Para ler de novo: Na guerra insana, vale qualquer aliado

Este texto foi publicado no blog no dia 3 de abril, após o início das medidas de confinamento determinadas em função da covid-19. Repito agora, com pequenos ajustes, porque continua valendo.

Tempos malucos, estes. Em meio à mais profunda incerteza sobre o que será de nós ou, no mínimo, sobre como ficará o mundo pós pandemia, os insensatos continuam em guerra, para manter nacos de poder ou ganhar importância. Acham-se imunes? Ou preparam a inscrição para as próprias lápides: “Foi em vão, mas lutei até o fim para me dar bem!”.

Deve acontecer no mundo todo, porque Deus não há de ter reservado tanta cretinice como atributo único e exclusivo de nossos governantes, políticos e formadores de opinião. De governantes e políticos, na verdade, desde muito tempo, e ainda mais hoje, além dos 70, nunca esperei mais e melhor. É o padrão deles. Nem dá para reclamar, porque fomos nós que colocamos os calhordas onde estão. Insistimos em dar razão ao Rei. Falo de Pelé.

O que me incomoda e envergonha é a atitude da grande mídia. Um querido amigo, o qual não viveu para ver esse pan…demônio, diferenciava mídia e imprensa. Para Osvaldo Martins, mídia é um negócio e imprensa, uma atividade voltada à informação, bem dos cidadãos, o que insere o jornalismo entre os direitos e liberdades fundamentais. É bom que grandes grupos de comunicação sejam ao mesmo tempo mídia e imprensa, porque fazer jornalismo correto é caro e exige competência empresarial. Basta saber separar as coisas. Mas, com exceções, o que temos hoje é só mídia.

Outro dia lembrei da minha introdução na profissão. Foca, fui encarregado de encontrar mazelas na cidade, para bater no interventor militar. Até que o general de plantão fez acordo com o jornal e tirou o bode da sala. Também exemplares desse comportamento “desinteressado” da nossa mídia são um histórico jornal carioca, já extinto, e aquela que foi durante décadas nossa maior revista semanal de informação.

Os saltos triplos carpados que essas publicações davam na relação com os governos eram nada menos que espetaculares, medalhas de ouro. Aos leitores só cabia ficar de boca aberta e, de vez em quando, soltar um expressivo “uau!”. Consta que tais malabarismo cessavam quando jornal e revista, em épocas distintas, voltavam a ocupar lugar top na publicidade federal.

Raras vezes presenciei conflitos da mídia com a autoridade maior do país motivados por questões republicanas. Lembro como exceções a postura do Estadão, com seu irmão caçula Jornal da Tarde, durante o regime militar. Veja foi outra que enfrentou a ditadura com altivez, além da imprensa digamos nanica e a alternativa. Houve certamente outras resistências importantes, que cometo a descortesia de não mencionar, por lapso de memória.

Mas a maioria aderiu, entre eles um jornal hoje tão ativo no confronto com o governo legitimamente eleito. Na época brava, nem opinião tinha. Considerava mais prudente não dar palpite e expor o que pensava. Há quem diga que o grupo chegou a colaborar com o regime militar. Eu não chego a tanto, mas também não confio na sua postura atual.

É no jornalismo da Rede Globo, no entanto, que o pior desse mundo se encontra e ecoa. Há tempos, sabe-se que a empresa não vai bem das pernas. São de domínio público os enxugamentos na programação e no quadro de pessoal, incluindo o estrelado elenco das novelas. Com a situação deixada pelo governo Dilma, escassearam os recursos federais, antes tão generosos, e reduziu-se o investimento privado em mídia.

Com a entrada em cena de Bolsonaro, começou o jogo do bate e assopra, mas os resultados não foram os esperados. O outro lado manteve-se inflexível. Daí o endurecimento da oposição ao governo, nos telejornais do grupo e nas suas publicações impressas. Na TV, a pancadaria é inacreditável. Fora de propósito, em tom bem acima das latas que infla, desproporcional e indecente.

