão, decidir voltar sem cumprir a segunda.

Dois dias antes.

Enquanto observam o treino coletivo dos titulares contra os reservas, Paco e Fininho conversam ao lado do campo. Paco fala ao assistente:

– Sabe aquele meia do time da fronteira, que a gente gostou? Pois é! Eles vão jogar domingo. Quero que você vá lá observar. Vê se vale a pena comprar.

– Claro, chefe! O cara parece ser muito bom. Aproveito e dou uma olhada no goleirinho, também.

– Ah, mas tem uma coisa que eu preciso que você faça pra mim.

– O quê? É só mandar.

– Lembra da nossa última viagem ao exterior? De lá de fora eu despachei um baú com algumas coisinhas. Pensei que ia pegar aqui, com o nosso pessoal da alfândega. Só que o avião fez escala no Sul e lá ficaram as bagagens desacompanhadas.

– Deu ruim, chefe?

– É, atrapalhou. Mas, tudo bem, vamos resolver isso. Falei com um amigo lá. Você chega no aeroporto, procura por ele, mostra este recibo e ele te ajuda a desembaraçar o baú. Na volta, uma perua do clube vai te buscar. Feito?

Dois dias depois.

Apesar do cansaço e do nervosismo, Fininho evita ficar parado. Olha para todos os lados para ver se alguém se aproxima. Sai do saguão e vai pro estacionamento em frente. Volta. Entra e sai do banheiro. Caminha de um lado ao outro do corredor dos balcões das companhias aéreas. Aguarda ansioso a chamada para embarque.

Só se acalma quando o avião começa a levantar voo. Mourão, o contato do Paco na alfândega do Sul, foi muito claro quando procurado. Disse que avisou o treinador para deixar a poeira baixar, porque o conteúdo do baú chamou a atenção do pessoal da Receita. Já tinham calculado a multa e estavam loucos para pegar o espertalhão que fosse buscar a muamba. Seria pagar ou passar alguns dias na cela da PF, ali mesmo.

– Se manda, porra. Não estou entendendo este encontro. O Paco ficou louco de te mandar aqui. Vaza. Pega o avião de volta. Se te pegarem, não diz que me conhece. Tchau, adeus…

A 10 mil metros de altura, Fininho só pensa em vingança. Filho da puta! Sabia no que estava me metendo e nem ligou. Paco filho da puta!