Pelé, 78 anos

Um momento mágico do Rei, que na época os locutores preferiam chamar de Fera

O atarracado lateral esquerdo do Botafogo do Rio calcula o longo arco que a bola lançada pelo goleiro do seu time começa a descrever na sua direção. Prepara-se para recebê-la com elegância no peito e deixá-la cair com graça na grama, antes de acionar o pé esquerdo e iniciar o avanço.

Já pressente os aplausos, quando, de rabo de olho, vê a Fera com o temível uniforme branco do Peixe iniciar a corrida. O perigo está distante, ainda, uns 30 metros, mas convém mudar os planos. Melhor deixar a bola dar um primeiro pique no chão e chegar amortecida.

Por isso, recua na diagonal do campo na direção da linha lateral, enquanto a bola continua sua viagem. Há espaço suficiente para a marcha a ré e tempo de sobra para checar a aproximação do inimigo. Descartada a matada no peito, continuam valendo as demais manobras.

Dará o primeiro toque com o lado interno do pé esquerdo e, em seguida, virá a rápida puxada com o lado externo, aproveitando a rotação do corpo para a frente.

Pronto. Subjugada a bola, ele terá diante de si todas as possibilidades. Pode ser uma tabela com o companheiro mais próximo ou um lançamento longo até a área inimiga. A torcida vai gostar de qualquer forma. Pode até sair um gol.

Mudança de planos. É preciso recuar ainda mais, porque o primeiro pique não foi suficiente para garantir o controle seguro da bola e o demônio agora parece perto demais.

Melhor esquecer os aplausos, adiar o projeto de gol, simplificar as coisas. Ganhar mais espaço, deixar que as leis da física amansem naturalmente essa outra ameaça redonda.

A nova ideia é bater chapado na bola e mandá-la de volta ao goleiro, afinal um dos dois responsáveis por aquela situação incômoda. O outro é esse diabo negro que vem decidido a lhe complicar a vida. Danem-se as vaias, será melhor assim.

Nem isso, porém. Em pânico, o botafoguense perde a noção dos limites do campo. Ultrapassa a linha, desequilibra-se e cai sentado na grama. As pernas abertas são como o ninho que a bola escolhe para se aquietar.

O drama que as arquibancadas acompanharam apreensivas vira comédia. O Maracanã explode em gargalhada.

No mesmo time

Recebi um vídeo da querida Nair Suzuki, na semana passada. É um discurso do ex-presidente Barack Obama sobre eleição e democracia. Ele comenta o resultado da disputa presidencial norte-americana, no contexto da derrota de Hillary Clinton para Donald Trump. O momento era constrangedor para os democratas e penoso para o presidente, que não conseguiu fazer a sucessora. Obama estava sereno, porém.

São menos de dois minutos, que cabem todinhos no atual momento, no nosso contexto e nas circunstâncias em que transcorre a eleição brasileira. Há pelo menos duas passagens marcantes. Na primeira, Obama diz que, se derrotados, devemos seguir em frente, “com a presunção de boa fé em nosso povo”. Tal presunção, garante, é essencial para o funcionamento da democracia.

Por aqui, à direita e à esquerda, temos o hábito de culpar o eleitor – ou seja, o povo – por escolhas que julgamos erradas. Às vezes, lamentam os destros, são os nordestinos, pobres e pouco instruídos, que erram induzidos por gente que só tem olhos para as benesses do poder, os cargos nas estatais, as vantagens da Lei Rouanet. Outras vezes, vomitam os canhotos, é a classe média tonta que cai na conversa mole das elites econômicas, e vota em políticos interessados em perpetuar privilégios, a favor dos ricos e contra os pobres.

Na cabeça dos perdedores, de um lado e de outro, é impenetrável a ideia de que existe alguma sinceridade a orientar o voto popular e a dirigir o resultado das urnas. Os que se julgam perfilados com o “bem” acham inacreditável o eleitor preferir representantes do “mal”, naturalmente os seus adversários.

Nossos queridos derrotados nem temem o ridículo, quando difundem explicações para seus fracassos. A terceirização da culpa de forma recorrente aponta para o inocente cidadão, que apenas exerceu seu direito inalienável de escolher.

Essa imbecilidade quase sempre vem acompanhada de denúncias de fraude eleitoral e de queixas de golpe contra as instituições. Inconformismo total, a partir do qual decorrem incompreensão, preconceito, raiva e ódio, muito ódio, para despejar em conversas de botequim, posts, textos para a mídia, teses acadêmicas, discursos inflamados nas tribunas dos parlamentos.