O comportamento é tão indecoroso que notícias boas, ou pelo menos neutras, são atribuídas a um governo impessoal. Já as más notícias, verdadeiras ou forçadas, têm nome e sobrenome: os do presidente desafeto. Alguém pode dizer “bem feito pra ele!”, não sem razão. Mas e desse tipo de “jornalismo” o que se pode falar? Eu digo que não engrandece a profissão que tanta gente dignificou. Muito ao contrário.

Nos tempos da Praça Marechal Deodoro, gloriosos anos 1980, ativistas sociais ligavam para a redação e pediam cobertura para manifestações que estavam sendo organizadas. Quando o produtor pedia detalhes como data, horário e local, as pessoas respondiam: onde e quando for melhor pra vocês. “A Globo vai cobrir, ?” Pois é! Hoje, a técnica foi aprimorada por instituições e gente de alto bombordo. Até o mais tosco assessor de imprensa sabe que, para entrar na Globo, o cliente precisa ter o discurso da emissora. Daí vermos toda noite, no JN, os mesmos “especialistas” dizendo ao governo “o que fazer”.

Dependendo do grau de afinidade, o interessado pode até virar “comentarista” fixo na grade “jornalística” da Zorra Total. É o caso do presidente da Câmara, conhecido por “Botafogo” na planilha de propinas da Odebrecht. Aqui, porém, trata-se mais propriamente de aliança dos amigos do Bozó com a escumalha da política nacional.

Assim como os governos do PT associaram-se a Sarney, Renan, Collor, Temer, Barbalho, Delfin, Maluf, ao mais profundo baixo clero e tantas flores do bem para viabilizar seu projeto de poder e controle do Tesouro, a TV BBB descaradamente une-se aos atuais simulacros dos tipos citados.

Troca visibilidade em rede nacional por apoio ao plano lelétantam de derrubar o presidente democraticamente escolhido. Depauperada pela queda de receita da publicidade pública (principalmente) e privada, mas momentaneamente revigorada pela audiência literalmente cativa do isolamento, os lunáticos tocam indiferentes sua guerra brancaleone.

Se Darth Vader baixasse hoje, não haveria aliado melhor. Na falta do vilão de George Lucas, pode servir o covid-19.

Cuidado, pau que bate em Chico bate em Francisco!

Ao sair atirando, Moro disse que tinha provas. Não tinha. Nem ele nem as testemunhas que arrolou. Decepcionou a oposição e a grande mídia, que esperavam pela bala de prata, e viram apenas um traque falhar. Aí, o ex-ministro apelou para a gravação da reunião ministerial de 22 de abril. Seria a confirmação cabal de que o presidente queria interferir na PF, argumento que convenceu o juiz Celso de Mello – tão solícito quanto seus companheiros de corte na atenção a tudo que possa encurralar o governo federal – a aceitar o vídeo como prova das acusações.

Os advogados de Moro sabiam que as revelações em nada afetam Bolsonaro do ponto de vista criminal e da acusação original, o que coloca em má situação o próprio denunciante, também investigado no inquérito aberto pela PGR. Como querer algo não é crime e nomear diretores e superintendentes de órgãos federais está no rol das atribuições presidenciais – tudo o que, com grande esforço interpretativo e muita imaginação, supostamente o vídeo contém –, Globo e companhia ganharam assim uma nova denúncia vazia.

Moro pediu, então, a divulgação de todo o teor da reunião ministerial, mesmo das partes que nada dizem respeito à questão original. Sabia da possibilidade de causar constrangimentos a Bolsonaro e ao seu governo. Sabia, acima de tudo, que o absurdo de se expor um encontro fechado de governo receberia o apoio da grande mídia – interessada, entre outras invasões de privacidade, no resultado dos exames médicos do presidente – e contava ter o STF como aliado.

Não se enganou. O decano viu a gravação e, ao perceber que nela nada há que afete gravemente Bolsonaro, lançou mão de uma antiga petição de partidos de oposição. Antes mesmo de liberar o conteúdo do vídeo para a TV Globo, determinou que seja bisbilhotado o celular do presidente. Era a máxima corte do país declarando guerra, definitivamente, ao poder executivo, pela caneta do honorável ministro, empunhada simbolicamente por todo o colegiado.

