Dupla ratoeira

Domingo, vou votar no Geraldo, 45, sem culpa. Será um voto convicto e coerente. Pois não me sinto nem me sentirei responsável pela ratoeira dupla face que se está armando para o segundo turno da eleição presidencial.

De um lado, a “esquerda” utilitária, comandada de dentro da cadeia por um bi condenado. Preso por corrupção, inclusive. De outro, o representante escarrado do mais absurdo obscurantismo e dos tristes tempos da tortura. Horror!

Se durante a ditadura militar fiquei do lado contrário, numa resistência que nada teve de heroica, esclareça-se, por que iria agora apoiar aquela gente estúpida, que cultiva o mesmo sonho de Dirceu. de tomar o poder de assalto? É claro que não colocarei a minha mão nessa cumbuca de podridão e de sangue!

Pela primeira vez desde que me permitiram eleger presidente, e confirmada a polarização tenebrosa que as pesquisas indicam, estarei também diante de três opções: anular o voto, votar em branco ou simplesmente adotar a “abstinência”, como disse uma comentarista da TV.

Para isso, peço ajuda aos universitários. Qual dessas saídas é a menos vergonhosa do ponto de vista da cidadania? Anular, ir de NDA ou me abster?

Sem esperar respostas, penso que vergonha maior seria escolher uma das faces do mesmo autoritarismo predador: o petismo-lulismo corrupto ou o milico-policial sanguinário. É a tal ratoeira com armadilha nas duas pontas.

Negação do humor, sublimação do ódio

As campanhas petistas já foram criativas e divertidas. Desde o oPTei do início das lutas do partido e o inesquecível “Lula, lá”, que não levou mas empolgou o país, o humor sempre esteve presente, atenuando a carranca do seu líder. OK, aquilo não ganhava mesmo eleição, tanto que Lula perdeu três em seguida, mas sugeria um novo jeito de fazer política.

Eram os tempos de Carlito Maia (que tanta falta faz) e da participação espontânea da militância, capaz de criar a estrela vermelha num guardanapo de mesa de bar molhado de cerveja. Mesmo o “Lulinha, paz e amor”, forçado pelo marketing profissional, deu para engolir como instrumento de disputa eleitoral. Mas, a seguir, a coisa desandou, nos desatinos do confronto PT-PSDB.

Este ano, atingiu o estado da arte da maledicência. A campanha do primeiro turno foi toda baseada na negação e na destruição dos adversários. Estes também atacam e maldizem o candidato petista? Sim, claro, mas quem costuma queixar-se do ódio, que só enxergam do outro lado, são justamente os que agora não apresentam um argumento a favor do próprio candidato. Nem as ideias próprias que eventualmente ele possa ter. “Elenão”, gritam, sem dar pista de quem seria o “elesim”.

É também curiosa a falta seletiva de inspiração dos humoristas da mídia, sempre tão ativos e engajados. Nem a possibilidade (sur)real de o país ser governado de dentro da cela de um presidiário, condenado em duas instâncias por corrupção, instiga a veia criadora dessa gente. Colunistas, chargistas e artistas preferem seguir requentando piadas sobre Bolsonaro, Cyro, Alckmin e Marina. Do mesmo modo, ignoram o papel ridículo desempenhado por Haddad, com aquele Lula pregado no peito (o boneco não consegue renegar sua voz?) e as visitas regulares à PF de Curitiba.

Ao autorizar a Folha a ouvir o líder petista na cadeia, Lewandowsky tentou dar mais o espaço para a participação do presidiário, condenado em duas instâncias, na atual campanha presidencial. A Justiça foi salva dessa afronta pela ação rápida do ministro Fux, que suspendeu a decisão do colega, em ação movida pelo Partido Novo.

Entretanto, o PT continuará devendo ao ministro do STF pelo menos a eleição de uma senadora. Pois foi ele quem preparou a pizza de jabuticaba que, no processo do impeachment da Dilma, permitiu à ex-presidente, mesmo condenada, manter os direitos políticos e, agora, a possibilidade da candidatura.