É que essa gente, além do mais, descrê dos benefícios da alternância no poder. Um dirigente tucano chegou a prever, após a primeira eleição de FHC, uma permanência mínima de 24 anos (se bem me lembro) do PSDB no Palácio do Planalto. O reinado, porém, durou um terço do previsto. Já os sucessores petistas fizeram projeções ainda mais duradouras. Puseram fé, e talvez ainda ponham, na eternidade. O sonho acabou com Dilma, e Lula foi parar na cadeia.

Pessoalmente, desde minha primeira experiência de escolher um presidente, tenho alternado alegrias e decepções, sem deixar de acreditar que o voto é o grande instrumento da democracia. Quando Collor foi eleito, para desgosto de quem “oPTou” pelo “Lula-lá”, não senti na ressaca a sensação de fim de mundo. E achei o impeachment precipitado, por entender que errar faz parte do aprendizado do eleitor, tanto quando sofrer as consequências até o fim.

Hoje, não pressinto igualmente o fim do mundo, embora me sinta em situação ainda pior do que aquela de trinta anos atrás. Naquela eleição, opunham-se também dois polos, mas eu tinha uma esperança, quase certeza, de que existia um lado melhor para o País. Agora, não. As alternativas que restaram são igualmente funestas, pelo que representam de retrocesso no rumo do totalitarismo.

Uma opção remete ao passado tirânico e cruel, feito de sangue e da supressão dos direitos e garantias individuais. Além do que, pela carência de projeto do seu candidato, alimenta suspeitas sérias de ameaçar a democracia.

A outra conduz a um tempo que mal passou, e continua oprimindo os brasileiros com suas maléficas consequências sociais, políticas e econômicas. Obra das  malas artes de uma facção determinada a não apenas recuperar o governo, mas a tomar o poder absoluto, no dizer de um de seus próceres. Não existe golpe mais anunciado.

É aí que entra o segundo trecho notável do discurso de Obama. No fim do vídeo, comparando a disputa político-eleitoral a uma corrida de revezamento, na qual se ganha e se perde, ele ensina: “Você pega o bastão e corre o melhor que puder, com a esperança de que, quando for a hora de passar o bastão, você esteja um pouco à frente, você teve progresso. Eu posso dizer que nós fizemos isso. Eu quero garantir que a passagem do bastão seja bem executada, porque acima de tudo estamos todos no mesmo time”.

Estamos todos no mesmo time. Por aqui, qualquer que seja o resultado das urnas do próximo domingo, vencedores e derrotados, nosso melhor destino será continuar correndo na mesma direção. Persistir na busca dos objetivos comuns de povo e nação. Seguir defendendo as mesmas cores.

Passarinhos

O lagarto cinza com manchas amarelas desce rebolando o caminho de terra. Tem cerca de 80 centímetros de comprimento e é um tanto gordo. De repente, para, observa o pequeno barranco coberto de heras e fareja o alimento. Começa a caminhar para lá, quando a passarinha sai das folhagens e pousa, primeiro à direita do bicho de língua comprida. O lagarto vira-se e a passarinha, ligeira, faz um curto voo sobre ele, indo parar do outro lado. Começa a dança. O lagarto olha para a esquerda e a passarinha vai para a direita. O lagarto é lento e a passarinha, ágil. Ficam assim por alguns minutos, até que o lagarto desiste do almoço e retorna pelo mesmo caminho. Missão cumprida! A passarinha volta ao ninho e aos ovinhos.

O passarinho marrom está petrificado, bem no meio da calçada. O homem se aproxima conduzindo dois cachorrinhos, que passam um de cada lado, indiferentes à figura paralisada. Será uma pedra? Uma folha ressecada? Cocô de cachorro grande? Nada que interesse. Aliviado, o bichinho volta às suas tentativas de alcançar as plantas do outro lado do muro, sem perceber que a parte de cima é vidro grosso. Só por isso ele vê aquele verde, que o atrai. O pobre voa, bate e cai de volta. Mas não desiste. Vê ali um refúgio mais seguro do que a calçada. O homem percebe o drama. Recolhe o passarinho e o deposita num galho da pitangueira plantada junto ao meio-fio. Dali, os horizontes serão mais amplos, e o bichinho poderá voar para onde quiser

Primavera / Psicose

Escrevi os versos abaixo em 1962, aos 12 para 13 anos, quando fazia o ginasial no seminário dos padres paulinos, no quilômetro 17,5 da Rodovia Raposo Tavares. O professor de português gostou e disse que mostrou pra mulher, que também gostou. Dei o nome de Primavera, mas depois, quando voltei para Santos, meu irmão Albano disse que Psicose era melhor. E assim foi feito.