Se conseguir cometer a pretendida violação criminosa e nada achar contra o presidente, a que outro tipo de ilegalidade o STF irá recorrer depois? Quem não se escandaliza com tudo isso e até comemora as arbitrariedades do poder encarregado da defesa da Constituição deve avaliar melhor tal postura. A máxima do pau que bate em Chico também bate em Francisco está aí para ser aplicada. Depois, não adiantarão choro e ranger de dentes.

Principalmente se o choro verter e os dentes rangerem no cumprimento da ameaça de um militar do governo: as consequências podem ser imprevisíveis.

O JN acha que somos Simpsons

Homer Simpson, a audiência do JN

Uma jornalista que admiro diz no facebook que tem evitado falar de política, por não ser “comentarista de circo”. A julgar pelo que se vê, do lado do governo e da oposição, ela está coberta de razão. Sortilégios. Ilusionismo e prestidigitação de lá e de cá. Eu, da minha parte, pretendo continuar escrevendo sobre o assunto, mas pelo viés da “cobertura” da chamada grande mídia, aquela que um grande jornalista considerava apenas negócio. Eu concordo e acrescento: não temos mais jornalismo nem imprensa. Temos o grande circo da mídia.

Também citando terceiros, alguém disse que o papel de oposição no Brasil foi assumido pelas grandes empresas de comunicação. Perfeito! Até o PT e as siglas de esquerda perceberam a inviabilidade de tentar derrubar o governo pelas vias legais. Por isso, colocaram mordaça em seus porta-vozes institucionais, embora Lula e os postes sejam quase sempre incontroláveis. Falando em nome próprio, e interessadíssimos no espaço aberto pelos jornais e meios eletrônicos a quem se dispõe a atacar o presidente, sobram parlamentares, governadores, ex-ministros, especialistas, pesquisadores e ruelas esperneando.

É que pode haver eleição este ano, vai haver eleição em 2022, e nada melhor do que aproveitar a mídia para fixar imagem e nome junto ao eleitor. Essa gente faz lembrar a dúvida do editorialista da imprensa antiga ao receber o tema do dia seguinte: é para escrever a favor ou contra? Hoje, a pergunta é desnecessária: se o assunto for o governo, o redator já sabe que posição assumir. Os políticos de oposição fazem igual, sabendo que falar mal do governo é senha para ganhar tempo na TV BBB, por exemplo.

Motivos para crítica ao governo não faltam, e nem há o risco de ter de enfrentar contradita. O que é confortável demais para a pobreza da argumentação que costumam exibir. É só colocar a culpa no atual governo por pequenos e grandes males. Queimadas, secas, enchentes, miséria, educação deficiente, saúde precária, desemprego, salário baixo, dólar alto, e toda a desgraceira que o messias teria conseguido produzir em poucos meses, sem qualquer contribuição de quem governou o país nos 16 anos anteriores. Como essa mitologia não convenceu a maior parte dos brasileiros, a situação já era de pânico nas redações, quando afinal a natureza, como diz Lula, fez o favor para a humanidade de criar o novo corona vírus.

Com a pandemia, ampliou-se o repertório. Se o governo socorre quem mais está perdendo com a doença e com a paralisação dos negócios, a ajuda é insuficiente ou demora a chegar. Se o número de contaminados e mortos segue crescendo, a culpa é do presidente, que deseja outra política de isolamento, sem o bloqueio total da atividade econômica, mas foi desautorizado pelo STF. Para os meritíssimos, cabe aos governadores e prefeitos (sem que se saiba quem detém a palavra final) decidir sobre as medidas a tomar para “proteger” o povo.

Falta comando e coordenação na luta contra a covid-19, acusam os presidentes da câmara e do senado, apoiados pelo presidente da alta corte da justiça e pela direção do noticiário global, que vê na conversa mole outro ataque supostamente eficaz ao presidente da República. Esse discurso, tão incoerente por vir justamente dos que tiraram comando e coordenação da esfera do Palácio do Planalto, condena de fato os escassos resultados que estados e municípios estão obtendo para conter a progressão da doença.

