Imagem de uma infância

 

Braz Cubas

Eram três pequenas salas de aula, ligadas por uma varanda aberta para o tempo, sol e chuva, que terminava em outras duas salas: a da diretoria e a dos professores. A esquerda, nos fundos do terreno, havia um galpão e provavelmente uma cozinha, na qual se preparavam as merendas: frutas, talvez alguma bolacha e um copo de leite.

No espaço da frente fazíamos nossa algazarra antes do início das aulas. Havia ali um mastro com a bandeira brasileira, diante da qual nos perfilávamos nas datas festivas da Pátria para cantar o Hino Nacional. No dia 19 de novembro, cantávamos o Hino à Bandeira: “Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo augusto da paz…” Sou Augusto, e me ligava nesse verso.

Nélson, o quinto da nossa fila, um ano depois de mim (as noites santistas eram quentes, e o casal não sossegava), lembra de ter plantado uma árvore no que virou um piso de cimento. “Ali também recitei um verso e perdi todas as bolinhas de gude que o Horácio ganhava da turma dele e me passava quando nos encontramos na troca de horário das aulas. Eu também perdia as figurinhas que ele ganhava no jogo de abafa.” Parece que o Nélson fala de mim, eu igualmente perdedor de bolinhas e figurinhas.

Minha professora do primeiro ano chamava-se Iolanda. Iolanda Paulilo, acrescenta Sílvio, o sexto da turma, também aluno dela. Era bonita, elegante e bondosa. A diretora da escola, Dona Geny, tinha um enteado padre da congregação dos paulinos, o padre Bernardo. Foi dona Geny quem nos encaminhou, o Nélson e eu, para o seminário da Rodovia Raposo Tavares, após conversar comigo no dia seguinte à morte do Papa Pio XII.

Antes, Dona Geny já havia encaminhado o Luiz Antônio, filho da merendeira da escola. Mãe e filho moravam na nossa rua. Luiz Antônio, como Nélson e eu, não concluiu a formação sacerdotal: virou diplomata de carreira. Outra funcionária morava ao lado da escola e era mãe do meu colega de classe Roberto Vilarrúbia. O pai do Roberto trabalhava no Cine Marapé e permitia o nosso acesso gratuito às sessões por uma entrada lateral. Nesse cinema, uma noite, o pai e a mãe assistiram a “Quo vadis”. Ou foi “Ben Hur”?

Seis dos dez filhos vivos da Bela Dolores e do Bom Fonseca fizeram o primário no Grupo Escolar Braz Cubas. Canal 1, avenida Pinheiro Machado, divisa do bairro do Marapé com o Campo Grande. Quase ao lado ficava o cine Marapé, hoje um supermercado. Mais adiante, na mesma quadra, estava o imponente GE Olavo Bilac. À noite, no mesmo prédio, na esquina da Carvalho de Mendonça, funcionava o Instituto Municipal de Comércio de Santos, que me deu o diploma de auxiliar de contabilidade, anos mais tarde.

Os seis da geração Braz Cubas no chalé do Marapé

Albano, o segundo na linha da sucessão familiar, depois do Ouhydes, ou Zinho na intimidade da família, defende que as ruínas do Braz Cubas sejam tombadas. “Eu gostaria que fossem deixadas exatamente como estão, um marco, uma memória. Sempre que passo por ali sinto uma grande emoção, muitas vezes paro e olho de longe, às vezes espio por entre as frinchas. Depois que o colégio mudou para unidade de 2º grau, e de lugar, foi usado por negócios como construção civil, escola particular, academia de ginástica. Cada vez que eu passava por lá e via a escola abandonada, preparava o coração, antecipava a demolição. E a cada vez, lá estava ela, um pouco mais dilapidada, como a me dizer que enquanto ela estivesse por ali eu também estaria por este mundo, mais velho, mais arruinado.”

“Mesmo assim, a ternura retorna, ainda que mais dorida ou nostálgica” – continua Albano. “Tanto a ver com tudo, como o primeiro dia de aulas, levado pelo Zinho. Passei quatro anos lá, de 1951 a 1954, com um interregno de alguns meses em 1953, quando mudamos para o Beiramar, em São Vicente. Fui transferido para o Matteo Bei e depois de volta ao velho Braz Cubas. Faz uns 20 anos que está exatamente do mesmo modo. Viverá para sempre!”

Pelo menos uma de nossas cunhadas fez o primeiro ano lá, a Eliane, casada com o Horácio. Os quatro mais novos – Márcio, Paulo, Marisa e Tonho – percorreram o “Caminho suave” no Visconde de São Leopoldo, da Rua João Guerra, depois que deixamos o Marapé e fomos morar três canais adiante, em direção ao porto. Ficamos bem perto do Instituto Adolfo Lutz, a repartição em que o pai trabalhou como servente, junto ao Centro de Saúde de Santos. Cercada de armazéns de café, era uma região digamos mais urbana do que nosso antigo bairro no pé do morro, então com ruas de terra, mal iluminadas à noite.

Publicado por

Marcão

Jornalista aposentado, casado, duas filhas, um neto, dois poodles e nove irmãos. Santista de mãe, pai, cidade, time e o que mais bem qualifique essa condição. Sem vaidade, só verdade!

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