E na manhã primaveril do campo,
A flor mais linda dos jardins do mundo
Surgiu-me a mim envolta pelo manto
Do fino orvalho de um amor profundo.

E nela eu descobri tanta beleza,
Toda beleza, o esplendor da vida,
Que o coração tomado de tristeza,
Temi perdê-la, a minha flor querida.

Enlouquecido a destalei do galho.
Assassinada, mas só minha.
E pura

E a derradeira lágrima de orvalho
Rolou-me pela mão que a tem.
Segura

Vlado, 43 anos – Parte II

(continuação)

Terminado o jornal da noite da TV Cultura, na sexta-feira, Vlado despediu-se procurando tranquilizar os companheiros de trabalho: amanhã vou lá, esclareço as coisas e tudo se resolve. Seu único cuidado foi aceitar a companhia do repórter Paulo Nunes, que cobria a área militar para a emissora. Ao chegar em casa, conseguiu acalmar também a mulher, dissuadindo-a de acompanhá-lo na manhã seguinte. Vlado tinha conhecimento da prisão de vários jornalistas nos dias anteriores, conhecia a maioria deles e sabia que seu nome havia sido citado nos interrogatórios, mediante tortura.

Mesmo assim, é pouco provável que se imaginasse seguindo para a morte. Afinal, ocupava alto cargo numa organização estatal, subordinada a um governador (Paulo Egydio Martins) nomeado diretamente pelo general que ocupava o cargo de presidente da República (Ernesto Geisel). Além disso, naquele Brasil ninguém virava síndico de prédio sem que sua folha corrida fosse submetida aos órgãos de informação do governo militar. O nome de Vlado havia sido aprovada pelo SNI. Ninguém se atreveria a maltratá-lo numa dependência oficial do II Exército. Não seria bem assim.

Sérgio Gomes da Silva, o Serjão, aos 25 anos de idade, caiu vinte dias antes, no amanhecer de 5 de outubro, no Largo do Machado, Rio de Janeiro. Tinha acabado de chegar à cidade, depois de viajar a noite inteira de ônibus, e começou a apanhar lá mesmo, na Cidade Maravilhosa. A tortura continuou na viagem de volta a São Paulo e prosseguiu no DOI-CODI, até o dia 28, quando foram liberados todos os jornalistas que continuavam presos. Durante seu depoimento, três anos mais tarde, “todo o tribunal está paralisado, estarrecido, ouvindo o relato daquele jovem que sobreviveu”, conforme nos conta o “Dossiê Herzog – Prisão, tortura e morte no Brasil”, de Fernando Pacheco Jordão.

O procurador da República tenta interromper, alegando que a testemunha fala de sua própria situação, de fatos que nada têm a ver com o processo. Exaltado, o advogado Sérgio Bermudes responde: “É importante, sim, Excelência! É relevante, sim! Porque a testemunha está narrando fatos que demonstram como se tortura, como se mata neste país!”. O juiz João Gomes Martins, que conduz o processo, mas que será impedido de dar a sentença, continua a inquirição de Serjão: “O senhor pode descrever como era esse ‘trono do dragão’?”. “‘Cadeira do dragão’, Excelência”, corrige a testemunha, antes de prosseguir com a narração das atrocidades sofridas.

“… eu tinha de lutar em duas frentes, contra os comunistas e contra os que combatiam os comunistas. Essa é que é a verdade. Eu sabia que a ação do (general) Frota era exagerada, excessiva. Mas não era só o Frota, era sempre o grupo da linha dura”. É o general Ernesto Geisel, quarto presidente do ciclo militar iniciado em 1964, falando a Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas, numa longa entrevista concedida em diversas sessões entre 1993 e 1994. O resultado foi publicado em livro (Ernesto Geisel, Editora FGV, 1997) e não deixa dúvidas: o general falava em distensão lenta e gradual, mas admite que passou os cinco anos no poder tentando manter as Forças Armadas e o regime sob controle.

Vlado foi preso em meio ao conflito entre o grupo castelista e a chamada “linha dura” do Exército, personificada pelo ministro Sylvio Frota, afinal demitido em 1977. De qualquer forma, Geisel teve de colocar outro linha dura no cargo, o general Bethlem. Na entrevista de Geisel, o período que resulta em centenas de prisões e dezenas de mortes dentro dos aparelhos repressivos ocupa apenas 18 das quase 500 páginas do livro. O capítulo tem o título de Problemas com a linha dura.