Na mídia eletrônica, o JN é o que mais se empenha em dramatizar a situação por si só dramática, com cenas de mortos, caixões e covas mortuárias e a insistência com os tristes relatos de pessoas que não conseguem internar ou já perderam seus parentes mais queridos. Faz o que antigamente se chamava jornalismo marrom ou mundo cão, achando que com isso pode transferir o poder da pandemia (que nenhum governo nas condições brasileiras conseguiu enfrentar com um mínimo de eficácia) para o presidente em exercício.

Quem vê o apresentador William Bonner, posando todas as noites de professor ou doutor na bancada do telejornal, não haverá de se surpreender, se conhecer o apreço que o jornalista tem pelos seus telespectadores. Anos atrás, ao receber um grupo de docentes, Bonner explicou o nível da linguagem e do conteúdo do noticiário. Segundo o jornalista, a audiência é formada por pessoas como o mais idiota dos Simpsons, e é para ela que a TV fala.

Não precisa ser mais claro!

O que confunde mais?

Prezo demais a família Covas, mas o prefeito Bruno parece tão perdido quanto todas as autoridades envolvidas nesta desgraceira, aqui e fora. Depois de suspender o antigo rodízio, de estabelecer bloqueios locais e voltar atrás, ele criou uma restrição mais rigorosa (de 24 horas, dia sim, dia não, placas pares e ímpares, fins de semana incluídos) para a frota de veículos no município.

O objetivo, em todos os casos, era elevar o nível de recolhimento da população, que já superou 60% em abril, mas hoje fica permanentemente abaixo de 50%. As experiências deram errado. Não atingiram seus propósitos e mostraram cabalmente que nada têm de científico.

Foram apenas boas tentativas, que pareciam fazer algum sentido. Mas não fizeram. Tanto que a última delas foi suspensa neste domingo, por decisão do prefeito, voltando o rodízio tradicional a partir da segunda-feira. A doença cresce na cidade e no país, sem que a famosa curva se achate e deixe de colocar o sistema de saúde em risco de colapso. O que confunde mais a população?

A ciência é invocada para calar quem não concorda com as medidas defendidas por grande parte dos governadores brasileiros, no que diz respeito à recomendação para que a população fique em casa e obedeça ao distanciamento social. Igualmente, para convencer as pessoas a não insistirem em trabalhar, sair em busca de renda e, na volta, levar comida para casa.

Na edição deste sábado, o Jornal Nacional, que usa a pandemia em sua feroz oposição ao governo federal, dedicou boa parte do tempo para demonstrar “cientificamente” supostos bons resultados de tais medidas. Desde que o presidente Bolsonaro refutou o confinamento vertical, por entender que ele leva à paralisação da economia e ao empobrecimento da população, a emissora levantou a bandeira contrária.

Os “cientistas” da Globo também não recomendam o uso da cloroquina no combate à covid-19. Têm bons argumentos, mas está claro que o posicionamento também decorre de o presidente defender que ela pode ser um recurso contra o mal, segundo outros médicos e pesquisadores.

A TV veta, mesmo que o Conselho Nacional de Medicina tenha deixado a decisão a critério dos especialistas, com autorização do paciente. E ainda que o comandante paulista da principal frente de enfrentamento ao novo corona vírus, o Dr. David Uip, tenha escapado da doença com o uso da substância.

O fato é que a ciência, nem aqui nem no mundo, deu qualquer resposta concreta ao enorme problema que estamos enfrentando. Como escrevi outro dia, por enquanto existem só discussões e dúvidas. Certezas, infelizmente, só as mortes de todo dia, mesmo nos lugares onde o confinamento foi adotado.

Em Orwell, 1984 era futuro. Na nossa TV, é recuo

Para acompanhar o noticiário do dia, prefiro a CNN à Globo News. Acho a TV do pastor mais ágil e informada. À noite, arremato com o JN, o Jornal do Necrotério, comandado por Dr. William Bonner e sua assistente Mortícia, com as intermináveis cenas de caixões e covas fúnebres, depoimentos de pessoas com dificuldades para internar parentes ou que já os perderam para a pandemia e críticas às ações do governo federal, no combate ao corona vírus. Só não faço isso todo dia porque meu nível de depressão não chegou a tanto.

Assim, antes de me entreter com algum filme, termino o dia com sensações estranhas. A primeira é a de que, até março, ninguém morria neste país. De lá pra cá, outra impressão, os brasileiros só morrem infectados por covid-19. Também fico com a certeza de que foi a partir deste ano que nossos hospitais (principalmente os federais) e todo o sistema de saúde deixaram de funcionar e cuidar bem dos pacientes. É inacreditável ver como, a crer no principal noticioso da TV BBB e sem qualquer motivo, um atendimento de primeiro mundo virou digno dos países mais atrasados.

Outro dia, para supostamente se contrapor às autoridades federais, que teriam desdenhado da triste mortandade, o JN (Jornal do Necrotério) achou que daria um tapa com luva mortuária na cara do presidente se passasse a nominar todas as noites os mortos brasileiros da pandemia. Não demorou a perceber a insanidade da coisa. Mesmo esticando ainda mais o “noticiário”, já inflado por absoluta falta de anunciantes e de novas produções para preencher a grade, não haveria espaço para tanto necrológio.

Foi quando surgiu ideia melhor. A partir de ontem, conforme anunciado com a toda a solenidade pelo apresentador, o cenário de fundo do telejornal passou a exibir fotos de vítimas da doença. Trata-se, segundo afirmou, de uma homenagem aos mortos. Uma espécie de túmulo do soldado desconhecido, já que só familiares e amigos mais atentos talvez reconheçam os homenageados. De toda forma, vale a intenção.

O noticioso da Globeleza também nos dá a impressão de que até recentemente vivíamos felizes num país rico e justo, capaz de nos oferecer emprego e prosperidade, igualdade plena e totais condições de crescimento pessoal. Nenhuma fome, nenhum miserável. Mas tudo isso acabou, pela força exclusiva de um governo que, tendo encontrado todas essas condições, fez a nação desandar. Os anteriores 16 anos de corrupção sumiram por desencanto, como na sociedade de 1984 (o livro, não o ano, embora também seja a data que George Orwell, morto em 1950, escolheu para situar o futuro totalitário do Big Brother).

Mais intrigante é que, depois de ver ao longo do dia os mesmos fatos, personagens e locais no noticiário das duas TVs, fiquemos com a impressão de que são coisas absolutamente distintas. Repórteres e comentaristas estariam a tratar de temas diferentes. As descrições e análises não batem. O que nos coloca diante do dilema de ter de decidir em qual acreditar. De ter como verdadeira qual versão, qual narrativa, como se costuma dizer agora.

Como nas situações antagônicas cada qual aposta em fontes de um lado do confronto, talvez o mais prudente seja duvidar das duas. E concluir que o nosso jornalismo morreu, pelo menos na grande mídia. Falta Dr. Bonner informar se de covid-19 ou insuficiência respiratória aguda.

E mostrar o caixão.

Não estou aqui para ilibar ninguém

Vi um vídeo, hoje, em que um senhor português não identificado afirma que não se pode “ilibar” a China pela proliferação da covid-19. O que me encantou foi o uso do verbo. Estamos tão habituados a ouvir/ler chavões e lugares comuns, que muitas vezes nem damos atenção ao sentido das palavras. “Reputação ilibada” passa tão batido que o atestado perde valor.

Mas foi a partir desse “ilibar” que me liguei no que disse o conterrâneo. Segundo ele, antes de a China parar de tentar calar os médicos que alertavam para a gravidade da epidemia e, afinal, determinar o bloqueio, cerca de sete milhões de chineses fugiram da região de Wurhan, em que o vírus surgiu. Teriam ido para vários lugares, e assim o coronavírus “pandemizou” (ops!).

É apenas uma opinião, corroborada por cientistas de outras partes do mundo, mas que não é aceita, por exemplo, pela OMS, que se omitiu gravemente no início da crise. É tema para estudos e estudos, livros e livros, décadas e décadas pela frente, e ainda assim não se chegará a um consenso. O vírus nasceu num mercado popular  de comida na China ou foi criado em laboratório, nos Estados Unidos ou em qualquer outra parte? Não estou habilitado a responder.