Nesse contexto, Vlado vira um caso menor, quando os entrevistadores perguntam se ele aceitou o resultado do inquérito: “É preciso ver o seguinte: o presidente da República não pode passar os dias, ou as semanas, com um probleminha desses. É um probleminha em relação ao conjunto de problemas que ele tem”.

(continua)

Vlado, 43 anos – Parte I

Este texto foi preparado originalmente para a Revista Cult. É republicado aqui com pequenas correções, dividido em três partes, até a semana de 25 de outubro, quando se completam 43 anos do assassinato do jornalista.

Nunca se saberá o quanto de fatalidade concorreu para o desfecho. Nem se, ao contrário, era esse o resultado esperado pelos algozes e seus chefes. Erro de dose ou risco mal calculado? O certo é que naqueles dias de outubro de 1975 a luta que se travava no interior do regime militar encaminhava-se para o ponto de não retorno. O monstro da barbárie, em confronto com seus criadores, tratava de mostrar serviço, num recado para dentro do sistema: ainda havia serviço a fazer.

A resistência armada estava morta e enterrada nas covas do Araguaia e de Perus, ou em alto mar, mas para os zelosos defensores da exceção e do arbítrio, restava o inimigo escondido na defesa das liberdades democráticas e dos direitos e garantias individuais. Tão insidioso, reclamavam, que se infiltrava pelo alto comando das Forças Armadas e chegava à própria cúpula do governo. Manifestos apócrifos circulavam nos quartéis e davam nomes aos bois: Geisel e seu ideólogo Golbery. Era nessa direção que eles agora atiravam. Por isso, as celas cheias e o trabalho incessante no porão.

“Eles chegavam à noite”, contou D. Paulo Evaristo, em entrevista à CULT. E chegavam de preferência no fim da semana, como no cair da tarde da sexta-feira, 24 de outubro de 1975. Dois homens batem na casa da família Herzog, à procura de Vladimir Herzog. “Vlado está na TV”, informa a mulher do jornalista. Os dois homens respondem que seguirão para lá e deixam Clarice preocupada. Ela coloca os dois filhos pequenos no carro e também segue para a TV Cultura, onde o marido trabalhava há menos de dois meses, como diretor de jornalismo.

Free lance para o Vlado? Estranho. Todos sabem que ele não faz e nem tem tempo de pegar serviços extras. Foi isso o que os homens disseram e foi nisso que ela pensou no trajeto até a tevê. Mas a desculpa não foi mantida. Diante do jornalista, os homens anunciam o motivo da visita. Vlado terá de acompanhá-los ao DOI-CODI do II Exército. Estabelece-se uma negociação, com a participação de colegas de redação e da direção da emissora. Fica combinado que a apresentação se dará na manhã seguinte, espontânea, bem cedo.

O juiz federal Márcio José de Moraes tinha 30 anos de idade quando descobriu que havia tortura e morte no Brasil do regime militar. Estava no escritório de advocacia em que trabalhava na época, quando tomou conhecimento pelo jornal da morte do jornalista Vladimir Herzog. Formado pela USP em 1968, ano em que a ditadura baixou o Ato Institucional número 5, ele passou sete anos relutando em acreditar que aquilo acontecesse no País.

“Eu ainda admitia que pudesse haver perseguição política. Mas, na verdade, a tortura e a morte eram coisas que eu tinha dificuldade em acreditar”, lembra Moraes, em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo. A revelação foi fulminante. “Eu realmente fiquei chocadíssimo. Não só pela notícia em si. Mas porque ficou absolutamente claro para mim que, na verdade, ele morreu torturado.”

Na sexta-feira seguinte, 31 de outubro, Moraes era uma das 8 mil pessoas que foram à Praça da Sé participar do culto ecumênico em memória do jornalista assassinado. Ainda receoso, conforme admitiu ao jornal, preferiu ficar meio de lado, perto de uma pastelaria. “Se a cavalaria da Polícia Militar invadir a praça da Sé, como se noticiava, eu me ponho aqui dentro da pastelaria e como um pastel.”

Precisamente três anos depois, em outubro de 1978, Moraes deu a sentença do caso Herzog. Responsabilizou o Estado brasileiro. Já não era o advogado assustado, mas um juiz determinado.

(Continua)