De tudo isso, porém, resta uma certeza. Não foi um brasileiro o criador desse mal, por mais que os oportunistas, resistentes e suspiradores do golpe queiram que tenha sido. Já temos suficientes proezas fantásticas, boas e más. A grande mídia não precisa criar outras lendas. Viu, Estadão?

O Messias e a pandemia

No segundo turno de 2018, espremido entre alternativas igualmente muito ruins, pela primeira vez em minha vida de eleitor optei por votar em branco. Considero essa opção mais correta, mais cidadã, do que a abstenção ou a anulação do voto, para mim formas de lavar as mãos e fugir da responsabilidade. Sabia que assim daria meu voto ao escolhido pela maioria, qualquer que fosse, e ajudaria a legitimar a escolha. Não me arrependo, pois acho que o “não-voto” foi tão decisivo para a eleição de um quanto o sufrágio dado ao adversário. Quatro anos antes, a vantagem de Dilma para Aécio foi bem menor, mas nem por isso à eleição da petista faltou legitimidade

Anunciado o resultado das urnas de 2018, porém, decepcionados pela não confirmação das previsões de vitória petista das pesquisas Ibope e DataFolha, os derrotados imediatamente passaram a trabalhar para que o eleito não tomasse posse. Não deu certo, mas eles não desanimaram. A partir de janeiro de 2019, sem observar ao menos o tradicional armistício de seis meses ou 100 dias, trataram de buscar motivos para derrubar o presidente. A chamada “resistência” aos poucos encontrou apoio em outras agrupações políticas, em representantes dos demais poderes, em instituições além das dominadas pela esquerda e, notadamente, na grande mídia.

Todas as tentativas resultaram fracassadas, uma vez que, bem ou mal, o governo aos poucos foi colocando o país na rota da recuperação econômica. Apesar das patacoadas perpetradas por alguns ministros e pelo próprio presidente, somadas às constantes contribuições da família, a popularidade de Bolsonaro seguiu em alta (menos nos mesmos institutos que profetizaram sua derrota). Até que a pandemia chegou por aqui e, diante da inevitável fragilização do país, surgiu a oportunidade tão esperada. Com os disparates presidenciais, não foi difícil para os interessados jogar as contas sanitárias e econômicas do novo corona vírus nas costas do Palácio do Planalto.

O Jornal Nacional da Rede Globo, uma das expressões maiores do ódio ao governo, passou a dividir-se em dois blocos. O bloco do pavor, que toda noite usa e abusa de cenas macabras, dignas do mais inescrupuloso mundo cão, e o bloco “fora Bolsonaro”, com espaço generoso para quem quer que tenha alguma crítica justa ou injusta a fazer, além da cobertura das sandices bolsonaras. Até panelaços, com imagem e áudio fornecidos pelos orgulhosos “resistentes”, ganharam direito ao horário nobre da TV Zorra Total.

O problema é que se torna cada vez mais difícil convencer a opinião pública de que uma pandemia mundial, capaz de causar enormes estragos em países mais ricos e desenvolvidos, se manifesta no Brasil por culpa única e exclusiva do governo. É claro que nem o Messias tem poder para tanto. E a ciência, tão invocada para explicar essa suposta culpa, até agora não deu qualquer resposta concreta ao mal que aflige o mundo. O tal isolamento é apenas paliativo, sem comprovação científica, usado em vários países com maior ou menor adesão, maior ou menor sucesso, enquanto não existem medicação e vacina.

Tem razão o ministro da Saúde: não se conhece suficientemente o novo vírus. Sua força e suas formas de transmissão, as melhores maneiras de colocar as pessoas à salvo de sua ação predatória . Em nenhum país, sequer os testes foram aplicados em número adequado e, sem eles, não se pode dizer que se atingiu algum nível de conhecimento. Nem na Alemanha. Por isso, supõe-se que o distanciamento social seja capaz de conter a contaminação. Supõe-se, acredita-se, acha-se – porque certezas, por enquanto, há muito poucas.

A pandemia e o circo

No início de março, o circo Stankowich chegou completo a Itupeva: caminhões, ônibus, trailers-moradias e uma troupe de 87 integrantes, entre familiares, artistas e funcionários. Instalou-se num terreno na entrada da cidade, armou a imponente lona com quatro mastros e apresentou-se para o distinto público durante duas semanas. O espetáculo Bravíssimo tinha sessões de terça a sexta, às 20 horas, e aos sábados e domingos, às 17 e às 20 horas.

Mas veio a quarentena do corona vírus e as funções foram paralisadas. Faz dois meses, não há mais palhaçadas, mágicas e acrobacias – e o circo parado em Itupeva, porque não pode ir para outra cidade. Sem a renda da bilheteria, colocou para funcionar a barraca de pipoca e algodão doce e passou a aceitar doações de alimentos. Além disso, oferece shows virtuais e lives na internet (facebook.com/circostankowichvermeha), em troca de contribuições em dinheiro para pagar o aluguel do terreno, a água e a luz que consome. Também vende vouchers que dão direito a cinco ingressos nos próximos dois anos.

Assim, o circo de origem romena, o mais antigo e um dos maiores em atividade no país, foi pego pela crise do vírus chinês. Mas não só o Stankowich. No Brasil são cerca de 600 circos, que empregam aproximadamente 30 mil pessoas e reúnem em torno de 25 milhões de espectadores, anualmente, em seus espetáculos. Todos estão na mesma situação: com as bilheterias fechadas, esperam a pandemia passar e recorrem à ajuda do público para sobreviver.

Uma guerra de vida ou morte

É pela vida a guerra que a Globo trava contra o presidente. Guerra do dragão contra o dragão, pois não há santo guerreiro nessa história. Mal contra o mal, e o bem fica muito bem escondido, porque entre os apoiadores de lado a lado não há em quem confiar.

Para a emissora que teve o mérito de introduzir o BBB por aqui, a questão parece ser mesmo de sobrevivência, a julgar pelo pífio desempenho comercial que se observa em seus chamados horários nobres.

Nos intervalos do Jornal Nacional, a globo é agro, a globo é tech, a globo é pop, com o apoio de um banco e de uma montadora. Deve render uns pichulecos, mas é só. Há duas semanas, também tentando colocar o nariz acima do nível da água, a TV Zorra Total liberou seu jornalístico, que passou a mencionar o nome de empresas nas reportagens.

Rompeu uma tradição de décadas sem chamar, por exemplo, as equipes Red Bull de Red Bull, nas transmissões esportivas, principalmente o automobilismo. Para Galvão Bueno, a escuderia chama-se RBS, entenda quem puder. E o telespectador que se dane.

O pretexto atual é estimular a iniciativa privada a ampliar a ajuda humanitária no combate ao covid-19. Surgiu até uma vinheta criativa: “solidariedade S/A”. Mas a ajuda que se espera, e que ainda não apareceu com força, é de fato o incremento da publicidade paga nos canais do Bozo.

A situação é tão triste que, na noite de domingo, num intervalo do Fantástico, foi visível a absoluta ausência de inserção comercial de porte. Entre chamadas da programação global, o que apareceu foi um único e escasso reclame (como é bom ser antigo, para poder usar expressão tão saborosa!) de construtora local, na retransmissora de Sorocaba.

O que poderia salvar a lavoura seriam verbas irrigadas por ministérios, bancos públicos e estatais de variados setores. Ah, como fazem falta o adubo de uma Petrobrás, os insumos do Banco do Brasil, a chuvinha boa das leis de incentivo bancadas pelo dinheirinho da União! Mas o capetão malvado cortou tudo isso.

A saída é derrubar o causador de tanto mal. Fora, obscurantista inimigo da democracia, da cultura e da imprensa livre e sua gangue de milicianos rancorosos! Que venha alguém mão aberta no uso dos recursos públicos, como os governantes anteriores!

Afinal, que mal tem gastar rios de dinheiro na propaganda de empresas monopolistas, dispensadas de seduzir consumidores compulsórios? Por que não dar estímulos a ações meritórias como as da FRM? Como ser contra o financiamento de obras primas da sétima arte, como as impagáveis comédias produzidas pela Globo Filmes?

A pancadaria dos últimos dias nos canais das Organizações Tabajara é mais do que justa e merecida. E não se cobre coerência desse jornalismo com causa. Se até a semana passado o candidato a presidente defendido era o Botafogo (codinome do presidente da Câmara dos Deputados na planilha de propinas da Odebrecht), não há de haver espanto se agora ele perdeu espaço e foi substituído.

Eis que uma voz mais alta se alevanta e a vitória, com ela, parece estar próxima. Mais do que nunca, a salvação justifica os meios empregados. No desespero, a emissora usa tudo o que tem, das distorções ao direcionamento do noticiário, e abandona de vez o respeito à boa conduta jornalística.

Lamento pelos bons profissionais envolvidos nisso.

Lamento a saída, mas Moro errou na despedida

Só fui ouvir falar do juiz Sérgio Moro quando ele passou a cuidar dos casos ligados ao petrolão, escândalo comandado por Lula quando presidente e continuado no governo Dilma. Imediatamente, passei a admirá-lo, pelas atitudes firmes e pela correção com que se conduziu ao longo de todo o processo. A admiração estendeu-se à toda a equipe da Operação Lava Jato, promotores, desembargadores e policiais federais.

Entendi, e continuo entendendo, que as revelações levantadas pela operação e sobretudo a condenação e prisão de dezenas de medalhões, entre empresários, doleiros, autoridades públicas e políticos bem situados transformaram o país em modelo no combate à corrupção. Por isso, fiquei surpreso quando o juiz resolveu aceitar o convite do presidente eleito para assumir o cargo de ministro da Justiça e da Segurança Pública.

Para mim, Moro deu ali um passo errado. Aceitei, contudo, a razão apresentada por ele para abandonar a magistratura em troca de um cargo público. Como ministro, Moro julgava que teria mais força para levar adiante e aprofundar a luta contra a corrupção. Para isso, recebeu garantia de carta branca de Bolsonaro no exercício do cargo.

Pela experiência acumulada e as dificuldades enfrentadas em Curitiba, a estratégia de Moro era dar maior respaldo jurídico à Lava Jato. Daí ter dedicado seus primeiros dias de ministro à formulação do pacote anticrime, apresentado ao Congresso em tempo recorde, no dia 4 de fevereiro do ano passado, um mês depois da posse do novo governo.

O projeto foi retalhado na Câmara e, em seguida, colocado de lado, sem que Bolsonaro saísse em defesa do seu ministro. Ao contrário, o presidente estimulou inclusive alterações no formato do Ministério, entre elas a retirada da Coaf de sua jurisdição. Moro engoliu os primeiros sapos e seguiu no cargo.

Em agosto, o ministro de novo ameaçou sair do governo, diante da possibilidade de o Planalto substituir o delegado da PF no Rio de Janeiro. Bolsonaro recuou e repetiu juras de amor a Moro, que se sentiu prestigiado. Assim, entre tapas e beijos, a relação foi levada até a última sexta-feira, dia 24 de abril.

De forma que lamento a saída de Moro, como uma perda para o País. Mas não posso deixar de assinalar um erro do ex-ministro no anúncio da renúncia. Ele não tinha o direito de trazer a público conversas pessoais com o presidente, uma vez que elas se deram dentro de uma relação de confiança entre os dois.

Minha opinião se baseia na experiência que tive como assessor de imprensa de empresas privadas e órgãos públicos. Nessa situação, o profissional de comunicação tem compromisso ético claro com o cliente. Deve manter estrito sigilo sobre informações obtidas no contato privilegiado com ele. É algo semelhante à relação do advogado com o cliente e do padre com o confessor.

Moro fez como o vigário que, no sermão de domingo, conta detalhes da confissão de um paroquiano. Ou como o defensor que denuncia o crime narrado pelo cidadão que lhe pede ajuda profissional. As informações que Moro divulgou não mais lhe pertenciam, mas sim ao ministro de Bolsonaro, o que já não era.